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A natureza humana já foi apontada como causa da nossa debilidade. Por sermos humanos, para a nossa sobrevivência e querendo nos aproximar da imortalidade, inventamos a escrita, a arte, as ciências e seus frutos, as tecnologias. Somos seres de inúmeras linguagens e a jornalística inclui-se entre elas. Desse modo criamos a história, a cultura. Enfim, uma segunda natureza. Temos infinitas possibilidades de conviver harmonicamente com a natureza pela nossa capacidade de recriar a própria natureza e, desse modo, inventarmos "cultura". Esta se vai constituindo como se fosse uma segunda pele. Por isso podemos dizer que somos animais versáteis. Fabricamos e somos fabricados pela realidade. Herzog aborda o tema no filme o enigma de Kasper Hauser. "O enigma de Kasper Hauser" (1974) tem como ficha técnica: Companhias de produção: Werner Herzog filmproduktion; Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF); Duração: 110 minutos; País: Alemanha Ocidental; Língua: Alemã. Grande prêmio do júri no festival de Cannes em 1975. Conta o que aconteceu a Kasper Hauser: "A criança que não foi totalmente privada da presença dos outros mas que, no entanto, viveu afastada do mundo, no silêncio e na noite da sua prisão". Kasper Hauser é revelado ao mundo a 26 de maio de 1828, cerca das cinco horas da tarde, levado por um homem desconhecido que o tirou de um porão, onde vivera por 17 anos. Segurava na mão uma carta dirigida a "Sua Excelência o Capitão de Cavalaria do 4º Esquadrão do 6º Regimento de Nuremberga". A carta dizia, em resumo, o seguinte: "Este rapaz quer fazer o serviço militar. A mãe mandou-o para minha casa. Nunca o deixei sair. Ensinei-lhe a ler e a escrever. Levei-o a Nuremberga à noite. A criança está batizada e chama-se Kasper Hauser. Nasceu a 30 de Abril de 1812". Mal sabia andar e quase não produzia ruído, a não ser quando tinha medo. Foi largado na praça e levado à prisão. O seu comportamento rapidamente chamou a atenção da população que acudia à prisão para o admirar como se de uma atração de circo se tratasse. Por esse motivo, acabou por ser remetido para um circo onde foi apresentado como "um dos quatro enigmas universais". Foi neste circo que Kasper foi descoberto por Daumer, um professor que o levou para sua casa, onde, durante dois anos, fez rápidos progressos. Com o decorrer do tempo, aprendeu cálculo, latim e música (em especial, piano). Conseguia recordar o buraco onde vivera, lembrava-se que alguém vinha dar-lhe comida (pão e água). Alguém que ficava sempre por detrás dele e nunca mostrava o rosto. Chamava-o "o homem" e recordava como era obrigado por ele a traçar algumas linhas, letras e números. Quando a notícia destas recordações começou a ser do domínio público, Kasper começou a correr perigo. O primeiro atentado ocorre a 17 de outubro de 1829. "O homem" golpeia-o na cabeça e Kasper consegue se recuperar. Em 1833, pouco depois de ter completado 22 anos, sofre o segundo atentado no qual é apunhalado e morre. No leito de morte, Kasper é chorado (ainda que sem lágrimas) por aqueles que dele mais se aproximaram: a mulher do guarda, Mãe Hiltel e o filho chamado Julius; Daumer; a senhora Kaethe; Florian e os padres que lhe ministravam a extrema unção. Quando lhe perguntaram se queria revelar algo "que lhe estivesse a pesar no coração", Kasper disse apenas que tinha uma história, mas apenas sabia o começo". "É sobre uma caravana e o deserto... Vejo uma caravana grande que vem do deserto, através da areia... E esta caravana é conduzida por um velho berbere. Este velho é cego. A caravana pára, porque alguns pensam que se enganaram, porque vêem montanhas à sua frente. Eles medem com o compasso e não sabem como continuar. O guia cego pega numa mão cheia de areia, prova-a como se fosse comida. Meus filhos, diz o cego, vocês estão enganados, isto aqui à nossa frente não são montanhas. É unicamente a vossa imaginação. Vamos continuar para norte, e sem hesitação e chegaremos à cidade. E é aí que começa a história. Mas como continua a história nessa cidade, eu não sei... Agradeço por me terem ouvido." Não sei também como continua essa história, quem eram os verdadeiros pais de Kasper. Nada sei do guia cego que pega a areia na mão, mas sabe que as montanhas não são como parecem. E nem quem são os membros da caravana. Vocês sabem? Os artistas, por buscarem a transgressão, renovam o ar, as prepotências e arrogâncias. E nós, com nossas técnicas, sistemas e organizações complexas, estamos constantemente a falar: "estamos cansados". Afinal, cada um por si na prática jornalística também, não é mesmo? Nota do Editor: Iracema Torquato é professora.
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