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O advento dos modernos meios de comunicação exige um profissional do jornalismo cada vez melhor. O jornalista que não se reciclar, que não fizer uma criteriosa revisão em seu estilo de escrever, que não estudar permanente e exaustivamente e não se informar, se possível, 24 horas por dia, até durante o sono, não terá espaço nesse novo mundo da Internet, com potencial imenso, mas ainda inexplorado. Precisa deixar a vaidade de lado e cair na real. Ninguém, nenhum ser humano, por especial que seja, pela genialidade ou ecletismo que possua, jamais soube, sabe ou saberá de tudo. Diz-se, com muita propriedade, que o jornalista é "especialista em generalidades". Ou seja, não se especializa em disciplina alguma. Todavia, conhece um pouquinho de tudo. A tecnologia eletrônica promete maravilhas muito maiores do que as que já estão aí. Em termos de jornais, que é a minha área, a atual geração de editores é pioneira na utilização de computadores, tanto na captação, quanto na elaboração das notícias e nas posteriores fases do processo informativo, como a edição, a paginação, a impressão e até a distribuição do produto final para os assinantes e para os pontos de venda. Por falta de um balizamento, tivemos que aprender sozinhos, à força, da noite para o dia, como operar essas máquinas, que a princípio se nos apresentavam complicadas e assustadoras. Hoje, nenhum jornalista que se preze, repórter ou editor, novato ou veterano, concebe fazer um jornal que não seja utilizando os múltiplos e crescentes recursos oferecidos pela informática. As primeiras empresas que se informatizaram estão tendo que investir em equipamentos cada vez mais modernos, mais sofisticados e mais ágeis, que operam cada vez mais rápidos, com maior eficiência e disponibilidade de recursos, para não serem vencidas pelas concorrentes. Na atualidade, nem mesmo os mais despretensiosos pasquins de bairros ou os simples boletins de empresas ou de sindicatos, são confeccionados da forma artesanal, que não faz muito caracterizava os diários de maior circulação no mundo. São todos informatizados. E vêm novidades por aí. Na área tecnológica, é impossível de prever onde a coisa vai parar. Qual a tecnologia que estará à disposição do jornalista deste terceiro milênio? Os limites, no caso, são os da imaginação. E esta pode voar livremente, rumo ao infinito, sem ser contida. Fazer previsões é um exercício que muitas vezes nos conduz ao ridículo. Lembro-me muito bem das delirantes projeções que se faziam para o ano 2000, por volta de 1950. Dizia-se, na ocasião, entre outras coisas, que as viagens interplanetárias seriam rotineiras, que haveria colônias humanas em Marte e na Lua, que a cura do câncer seria uma realidade, que os transplantes de órgãos seriam coisas triviais etc. etc. etc. Reportagens e mais reportagens foram escritas a respeito, dando tudo isso como favas contadas. Claro que nada, ou quase nada disso aconteceu. O que posso detectar, portanto, na área das comunicações, são algumas tendências, que podem se concretizar ou não, dependendo de muitos fatores. Principalmente no que se refere ao método de se fazer jornal e à linguagem a ser adotada pelas várias mídias que veiculam trabalhos jornalísticos. Interatividade O jornalismo está tendendo, cada vez mais, a ser interativo. Ou seja, o destinatário da informação já tem, e vai ver isso ampliado cada vez mais, um canal direto de comunicação, via e-mail, ou por outros meios mais eficientes e mais rápidos, com cada editor de área. Por enquanto, pode apenas sugerir o que deseja ler. No futuro, poderá acrescentar detalhes às informações, enriquecendo-as e até corrigindo-as, quando for o caso. Outra tendência que vislumbro, em prazo mais curto do que muita gente pensa, é o chamado "jornal sem papel". Os assinantes irão receber diretamente em seus computadores, nas suas casas, escritórios e consultórios, todo o volume de notícias que passa atualmente pelos editores, que por falta de espaço, aproveitam apenas 20% ou menos desse noticiário. Tais informações serão constantemente atualizadas, ininterruptamente, 24 horas por dia. O assinante poderá selecionar o que mais lhe interessar e imprimir esses textos. Terá, dessa forma, um jornal absolutamente personalizado. Nos Estados Unidos já se ensaia algo no gênero. No Brasil, os vários sites e portais são um embrião dessa futura imprensa. O jornal de papel, no meu entender, tende a desaparecer, principalmente por causa do absurdo custo econômico e ambiental para a fabricação dessa dispendiosa matéria-prima. A dificuldade, por enquanto, está tanto nos investimentos que terão que ser feitos pelas empresas, principalmente no que se refere à mão de obra, pois precisarão ter quatro equipes completas de repórteres, fotógrafos, editores etc., quanto à forma de veiculação dos anúncios, que são a fonte mantenedora dos jornais. Mas o papel tende a ser, num futuro não muito remoto, um produto cada vez mais raro. Por isso, precisará ter destinação mais nobre do que a atual. Para a sua produção, às