|
Tantas vezes li, reli e releio os contos inquietantes de Borges e, a cada releitura, é como se notasse semelhança a algo que li, uma biblioteca de escadas e estantes intermináveis, “se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo”, e também nos espelhos e labirintos perturbadores, “o fato estético não pode prescindir de certo elemento de assombro”. Borges, releitura imprevisível, “afinal de contas a literatura não é outra coisa que um sonho dirigido”. Jorge Luiz Borges (1899/1986), nasceu portenho mas mudou-se para a Europa com seus pais, estudando na Suíça, retornando à sua cidade somente na década de 30. Lecionou literatura inglesa e americana na Universidade de Buenos Aires, dirigiu a Biblioteca de Buenos Aires e engajou-se na intensa vida cultural de sua bela cidade. Grande parte de sua existência transcorreu nas sombras progressivas da perda da visão (herança paterna). Dentre seus livros, acima de 50, os mais citados são História universal da infâmia (1935), Ficções (1944), O Aleph (1949), El outro, El mismo (1964), Elogio da sombra (1969), O informe de Brodie (1970) e mais e muito mais. Não que os outros sejam menores, talvez por estes serem os mais traduzidos e citados. Falar de Borges é falar do imponderável, da circularidade, de caminhos que se bifurcam sempre, do mistério dos espelhos... Emir Rodríguez Monegal, uruguaio, considerado seu mais acurado crítico, escreve: “Compartilhando com Carpentier, Astúrias e Marechal, Borges é o umbral de uma nova era para as letras continentais” (Borges: uma poética da leitura, Editora Perspectiva). Conheci, no Paraná, um escritor viciado, droga da pesada. Seus livros me esmagavam, mas seduziam-me, algo novo a um careta como eu que não consegue se viciar em nada, nem em religião. Relacionando-os, nessa absurdidade dos desvãos da alma, terá a cegueira de Borges ensejado a dimensão do infinito? Na década de 80 fui ouvi-lo no prédio do jornal Folhas. 10,30h. Certamente à noite! Não, de dia e na garagem, manobras de carros ruidosos, barulho da rua e a voz descansada de Borges. Um professor repetia em português: de cinco palavras quatro se perdiam. Saí revoltado. Tomei o ônibus para ir à Avenida Consolação. Greve, movimento de máquinas, embarafustou-nos por longo e desconhecido percurso, uma autêntica viagem borgiana. Dia seguinte, MASP, salão principal limpo e silencioso. Acomodei-me na primeira fila. Finalmente ouviria o mestre. Havia uma aura em torno do poeta quase cego. Ao seu lado, sua auxiliar nipônica completava a atmosfera mítica. Borges discorreu sobre livros, poesia, viagens. Continuaria ouvindo-o eternamente. Lembro-me de alguém perguntar sobre os novos escritores brasileiros. Desculpou-se, por sua carência, alegando permanecer com os clássicos. Fiquei surpreso com tal confissão, mas à medida que os anos foram se acumulando, pude compreender o mestre. Terminada a palestra, nos dirigimos à lanchonete do MASP. Empolgava-me a possibilidade de o ouvir mais uma preciosa vez. Recordo-me, entre os variados temas abordados, o fato de não ter recebido o prêmio Nobel. Voltou-se, naquela forma agradável de dar atenção à pessoa: “Certamente não sou merecedor”. Ante o protesto dos vizinhos, sorriu quase indulgente. “Bem – disse-me um amigo jornalista – Borges parece ter simpatia pelo golpe, já que teve dificuldades com Perón...” Não era a primeira vez que ouvia tal versão. Borges, em diferentes ocasiões, manifestou-se anticomunista, antifascista, ateu, alienado... Até onde tudo isso não fazia parte de seu fino senso de humor? Nas Obras completas, 1923–1972 (Emecé Editores, B. Aires), o próprio Borges a finaliza com um Epílogo fantástico, em que uma Enciclopédia Sudamericana publicará em Santiago de Chile, em 2074, uma curta e nada favorável biografia de Borges, relatando: “Hacia 1960 se afilió al Partido Conservador, porque (decía) ‘es idudablemente el único que no puede suscitar fanatismos.’" De uma certa forma, também Carlos Drummond pediu aos engajados de esquerda que o deixassem simplesmente compor poesia. Era época da ‘guerra fria’, pró-capitalistas e pró-comunistas fanatizados, Brasil, Argentina, Uruguai e Chile sob golpes militares de extrema direita, as religiões açodadas contra o ‘perigo vermelho’, o macartismo caçando ‘bruxas’ em Hollywood. Tristes memórias. A humanidade, de tempos em tempos, teima em retroceder à Inquisição. Nos 87 anos de sua criativa existência recebeu os mais expressivos prêmios literários (inclusive no Brasil), bem como título de doutor das mais famosas universidades, mas a Academia Sueca de Literatura, por razões não reveladas, ignorou-o, como a outros excelentes literatos, negando o Nobel (*), esse Oscar da literatura.
(*) O breve resumo que segue, forneceram-me meus informantes (enciclopédias, manuais e sites). Alfred Bernhard Nobel, químico sueco, nasceu em Estocolmo em 21/10/1833, vindo a falecer em San Remo, Itália em 10/12/1896. Foi o descobridor da dinamite ao incorporar à nitroglicerina (descoberta por Ascaneo Sobrero em 1846) um elemento absorvente e inerte que a tornou estável. Seu invento foi patenteado e usado na abertura de escavações, como túneis e minas. Em 1876, anexou à dinamite algodão de colódio, obtendo uma substância gelatinosa (gelatina explosiva), tornando-a mais poderosa. Graças às suas patentes (diversos inventos) e a exploração de petróleo, reuniu considerável fortuna. Nobel, ao saber que suas descobertas eram empregadas para fins bélicos, inconformado, deixou no seu testamento uma apreciável soma agraciando os benfeitores da humanidade. Resultou na Fundação Nobel, situada em Estocolmo, objetivando conceder anualmente o prêmio a todas as nacionalidades e sem caráter competitivo. Em dezembro de 1901, cinco anos após a morte de Alfred Nobel, a Fundação concedeu, pela primeira vez, prêmios no campo da física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz internacional (em 1969 foi estendido às ciências econômicas). O prêmio consiste em uma medalha de ouro, diploma com a citação da honraria e uma soma em dinheiro (variável conforme a renda dos fundos). Os laureados em física e química são escolhidos pela Real Academia Sueca de Ciências, os em fisiologia e medicina pelo Real Instituto Carolíngio Sueco de Medicina e Cirurgia, os em literatura pela Academia Sueca de Letras, e o laureado em paz internacional por uma comissão de 5 membros nomeada pelo parlamento norueguês. Na área de literatura, nosso enfoque, a América Latina recebeu apenas 4 prêmios: Gabriela Mistral (1945) e Pablo Neruda (1971), ambos chilenos; Miguel Angel Astúrias (1967), guatemalense, e Gabriel Garcia Márquez (1982), colombiano. O Japão e a Índia foram premiados apenas uma única vez, mas os EEUU receberam 9 láureas. Literatos mundialmente prestigiados como Octavio Paz do México e Jorge Luis Borges da Argentina, foram relegados apesar do clamor das Academias de Literatura e dos intelectuais do mundo. No Brasil poderiam ter sido premiados Machado de Assis (1839-1908), Graciliano Ramos (1892-1953), João Guimarães Rosa (1908-1967), Manoel Bandeira (1886-1968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)... Bem, falando das letras, mas que dizer do Prêmio Nobel da Paz Mundial?
|