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Como em qualquer governo, Lula não tem escolha que não pautar suas decisões pelo princípio de realidade. Não se governa das nuvens, mas ao rés do chão. É a arte do possível. É isso que tem feito na política econômica; é isso que tem feito nas tentativas de construção de alianças políticas. A pior coisa para um governante é perder a condição de governabilidade. Aqui está a raiz do desconforto dos petistas de todos os matizes. A maior parte deles passou a vida a sonhar e a lutar pela implantação do socialismo, nas suas diferentes formas. Chegar à Presidência da República parecia ser o caminho mais curto para a realização dos seus devaneios. Ocorre que o ideal socialista é uma grossa retórica vazia, sem qualquer compromisso com a realidade, só podendo ser posto em prática em regimes totalitários, ao preço da morte de milhões de pessoas e da negação da liberdade. Como no Brasil não foi feita revolução alguma, mas se chegou ao poder pelo voto, é necessário governar mantendo a normalidade econômica e o jogo parlamentar, onde as forças petistas são minoritárias e desunidas. Esta é uma das suas fraquezas congênitas. [É claro que estou abstraindo aqui da chamada revolução gramsciana, que tem transformado a normalidade em doses homeopáticas ao longo de décadas e o próprio Lula chegou ao poder no seu vácuo. Por ser lenta, todavia, não atua de forma efetiva em curto espaço de tempo, embora no longo prazo a sua eficácia seja total.] Não podemos esquecer que Collor foi excluído da classe política porque foi arrogante e tentou ignorar as forças que dominam o Congresso Nacional. Perdeu o cargo e os direitos políticos. As acusações de corrupção nunca foram provadas, mas elas serviram para dar instrumento para que a vontade de quem tem o poder no Legislativo prevalecesse. Assim também com muitos parlamentares cassados, que tentaram ignorar os velhos cardeais da política. Arrogância é má conselheira. No Parlamento os cardeais constituem sólida maioria e mandam de fato, embora sejam flexíveis e, uma vez cooptados, prestam-se muito bem a ser a linha auxiliar do Executivo. Não se pode governar contra eles. FHC disso sabia e o fez muito bem. Seu governo, de oito anos, foi uma platitude parlamentar. O problema é que esse grupo de cardeais não é monolítico e lideranças são alternadas. Sarney, por exemplo, que está sendo tão cortejado pelo governo Lula, é claramente membro do grupo, mas já não tem a liderança que era visível em outros tempos. Tem agora contra si as lideranças emergentes, que querem o seu lugar. Apostar todas as fichas no ex-presidente é um erro tático. Penso que o tempo de ouro do velho senador pode acabar com o seu atual mandato de presidente do Senado. Os tempos mudam, como se vê, e as lideranças também mudam. O PMDB é uma federação de muitos líderes de facções. FHC fez muito bem em ter no PFL sua perna de apoio, pois este partido é mais homogêneo e suas lideranças são mais estáveis. O PMDB é um enorme balcão, com demandas diferentes, contraditórias e insaciáveis. É mais difícil administrar o partido do que a República, pelo que se vê. Mas Lula apostou forte na força do fisiologismo, sendo que está mais do que provado que essa ferramenta é bastante insatisfatória para se chegar à governabilidade. Cada votação passa a ser um mercado persa de troca de favores e cargos, algo bastante repugnante e atentatório para a consciência dos formadores de opinião, redundando fatalmente no encurtamento do apoio popular e no volume de votos. A recente derrota eleitoral do PT nos grandes centros urbanos é uma amostra disso. Muitos são os dilemas de Lula, mas ele sabe que o essencial é se manter no poder. O difícil é descobrir o caminho das pedras para isso. É o que faz a diferença entre o estadista e o politiqueiro provinciano. Nota do Editor: José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP.
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