vezes florestas inteiras precisam ser devastadas. E restam-nos tão poucas delas... Além disso, no processo da sua fabricação, poluem-se o ar, as águas, o meio ambiente enfim. E para complicar, o papel, jogado no lixo, leva anos para se decompor. Já os chips de computador não apresentam nenhum desses problemas, São, basicamente, silício. Ou seja, em palavras simples: terra. E esta, convenhamos, há em maior, muitíssimo maior abundância do que árvores. Além do que, sua produção praticamente não gera poluição. Vai daí. Outra tendência que vislumbramos no jornalismo é o da multimídia: da utilização crescente da imagem, do som e do texto conjugados, simultâneos, como meios de transmitir informações. Já há experiências bem-sucedidas nesse sentido em várias partes do mundo, que tendem a se acentuar. Mas se as mudanças tecnológicas são muitas e vertiginosas, as conceituais são lentas e muitas vezes significam até um recuo na técnica de informar. É verdade que os meios de comunicação vivem, atualmente, uma fase de transição. Novos conceitos Uma tendência que certamente vai se impor e se acentuar é a da objetividade crescente dos textos, que serão cada vez mais curtos, contendo apenas os dados essenciais do acontecimento noticiado. Em contrapartida, o espaço destinado às imagens será muito ampliado. Os editores usarão cada vez mais recursos visuais que facilitem o entendimento da informação, como gráficos, quadros comparativos, infográficos, mapas etc. Isso, tanto no jornal convencional, de papel, quanto e, principalmente, no eletrônico. Neste novo jornalismo, infelizmente, não há mais espaço, pelo menos num primeiro momento, para as chamadas "matérias de fôlego", aquelas reportagens extensas, especiais, que fazem a delícia dos que gostam de leitura, em especial nas edições dos domingos. Uma das razões é que são cada vez mais raros os bons textos do jornalismo, aqueles repórteres de estilo fluente e atraente. Hoje, autênticas fórmulas pré-fabricadas estão substituindo a criatividade. Mas os jornais vão ganhar em objetividade, rapidez e oportunidade. Todavia, os amantes da palavra escrita não precisam temer, pois não será desta vez ainda que o "Planeta Guttenberg" será destruído. Previu-se, nos anos 50, que o jornalismo do futuro seria essencialmente de imagens. Tolice. O texto está apenas se modernizando, sendo adequado a esta era vertiginosa e fantástica (para alguns, apenas louca), onde as pessoas não têm tempo para quase nada. Mas está longe da extinção. Pelo contrário. Porém, quem não tiver a humildade de se reciclar, ficará de fora dessa revolução jornalística que está em andamento. Aliás, o jornalista da Internet está ganhando até um novo "rótulo", uma nova designação. Não se trata, obviamente, de nova profissão, mas apenas de um novo nome, para diferenciá-lo desse convencional, de hoje, cujo texto, infelizmente, na sua grande maioria, convenhamos, nos mata de tédio e nos dá um sono danado por falta de criatividade. Não atrai as pessoas, salvo raras e honrosas exceções, por sua notória mediocridade. O jornalista da mídia eletrônica vem sendo chamado, ultimamente, de "webwriter" (que nos perdoem os puristas da língua e os ultranacionalistas, para mais essa poluição do português, com a adição de nova palavra inglesa ao nosso vocabulário corrente). Quem é arrogante e acha que não tem mais nada a aprender, ou coisa alguma para melhorar, está morto como profissional, embora na maioria das vezes não se dê conta disso. Somos redatores, não artistas. Repito: não somos artistas, o que nos leva ao fato de que somos substituíveis, sim, senhor. Em suma, espane a poeira. Porque atrás vem gente. E como vem!!! O pesquisador do Instituto para o Futuro, da Califórnia, Paul Saffo, em ensaio que escreveu intitulado "Pela Palavra", publicado no livro "Reflexões para o Futuro", lançado pela Revista Veja em 1994, em comemoração aos seus 25 anos de fundação, assinala: "Na verdade, a palavra escrita não apenas permanece - mas floresce como trepadeira, na fronteira da revolução digital". O intelectual norte-americano apenas reforça a profecia de Horácio, poeta da Roma Antiga, que há quase dois mil anos garantiu: "Litera scripta manet". "A palavra escrita permanece". A comunicação foi o fator preponderante que permitiu ao homem deixar as cavernas e partir em conquista das estrelas. Das primeiras palavras inteligíveis trocadas por dois seres humanos ao milagre dos satélites; das pinturas sagradas nas paredes das cavernas à Internet; da invenção do alfabeto pelos fenícios ao milagre da multimídia, esse ser estranho, misto anjo e demônio, deu um salto de qualidade magnífico, da animalidade à racionalidade. Estou convicto que, não importa o tempo que leve, saberá superar seus egoísmos, deficiências e contradições e se impor como rei da natureza, quando aprender de vez o princípio da bondade, da integridade e da solidariedade. Utopia? Talvez! Mas sonhar (ainda) não paga imposto! Nota do Editor: Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor.
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