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Opinião
12/12/2004 - 13h18
Velhíssimo Cacá
Ipojuca Pontes - MSM
 

Em site da Internet encontro artigo do famoso Cacá Diegues publicado em "O Globo" (06/07/04), em que o cineasta, aparentemente contestador, mas querendo mais privilégios para ele, a casta do cinema e a burocracia do governo, pontifica: "Se essa lei (que cria a Ancinav) for homologada do jeito que baixou, por acaso, na Internet, produzirá uma crise muito mais grave no setor, a maior desde os tempos do velho Ipojuca Pontes".

Antes de tudo, convém ressaltar um fato: Diegues é o cineasta sobre o qual Luís Sérgio Person, o grande diretor de "São Paulo S/A" (talvez o melhor filme urbano brasileiro de todos os tempos), num momento de rara felicidade, observou: "Cacá não tem um fotograma de talento". E o mesmo sobre quem o vitorioso Anselmo Duarte, em instante de transparente lucidez, arrematou: "É o único sujeito do mundo que fez o mesmo filme duas vezes (Zumbi/Quilombo) e fracassou miseravelmente em ambos".

Fama à parte, os filmes de Diegues, todos eles, são muito ruins, artificiosos e cerebrinos, embora sejam tratados pela crítica ideológica e pelos teóricos "participantes" da USP como se fossem "obras de arte". (Um lembrete: em que pese o proselitismo nacionalisteiro, há anos o cacique da corporação estatizante do cinema tenta, por todos os meios, já não digo ganhar o Oscar de filme estrangeiro, o que seria a Glória, mas ter pelo menos um selecionado na trêfega festa de Hollywood - inutilmente, de resto, pois a turma da Academia, que tem o hábito de aceitar o passável como norma, recusa enxergar qualquer mérito nos seus filmes).

No plano sociológico (para entrar na seara do vaselina FHC), Cacá é o exemplar que, à falta de outro mérito que não seja o da persistência, preenche o espaço do que na (discriminatória) hierarquia social do cinema brasileiro tem-se como "o cineasta de prestígio", alguma coisa transitória entre a privilegiada figura do "senõrito" mexicano e o intocável sinhozinho do Brasil feudal, ainda hoje reinante no País. Nesta condição, o de "saber colocar-se" e ser efetivamente o "cineasta de prestígio", Diegues atingiu a excelência. Por isso, há mais de 30 anos, "sem um fotograma de talento", vem fazendo filmes milionários, na quase generalidade produzidos com amplos recursos extraídos dos cofres públicos, alguns distinguidos em festivais descartáveis, mas todos, salvo exceção, "prestigiados" pela crítica amestrada, editorias de cadernos culturais e, em especial, pelos doutrinários analistas acadêmicos afinados com o insolvente cinema da corporação.

Mas, se o cinema de Diegues se afigura tão badalado quanto falso, a manipulação de dados e informações que labora em causa própria em torno do cinema brasileiro estatal é pura fantasia. Diegues gargareja muito sobre as conquistas de um cinema que, na realidade, por viver sempre atrelado aos dinheiros públicos, tornou-se, por força do intervencionismo permanente e da falta de real competitividade, singularmente pobre em inventividade e vigor mercadológico. De fato, ao contrário do que diz, o "nosso" cinema não é visto pelo povo, suas distinções na maioria dos casos são inexpressivas ou previsíveis pela vassalagem ideológica que carregam e, do ponto de vista econômico - uma vez estabelecidos os necessários parâmetros de custo/benefício -, rigorosamente daninho às massas famintas do País pela apropriação indevida de recursos. Não tem papo: o cinema novo-rico de Diegues (e afins) corre célere em cima do dinheiro subtraído das entranhas da merenda das escolas públicas ou, se quiserem, da própria habitação popular.

