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"Toda história é escrita pela conveniência do tempo em que foi vivida. Também nenhum rei é pobre. Rei pobre não transmite entusiasmo, esperança e menos ainda catalisa fé! Por isso sofre o povo que coroa um rei de sangue vermelho!" O Coelho Branco colocou os óculos e perguntou: - Com a licença de Vossa Majestade, devo começar por onde? - Comece pelo começo (disse o rei com ar muito grave), e vá até o fim. Então, pare. É nessa hora de escrever que o historiador tem o planejamento na mente, o tema no papel, o objetivo traçado, as idéias em desenvolvimento. E ai? O grande desafio é por onde começar. Alguns manuais de redação lembram que o desafio da primeira frase é antigo. O citado diálogo do rei e do coelho está em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. É necessário o ponto de referência, e não há outro se não algo que esteja a nossa vista, ou que tenhamos como imaginar. Muitas das vezes a história, a melhor e mais real, acontecerá ou aconteceu onde estamos. Mas não estivemos e nem estaremos! E levando em consideração que por via de regra escrevemos o que o rei pede, ou ao contrário atendemos aos que pretendem lhe tomar o trono, legamos para o leitor a nossa conveniência, a conveniência de nosso tempo. Deve ser por pura conveniência que doutrinas cristãs nos colocam a história de um Jesus Cristo pobre, que de tão pobre nasceu em um estábulo e teve o primeiro sono humano na manjedoura. Mas este rei pobre que gera um Natal de riquezas, ostentação e humilhações aos menos favorecidos, era de fato um filho de família pobre? José, o carpinteiro, tinha uma profissão, tinha uma oficina com ferramentas, e não produzia o mobiliário trivial, mas cangas para união de bois de carreiro, que exigiam tecnologia. Poderíamos comparar, em grosso modo, com uma indústria de peças para veículos de carga? Ontem parei a reparar um nordestino pobre que vinha migrando, não para o censo em Belém, mas à procura de oportunidades. Trazia enrolada e pendurada às costas uma rede de casal, que armada entre duas árvores, pilastras ou varanda que alguém o permitisse, servia de pouso a ele, mulher e dois pequenos filhos, que se aninhavam e dormiam. E José? José, o industrial em Nazaré, na sua ida à Belém para o censo não se preocupou com a prática de seus conterrâneos pobres, que para onde iam, levavam em suas bagagens as tendas, que armadas no entrono das cidades lhes servia lugar de pernoite. E José? A família de Jesus que tinha um veículo (um jumento que era animal disputado como um automóvel hoje), enquanto outras famílias seguiam a pé, tendo Maria grávida, confiou no dinheiro que tinha, e procurou a Pensão de Dona Joana, foi ao City Hotel, tudo ocupado, não havia mais vagas. Apelou para hospedar-se no Plaza, e procurou os demais hotéis de Belém, até os de cinco estrelas. E agora José? O jeito foi buscar o repouso no banco da rodoviária... Temos também o exemplo de nossa história em busca da independência, que no paralelo há quem duvide do esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, do qual há indícios históricos de ser maçom, iniciado na cidade litorânea de Paraty, e certamente teria a proteção dos irmãos de loja. Outra história que encabula é a de Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho, cuja quantidade de imagens e obras de escultura e igrejas a ele atribuídas ultrapassa os limites de produção humana, ainda mais para alguém que havia sido acometido por uma doença de caráter deformador, contraída por volta dos 40 anos de idade. Morreu aos 76 ou 84 anos? Assim como a história do mestre é imprecisa neste aspecto, poderá sê-lo em outros relatos. Conta-se que Aleijadinho já trazia de Portugal, da academia do Porto, a arte dos picões, profissionais que entalhavam madeira e esculpiam em granito. Entre estes havia os que viam em viagens de aventura ao Brasil, para daqui levar riquezas, não só o Pau Brasil, mas ouro e iguarias. Eram contrabandistas que não recolhiam o Quinto da Coroa, mas acreditavam que se fizessem algo para Deus, neste caso doando imagens e templos, teriam o perdão da sonegação dos impostos. E, nas terras do Brasil tinham que ter quem assinasse (legalizasse) o que ilegalmente traziam... Chegamos ao século XXI e os nossos reis não mais usam coroas, o vinho das grandes reservas foram substituídos por outro álcool, os escritores da história já não usam penas e nem canetas, tinteiros ou esferográficas. Temos computadores com teclados e impressoras de jatos de tinta. Ficou mais fácil. Mas qual o rei, ou que fato em nosso reino, que nos serve de ícone para o começo das histórias que escrevemos. Será o da conveniência do tempo atual, ou a bela história de nosso pobre rei? Nota do Editor: Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.
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