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- Homem de Deus. Disse tia Mariquita para sinhozinho, seu marido - "Não ficais aí entretido à toa de barde, tira o cu dessa banca e ide buscar lenha. Não bêde que o tempo tá enferruscado com jeito de trubuzana? Ide logo, senão é capaz que choba e bóis não ide fazer a lenha prá móde fornear amanhã. - Não inticais comigo. Disse sinhozinho, seu marido, "Bêde que tô desenrolando esse pinhé, que é prá móde vê se mato umas cambebas pra armoçar amanhã. E de mais a mais, já fiz dôi feixes de graveto que botei no canto da cozinha, ou já gastaste tudo a grané? Se gastaste estais muito trumbicada, além de intiquêra levada do sarambeque, precisais regar mais. Se estais com bontade de acompanhar a folia, não ficais combalida, o bambão ainda está na praia Grande e ainda vai demorar um cuizinho até chegar aqui na Fortaleza. Além disso ainda temos um quitezinho de farinha na talha, e no mais tardar de amanhã em diante, depois que eu vinhé da espinhalada vou tratá de cortar aquele caniveteiro que tá no acêro da roça e passá o machado naquela embaubeira que está querendo cair por riba daquela moita de moncarém, no acêro de baixo, mas se o pau com formiga teimar em ficar em pé, eu já arranco aquele eito deixando uma tigüera prô ano que vem, a não ser que a cambedada for de mais da conta e eu tenha que me entretê em consertar a batelada, aí bóis tende que assentar o pacuá e esperar mais um cuizinho até eu saprezá tudo, se fartar farinha, emprestái uma cuia do compadre Nófre, que depois de nóis fornear, bóis ide e pagais o desmingolado. - Deixáis de lengalenga. Retrucou tia Mariquita - "Não se assuntais que o enferrusco está crescendo que nem queimada em capim melado, e se bóis não arrancá a mandioca prá nóis fazê logo a farinha, aí babau. O sudunga bate na porta, não entreteis mais, senão é capaz de acabar a farinha da talha. Deixai de engriguilho, desatái logo essa pendenga e bâmo logo se engrevê com a farinhada. Deixái a cambeba prá depois". - Arrelá, por caridade mulhé. Retrucou sinhozinho - "Não inticáis comigo. Bêde que já enverguei o puçá prá móde apanhá camarão amanhã de madrugadinha. E se tudo corrê bem e o Espírito Santo me ajudá, logo cedo com o cair da viração e quando o rebojo do terralão vinhé, já estou correndo a béla na minha patinha, feita de guapurubu do vermelho, que já está com o mastro na carrinca e a driça amarrada no banco da prôa, só fartando passá a escota na pôpa. Aí sim, saio correndo a béla no traquete do binho que entralhei trezantedonte e que já estou esbaforido de tanta vontade de estrear o desgramado e se tudo der certo e a cambebada estivé a guatá no largo do Mar Virado, depois da espinhelada e de consertá e saprezá toda pescaria, aí sim vou prá roça arrancá mandioca prá móde fazê a farinha que bóis quereis que eu faça. Depois da farinha torrada e do peixe saprezado então é só acompanhá a folia e se apinchá na dança do chiba e sair por aí batendo badulaque até riscá o dia". - Tomáis acento e bêde que com esses amontoados de letras eu quero que assuntáis como nossa parola era uma pandega e eu, como faço parte desse povo prozeador rabisquei no papé o que é uma lorota que serve de alento a todos mecêis, meus parentes e outros forasteiros que por acaso queiram fazer parte do meu povo que a bem da verdade temos grande prazer em ir de encontro com mecêis. Com nossos causos, histórias, contos que fazem parte da nossa cidade e nossos costumes. Não se faça de sonso, benha logo que tâmo esperano a bóis, do parente de quatro costados.
Nota do Editor: João Barreto Mesquita é comerciante e natural de Ubatuba. Com seus contos e "causos" é um dos grandes defensores da cultura caiçara.
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