(Outro lembrete: de fato, nos anos 70 o cinema nacional atingiu, como diz Diegues, perto dos 90 filmes anuais e um público que ultrapassava em média a casa dos 30 milhões de espectadores - mas não por força do oneroso produto oficial, que nunca ultrapassou a casa dos 22% dentro do universo da produção, mas, sim, pelo vigor dos produtores independentes e o poder de comunicação das comédias eróticas (pornochanchadas) então produzidas e, mais tarde, escorraçadas das telas pela ação discriminatória do cinemanovista Celso Amorim, o homem de confiança - traída - dos militares na área do cinema).

De ordinário, sempre que possível, o velhissímo Cacá Diegues confunde propositadamente o cinema brasileiro com o produto oficial que foi fincado pela ditadura militar de 64 e que levou a atividade à estatização e ao parasitismo do cinema chapa branca. Apenas lembro aos interessados que desde Paschoal Segreto, Antonio Leal, José Medina, Carmem Santos, Ademar Gonzaga, passando pelos filmes da Cinédia, Vera Cruz, Cinedistri, Herbert Richers, os ciclos da Chanchada, Comédia Erótica, parte do Cinema Novo, sindicatos, laboratórios, cadeias de exibição, Palma de Ouro - tudo leva a marca de empresários que corriam riscos e que conquistou o público para o cinema brasileiro livre das amarras do dinheiro fácil do Estado predador e sua burocracia.

Quanto à Embrafilme, empresa sempre lembrada pelos que estimam o dinheiro fácil do governo (e que tinha em Diegues um dos principais beneficiários, quem sabe, até por sombra de parentesco), foi simplesmente fechada no Governo Collor porque, ao lado de ser uma rubrica corrosiva aos cofres da nação, era instrumento oficial de corrupção e privilégios. Sua extinção, de resto, era prevista a partir de pesquisa de opinião feita pela Agência R&M, de São Paulo, nos anos 80, quando a estatal do cinema foi tida pela opinião pública nacional na conta de "empresa corrupta, antro de politicalha, funcionando para uma panelinha de cineastas", concluindo, no final da consulta, que a "produção cinematográfica no Brasil não deveria ser estatizada e, sim, privatizada".

Há ainda outro dado mentiroso, com objetivos marcados, que Diegues (e acólitos) manipula de forma velhaca: é quando proclama que a produção de filmes parou na Era Collor, com o objetivo manhoso de (im)pressionar governos irresponsáveis a fim de sacar mais benesses dos cofres públicos e manter o esquema estatizante. De fato, durante os dois anos de Collor, foram produzidos e lançados no Brasil cerca de 105 filmes de longa-metragem, conforme registra e prova o Dicionário de Filmes Brasileiros, de Antonio Leão Neto, a única pesquisa de mercado confiável lançada nos últimos 20 anos. No mesmo site onde Diegues defende de forma hipócrita os seus privilégios de sinhozinho do cinema, há, curiosamente, um artigo, "Da natureza das Rêmoras", em que outro áulico do cinema estatal, o Sr Paulo Halm, associa a figura do cacique ao peixe ameba (rêmora) que vive de sugar parasitariamente os predadores (tubarões) nos quais se atrela. O mais intrigante de tudo é que o articulista denuncia Diegues como o relator de um projeto do cinema intervencionista que origina o atual modelo traçado para a Ancinav, que pretende se apropriar de vez do que se convencionou chamar cinema nacional. Sugere o Sr Halm que Diegues faz jogo duplo por estar associado aos interesses da TV Globo e das "majors" de Hollywood no Brasil, suas permanentes parceiras em produções milionárias - o que é absolutamente real.

Tudo isso configura o quadro da miséria moral que contamina a nação: as elites intelectuais, a pretexto de defender o "povo brasileiro" e lutar pela manutenção de uma "identidade nacional", terminam por sacar do estômago das massas o alimento farto de que se nutrem.

Não é por outro motivo que o País vegeta hoje em trauma profundo, alheio a uma moral compartilhada, mergulhado no horror da guerra civil, da exploração e da segregação social. Com uma elite dessas como não soçobrar?

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