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Há poucas coisas em que o Brasil consegue ser melhor que os Estados Unidos. O uso da expressão "ganhar dinheiro" em vez de "to make money" é uma delas. A outra é o pão-de-queijo. Ao contrário do que pode sugerir o verbo inglês, as pessoas não fazem dinheiro. Quem faz é o Estado. Nós apenas fazemos por onde ganhá-lo. Qualquer cidadão comum possui inúmeros fins materiais que ele gostaria de obter. São incontáveis, os seus desejos significadores de prosperidade. Ele pode querer uma casa, um carro, um Rembrandt, uma viagem para a Nova Zelândia, ou qualquer outra coisa. Mas ele, sozinho, não faz a menor idéia de como produzir estes bens. Nem tem capacidade para ir à Oceania sozinho. Apenas sabe que bens são produzidos e servidos por vários outros indivíduos. Resta, então, se apropriar do que já vem pronto e isso se dá necessariamente de duas formas. A primeira reside na agressão. Você mete uma arma na cabeça do quitandeiro e manda ele te dar a maçã. Através do uso da violência um homem pode roubar, furtar, fraudar e, assim, adquirir determinado bem sem o consentimento de seu possuidor originário. A outra forma é persuasiva. Você tenta convencer o quitandeiro de que a maçã deve ser dada para você, em vez de qualquer outro dos seis bilhões de habitantes da terra, ou ingerida por ele próprio. Mas o quitandeiro, como os outros seis bilhões, é movido pelo interesse próprio, portanto utilizará a maçã da forma que lhe der mais benefícios. Além disso, sabe que há mais pessoas desejando maçãs do que há maçãs. E não possui um critério adequado para escolher você, entre todos os pedintes, para receber a maçã em troco de nada. Resta oferecer algo em troca pela maçã. Mas o quê? Qual o valor justo do bem a ser oferecido em troca? Essa questão só o quitandeiro pode responder. Ele pode preferir uma laranja, uma melancia, um cacho de bananas. Mas você, além de não querer se sentir num problema de aritmética, também não possui um pomar. É um advogado. Tudo o que pode oferecer de valor é uma petição inicial, coisa que o quitandeiro não precisa. Para evitar o constrangimento dos advogados não poderem satisfazer sua fome por maçãs, a humanidade optou pela utilização de instrumentos de troca. Um determinado bem que todos valorizassem e, portanto, poderia ser trocado por diversos bens. Gado, conchas, sal, metais, um pedaço de papel assinado pelo Palocci... Já se tentou muita coisa e não me parece oportuno comentar, nesta ocasião, porque se decidiu pelo autógrafo do Palocci. Você, então, como advogado, procura alguém que necessite de sua ajuda e pede, em troca, algumas notinhas emitidas pelo governo para que você possa comprar aquela maçã. Pronto. Agora você possui algo que o quitandeiro também quer: dinheiro. Mas quanto dinheiro vale a maçã? Isso vai depender do quanto vocês dois estimam a tal maçã. Se você se dispuser a pagar 50 centavos e o quitandeiro não aceitar menos que dois reais, nada feito. É preciso que você valorize mais a maçã que, digamos, uma nota de um real e que o quitandeiro valorize mais um real que a maçã. Só acontece a troca quando há uma inversão de valor sobre os bens negociados entre as partes. Assim, ambos saem ganhando. O valor que você dá ao bem recebido, menos o valor que você dá ao bem oferecido é o seu lucro. O benefício menos o custo. Para determinar o lucro que você teve nessa operação é necessário saber em quanta satisfação a posse da maçã excede em relação ao fato de ter um real. Um excesso que é impossível de se determinar exatamente, pois apenas os envolvidos na transação podem conhecer o valor que atribuíram aos bens trocados. A satisfação do advogado, portanto, implicou na satisfação do quitandeiro. Ambos prosperaram da transação, saíram mais ricos do que quando entraram. Depois, é claro, o advogado pode perceber que poderia ter investido seu um real de forma mais proveitosa, que na mercearia a maçã é mais barata ou que a banana sairia mais em conta. O mesmo risco corre o quitandeiro, que não havia notado que há muita gente preferindo laranjas a maçãs. Se o quitandeiro quiser ganhar mais dinheiro então, ele precisa investir mais em laranjas, para cobrir uma procura vindoura. Só se ganha dinheiro de quem está disposto a dar dinheiro. E só dá dinheiro quem acredita que receberá em troca algo de valor maior do que a quantidade de dinheiro oferecida. Portanto, para saciar uma grande ambição, igualmente grandes devem ser os benefícios que um empresário precisa oferecer à sociedade. Dizer que os empresários vivem do capital é utilizar-se de uma realidade meramente conceitual. O capital não tem existência própria, não é uma entidade abstrata que escolhe quem premiar. Um empresário só enriquece porque seu serviço é altamente estimado por um grande número de homens. Porque ele serve melhor à sociedade que seus concorrentes, é que mais pessoas estão dispostas a entregar-lhe seu dinheiro em troca de seus bens e serviços. Ford e Gates acumularam fortunas exorbitantes porque o Modelo T e o Windows foram de utilidade correspondente. Não faz sentido, também, falar em exploração econômica. As pessoas apenas participam do mercado voluntariamente. Se alguém obriga você a consumir ou a deixar de consumir, não é o capitalismo. Exploração pela liberdade de mercado é uma contradição em termos. Apenas a coerção pode fazer com que alguém aja para seu próprio prejuízo, e a coerção não é característica de trocas voluntárias, mas da política. A política é o único meio tolerável pelo qual a violência consegue ser destemidamente canalizada. Apenas a lei pode impedir o advogado de comprar maçãs porque está sendo vendida muito barata, a preço predatório. Ou porque está muito cara. Ou porque o quitandeiro não consegue arcar com os tributos e regulamentos. Ou porque estudos revelaram que advogados podem engasgar com o caroço. O tamanho da ganância de um empresário é proporcional à potencialidade que ele tem de servir aos seus semelhantes. Enquanto agir honestamente, afastado do governo, só pode ganhar dinheiro de quem o acha merecedor. O político ganancioso, pelo contrário, apenas consegue utilizar a força para alcançar seus objetivos. Se inicialmente beneficia alguns, inevitavelmente prejudica outros. Até quando o governo faz dinheiro, os cidadãos perdem. Uma sociedade que procura substituir o papel do empresário pelo do político acaba por escolher sua própria divisão. Elementar como maçãs. Nota do Editor: Diogo Costa é articulista do blog Oito Colunas.
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