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Muitos dos problemas que experimentamos devem-se à nossa dificuldade em perceber as leis comuns que regem assuntos diversos. Por causa dessa dificuldade, avaliamos os problemas superficialmente e oferecemos respostas que não tocam o fundo das questões e que, ao mesmo tempo, ignoram suas semelhanças. Gastamos energia desnecessariamente e raramente encontramos soluções eficientes para os problemas cotidianos. Agimos desta forma pouco prática no que diz respeito à condição ambiental das cidades brasileiras. A maioria tem poucas árvores. Algumas possuem praças, parques e alamedas, mas um levantamento honesto revelaria a escassez crescente de árvores nas ruas e nos lotes. As pessoas não percebem a gravidade deste fato, pois não estão acostumadas a cuidar de suas cidades do mesmo modo como cuidam de seus lares ou dos seus corpos. Não percebem as semelhanças entre coisas tão diferentes. Uma cidade sem árvores é como uma casa sem vida. Uma casa sem vida não passa de um invólucro ou um casaco de alvenaria. Espaços desse tipo apenas cumprem uma função imediata, mas ignoram aquilo que ultrapassa a utilidade e que promove a vida. Uma casa define-se não apenas por seus elementos construtivos - paredes, telhado, portas e janelas -, mas também por tudo aquilo que ela comporta - móveis, pessoas, atividades, memórias, luz e ar. Uma cidade pode ser observada da mesma forma. A obsessão dos governantes em resolver problemas estruturais - malha viária, sistemas de transporte, rede de água e energia etc. -, por mais que pretenda corresponder às constantes reclamações dos eleitores, reflete ignorância em relação a outros elementos não menos importantes: a vida que ocupará as ruas e avenidas da cidade. Pessoas cuidam da saúde e fazem faxina em casa, procuram manter uma boa alimentação e a organização nos armários, mas não pensam em coisas semelhantes quando saem às ruas. Quando a ausência de sombra lhes queima os miolos, as pessoas não pensam nas poucas árvores nas ruas; elas simplesmente vão a uma padaria e compram uma garrafinha plástica de água mineral ou se escondem sob o vidro fumê de um carro com ar condicionado. O calor excessivo não as faz perceber que não há uma árvore à frente de suas casas. Elas não pensam no calor quando cobrem de concreto seus quintais, não consideram os benefícios de ter um pequeno pomar ou uma horta doméstica. Coisas raras geralmente são valiosas. O imediatismo não permite ver que o ouro do futuro será verde. Planos de previdência garantem dinheiro no futuro; planos de saúde e bons hábitos garantem um envelhecimento saudável. Árvores plantadas hoje - algo que não exige gastos com mensalidades nem um modo de vida espartano, apenas água e um pouco de adubo natural -, podem garantir alimento e bem-estar. Às vezes a simplicidade do gesto é ocultada pela sua raridade. Você já plantou árvores, já comeu algo que você mesmo plantou? Conhece alguém que costuma plantar árvores ou cuidar de uma horta? Há em sua cidade um viveiro que possa fornecer mudas de árvores frutíferas e nativas da região em que você vive? De que forma e em que lugar você poderia plantar uma árvore, protegendo-a do risco de ter que ser cortada mais tarde? Faça-se estas perguntas, olhe ao redor, encontre um lugar para plantar um árvore - no quintal ou à frente de sua casa. Escolha uma boa muda, colha informações (a Internet existe para isso), cave um buraco e cultive algo além da raiva de viver numa cidade tão feia e quente.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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