|
"Somente os ignorantes tem opinião formada sobre tudo." - Ricardo Bergamini
Destacar fatos aqui pelas nossas terras tropicais é curiosamente monopólio de anti-patriotas. O verdadeiro patriota, estimulado até mesmo pelo presidente, deve ocultar a realidade, jogar para baixo do tapete os fatos que incomodam e apenas se limitar aos elogios e bajulações. Excelente postura! Como um pai que vê seu filho com problemas sérios de educação, metido com drogas, desobediente e vagabundo, mas não confronta tais fatos nem pretende sequer diagnosticar o problema, mas somente repetir como o corte do cabelo do rapaz é bonito. Como não sou patriota, ao menos pelo conceito que se tem dessa palavra, não vou falar das nossas lindas praias, nem tão pouco do jeito "alegre" do brasileiro encarar a sofrida vida. Prefiro destacar certas verdades, como o fato de sermos uma nação formada por mentecaptos. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa, acabou de divulgar os resultados para a pesquisa de 2003, onde foram avaliados 250 mil alunos de 15 anos. O rendimento brasileiro foi tão baixo que não pôde sequer ser classificado num dos seis níveis de desempenho da prova. O Brasil precisava atingir nota média de pelo menos 358 pontos, mas não conseguiu. Não temos nem mesmo o privilégio de sermos classificados como mentecaptos. Estamos abaixo disso! A amostra brasileira foi de 4.452 estudantes das redes pública e privada. Nossos jovens não sabem fazer conta e nem ler, mas já votam. Isso explica muita coisa. Em matemática, merecemos grande destaque: o de último colocado, atrás da Tunísia e Indonésia. Deve ser por isso que no Brasil fazem tanto barulho para que o Estado resolva os problemas econômicos, gerando empregos, reduzindo na canetada os juros, financiando as empresas, aumentando os gastos sociais, alimentando todos com o Fome Zero etc. E claro, ainda reduzindo os impostos, que ninguém gosta. Com essa colocação brasileira em matemática, ficou mais simples entender que um mais um são três para o povo. Sem dúvida que explica também o sucesso popular do milionário Estatuto do Desarmamento, que retira as armas apenas dos cidadãos de bem, enquanto acidentes causam apenas 2% das mortes por arma. Em ciência, o Brasil abocanhou o penúltimo lugar, perdendo apenas para a Tunísia. Vai ver que é por isso que certas leis básicas, como a da gravidade, são ignoradas por aqui. O céu é o limite das promessas utópicas. Outra conclusão que tiro dessa posição é o apreço popular pela magia. Somos parecidos com os incas, que no desespero de uma safra ruim, sacrificavam algumas crianças em oferendas para deuses, na esperança da melhora do tempo. Aliás, somos o país onde a esperança venceu o medo, corroborando com essa visão de que basta esperar, com um pouco de fé, que tudo se resolve. O medo é só para quem tem noção dos fatos. Uns tolos! Não esqueçamos da alquimia também. Ainda estamos na Idade Média, já que se acredita que podemos transformar tudo em ouro. Isso explicaria porque defendem tanto as estatais, com argumentos de que somos ricos em recursos naturais, que não devem ser explorados por estrangeiros. A existência de um rico subsolo passou a ser garantia, na mentalidade tupiniquim, de riqueza para o povo. Como a Tunísia ficou atrás do Brasil em ciência é um mistério. Já em leitura, o Brasil conseguiu saltos importantes no ranking. Perderam para nós a Tunísia e Indonésia, novamente, e também o México. Deve ser pelo excesso daquelas novelas dramáticas, que tiram o tempo de leitura dos mexicanos. Mas aqui acho injustiça acusar o brasileiro de analfabeto. O povo sabe ler sim. É verdade que pouca coisa, mas sabe. Afinal, até o MST vem "ensinando" certas coisas em suas favelas rurais. Seus alunos reconhecem logo o Manifesto Comunista, assim como a "ilustre" frase do ídolo Che Guevara. Aprendem a ler, para poderem repetir como vitrolas arranhadas, as palavras "neoliberal", "globalização" e "capitalismo". Não é preciso mais que elas para se apontar as causas dos males mundiais, junto com "Bush", claro. O brasileiro não sabe ler, mas sabe apresentar as soluções para as mazelas mundiais. Fantástico! Como consolo, ao menos, sabemos que os americanos, esses sim, são os verdadeiros ignorantes. Acham que nossa capital é Buenos Aires! Isso prova o quão idiotas são. Evidentemente, não vamos comparar nossa elite com a deles, mas sim nossa minúscula elite com todo o povo americano. Ainda assim receio que temos chance de perder a disputa. Possivelmente alguns brasileiros "educados" dirão que a capital da Austrália, por exemplo, com dimensões continentais também, é Sidney. Ou será que todos da nossa elite saberiam qual a capital da Índia, por exemplo, com população 5 vezes maior que a nossa? Mas o brasileiro patriota é também megalomaníaco e se acha o centro do universo, e portanto é um ultraje que o americano médio confunda nossa capital. Ainda bem que basta uma visita à Central do Brasil para se ver que o brasileiro médio tem perfeita noção da capital americana, o país mais importante do mundo moderno. Mas se a realidade é ruim, o futuro promete. Estamos no caminho certo para solucionarmos esses problemas. Estuda-se a adoção, mediante o pagamento de módica quantia por "royalties", do modelo cubano de educação. Ele foi aplicado, além de Cuba, no Haiti, Nicarágua e Venezuela. Estamos em boa companhia. Fora isso, temos o regime de cotas. Agora basta a cor como critério para entrar na universidade. O fator renda tem sido estudado também. Melhorar o ensino básico, reduzindo impostos e estimulando o investimento privado nesse setor, nem passa pela cabeça dos governantes. Meritocracia para que? Vamos colocar nas faculdades, de forma compulsória, os despreparados. Afinal, é o diploma que importa, não a aprendizagem. Pois depois vem o emprego, que o governo já pensa em garantir com criação de cotas também. Quem fala em trabalho? Já que temos somente que distribuir melhor a riqueza, e não criá-la, é o emprego com o carimbo do Estado que importa. O resto é preocupação de "mentecaptos". Nota do Editor: Rodrigo Constantino é economista pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha no mercado financeiro desde 1997. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.
|