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Opinião
16/12/2004 - 18h54
O poder do vácuo
Dartagnan da Silva Zanela
 
"A ignorância crê tudo porque nada duvida". (Marques de Maricá)

Quem quando criança nunca brincou com uma seringa tampando a sua ponta e puxando o seu êmbolo (não sei se é assim que ele é chamado) só para ver formar o vácuo e depois soltar só para perceber a força com que ela golpeia o interior do cilindro? Eu pessoalmente fazia muito. E, quem diria, hoje depois de adulto, após ter ministrado um medicamento para meu filho relembrei o gesto tantas vezes repetido por mim em tenra idade e eis que vem-me a mente algumas questões que julgo serem interessantes, creio eu, sobre o estado de nossa cultura e o trato que é dado a educação.

Estamos a viver um verdadeiro desdém, melhor, uma legítima destruição de toda a tradição edificada em mais seis milênios de civilização em nome de valores novos, supostamente melhores, tão superiores que nem ao certo sabemos dizer o que são. Sabemos tão só que eles são novos e em uma quantidade que não conseguimos absorvê-los como um todo e assim, pré-julga-se que eles sejam, "tipo assim", superiores.

É insuportável ouvirmos falar doutos e leigos a tagarelar sobre a grande quantidade de informações que circula pelo mundo e mais ainda a grande quantidade que é produzida todos os anos. Se fossemos traduzir essa quantidade de informações em número de caracteres, teríamos algo em torno de 1 bilhão de bilhões de caracteres produzidos por ano.

Diante deste quadro, muitos concluem que devemos nos tornar neuróticos e firmarmo-nos de corpo e alma no presente, no que há de mais "atual". Todavia, a atualidade de algo não é simplesmente algo que foi lançado recentemente no mercado, mas sim, algo que corresponda a uma necessidade ou a uma questão que seja pertinente na vida de uma pessoa. Deste modo Shakespeare é atualíssimo para uma moça apaixonada e Caio Túlio Cícero mais ainda para um rapaz que está ansioso por se embrenhar no jogo político. Tudo que a humanidade produziu nos últimos 6.000 anos é atualíssimo. Agora, a relevância disso depende da profundidade da alma de cada ser humano.

E é aí que a porca torce o rabo. Se o tempo presente produz nada mais que uma tormenta de informações não seria interessante voltarmos nossas vistas antes para o local de nosso porto de partida para assim termos uma noção de onde nós estamos e em que lugar estamos? Mas não, é melhor ficar remando em círculos sem saber ao certo para onde se está rumando a espera da próxima onda ideológica para nos carregar em seus umbrais aquosos e salubres.

Isso mesmo. Estamos a viver em uma tormenta de símbolos e idéias e essa geração mais tenra como a nossa se encontra com um vácuo que nos separa de nós mesmos, visto que, a humanidade de hoje é o seu trilhar da humanidade de milênios e sem essa compreensão clara acabamos por ficar como o êmbolo da seringa: pronto a qualquer momento para agir de modo violento de acordo com o estímulo que recebamos.

Exemplo deste estado de espírito são as novas lideranças do MST. Em comparação com os seniores de luta, a nova geração de líderes deste movimento social é muito mais violenta que a primeira. Não fiquemos apenas nesse, vamos mais adiante. Comparemos a geração transviada com os contemporâneos pitty boys, com os carecas, com as juventudes partidárias.

Paira hoje sobre nós uma profunda ignorância sobre nós mesmos e sobre o mundo a nossa volta. Tal circunstância só poderia levar a uma situação como a que estamos a vivenciar.

Nas assim chamadas sociedades tradicionais havia circulação oral de muitas informações, entretanto, esses procuravam preservar um eixo com valores e concepções tidas como perenes. Porém, hoje, mais do que nunca se faz afirmar a fala do Mefistófeles do FAUSTO de Goethe: "tudo que existe é digno de ser destruído".

E, num mundo como esse, ao invés de nos voltarmos para uma séria compreensão do nosso Ser, optamos pela leitura de um livro de auto-ajuda, de uma doutrina política genocida, escolhemos algo que nos dê um alívio imediato, como um analgésico chinfrim, mas sem extirpar a verdadeira causa da enfermidade de nossa alma, pelo simples fato de ignorarmos a gravidade de sua enfermidade, visto que, refletir e estudar pacientemente apresenta-se como algo que não mais está em moda.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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