|
O encontro aconteceu há uns 20 dias, perto da porteira, à sombra de uma figueira centenária, lá na fazenda Fortalezinha. - E aí, Paulinho, tudo bem? - Fala Minerim. Tudo bem. E a molecada? Firme? - Tudo firme, que nem geléia. E os bois? - Mais ou menos. Engordar boi não é fácil. Mas dá pra empatar. O pasto tá caro e quando chega a seca o fogo vira inimigo daqueles brabos. Chego a varar a noite cercando e apagando fogo pra não perder nenhuma cabeça de gado. Quando não é o fogo, o perigo é a cobra. Quando não é a cobra, vem esse bando de ladrão, encosta o caminhão na calada da noite e leva tudo. Roubam os cavalos e depois juntam os garrotes e põem no caminhão. Lá se vai o investimento do pobre criador. Como aconteceu com o meu vizinho. O pior é que a Polícia nunca prende ninguém. Até parece Brasil. E a gente sabe que quem rouba, mata e vende a carne aqui perto. Não em São José, mas em Guaxupé, São João, Poços ou Mogi Guaçu. É tudo tranqueira! - Puxa vida, mas tá assim? É melhor eu tirar o cavalinho da chuva e nem pensar em criar gado. Sou tão azarado que é capaz de ser roubado depois que o bezerro virar garrote e já tiver umas 16 arrobas. Mais azarado, só o cara que compra um circo e o anão cresce. Né mesmo? - É verdade. Pior ainda é quando o anão cresce e nem vira artista. Mas eu ainda tenho uns garrotes que vão ficar bão pra corte logo-logo. Tá vendo aquele pretinho ali adiante? Então, daqui a uns três meses, no máximo, como é carne de primeira, é certeza de exportação. É que nem jogador de futebol. Engordam, engordam e os melhores vão embora. Olha a saúde do bitelo. Vai ficar mais forte ainda. A carne desse bicho é melhor do que a picanha argentina. Só não posso perder o danado justo agora. Preciso cuidar bem do pasto e botá um camarada pra não deixá o ladrão levá embora de graça. - E se você mantivesse a garrotada toda aí, não seria mais vantagem virar boi de verdade? Quanto mais gordo, mais lucro quando do abate. - Se tá doido, sô! Qué que eu perca tudo pro caminhão dos omi da madrugada? Nada disso. Deu dois anos e meio, perto de 20 arrobas, eu passo tudo nos cobres e compro mais bezerro desmamado para recompor o plantel, engordar e vender de novo, uai. Num sô tonto! - Calma! Por que você ficou nervoso e destramelou a falar errado? - É que eu viro um touro brabo quando alguém vem lá de Santo André e começa a vomitar besteira desse tamanho. De terra, de café e de boi entendo eu, e fim de papo. - Tá bom, ooo... brabão! Perdão, não tive intenção. Paulinho, acho que vou voltar a ser seu sócio. Ou do Plínio... - Ah, Minerim, é melhor não. Se perder, eu perco sozinho. Às vezes você irrita, mas te quero como irmão. Não posso levá todo mundo pro buraco se a coisa der errada. Por que você não compra um terreno ali no Bonsucesso, perto de casa? É mais certeza. É investimento que nem poupança. Não tem risco. Gado é que nem bolsa de valores; só dá dor-de-cabeça. É sal, vacina contra aftosa, cobra venenosa, gasto com camarada, cerca, pasto, e ainda tem ladrão e o preço não é garantido. E se o governo faz como daquela vez e confisca o gado todo? - Se tá loco, sô! Vira essa boca pra lá. Agora quem tá lá é o Lula e não o Collor. - O, Minerim, você pensa que eu sô tonto mesmo! Moro no mato e lido com animal, mas não sou tão burro assim. Já morei em São Bernardo e trabalhei na Villares. É tudo igual. Collor, Fernando Henrique, Lula. É tudo gado do mesmo trato, bezerro da mesma mãe. Político é político, não é jeca-tatu que nem nóis. Só que nóis dá um duro danado de sol a sol. Enquanto isso, em Brasília, uma canetada pode acabar comigo, com o meu gado e com o meu café ainda tão novo. - É, o pior é que você tá certo. Mas a poupança também já entrou na dança. A coisa não muda muito. O endereço é o mesmo. Troca o inquilino mas eu não recebo o aluguel... - Peraí! Olha lá o danado do neguinho com uma estrela branca na testa! Esse não tem jeito. É muito rápido. Atravessou o rio na hora da água rasa (represa fechada) e agora ninguém segura. Plínio! Pega logo a mula e vai lá atrás do Robinho e dos outros garrotes. Se não ele toma o mesmo rumo do Kaká, do Ronaldinho, do Adriano, do Luís Fabiano, do Wagner Love, do Diego e dos outros mais criados. - Mas você disse que criou o Robinho para vender para a Europa... - Disse e confirmo. Boi a gente engorda pra ganhar dinheiro e sobreviver. Exatamente como estão fazendo nos últimos anos com nossos melhores jogadores. A ordem é exportar e faturar. É uma pena, mas todos vão para o corte. Bão pra mim, né? Por isso que é vantagem vender para a Europa. Eles pagam mais. E em euro. É mole? Dizem que os boizinhos gostam de lá porque o pasto é bão memo sô. Vão engordá mais ainda. - Peraí! Você está misturando intencionalmente boi e jogador de futebol. - Minerim, você não é bobo. Tudo é produto. De futebol, sou zero à esquerda, mas de gado eu entendo. É melhor você ser empresário de jogador. Sem pensar em boi. Repito: o fogo não mata, o carrapato não pega, a vacina não é obrigatória, o sal é barato, a cobra não pica, o governo não confisca e os omi do caminhão grandão não chega de madrugada para levá tudo e nóis ficá chupando dedo. Tá bão? - Cunhado, de trouxa você não tem nada. Comparou o jovem jogador de futebol ao garrote aqui da Fortalezinha. O Brasil cria e cuida da meninada; o europeu compra e assiste ao show. E nós ficamos sem ídolos e sem torcedores nos campos de futebol. - É isso. Então, sobe aí na picape e vamos embora. Hoje eu vou fazer carne de capivara enquanto você cuida da caipirinha de maracujá. Peraí, o Plínio já trouxe o Robinho mas num pára de se coçá. Tá na cara que é carrapato estrela daqueles bem grandão. Isso mata, sabia? Mas ele tá acostumado. Enquanto isso, no Morumbi quase às moscas, nem toca para Leonardo, que serve Marcinho, que tenta um passe de três metros para Correia mas erra; Magrão tenta consertar mas pisa na bola e cai. Jô retoma para o Corinthians e toca na lateral para Fininho, que empurra para Renato. O ala-meia tenta atravessar para a direita, mas Edson fura, não domina. Lateral para o time verde. Qual é mesmo o nome daquele? O antigo narrador pede ajuda. Ninguém sabe. "O céu está carrancudo, torcida brasileira... Lá vai o menino que veio de Rio Pardo..." - diria o grande Fiori Gigliotti. Hoje, os poucos torcedores não têm ídolos nem no campo do Vasco, do Botafogo ou da Associação Atlética Rio-Pardense. Preferem tomar cerveja no Saideira ou pescar no riozinho - ou seria corguinho? - da fazenda Fortalezinha, na divisa de Rio Pardo com Divinolândia. Ou no pesque-e-pague da Santa Lúcia. Pra quem gosta de traíra bem criada, como o seu Valério, meu pai, é melhor optar pelo açude do Hélio Escudeiro. Logicamente, hoje em dia, sem nem ao menos a companhia do velho radinho de pilha dos anos 60, ligado na Bandeirantes de Fiori, Flávio Araújo, Roberto Silva e cia bela. Que pena! Resta a imagem da esperança, sem graça e sem emoção, da ESPN, que nos mostra os principais campeonatos europeus, onde desfilam os melhores nelores, lemousins e zebus. Saudade das tardes de domingo com futebol de verdade, ao vivo. " Nesse domingo tem Maracanã, tem Maracanã..." - diz a música. Infelizmente, tem Maracanã, tem Pacaembu, tem Morumbi, mas não tem mais ídolo nem futebol. Somos meros criadores de bezerros desmamados. Nota do Editor: Donizeti Raddi é jornalista, professor de Educação Física e colaborador da Photo&Grafia Comunicação.
|