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Boa parte do futuro do planeta está sendo debatida agora mesmo, em Buenos Aires, durante a 10ª Conferência das Partes (COP 10) da Convenção do Clima, que se estende até o dia 17 (sexta-feira). Mas, como nenhum ambientalista se jogou (ainda) de cima de algum prédio, nem ninguém apareceu pelado para protestar contra alguma coisa, as cenas que tradicionalmente suscitam o interesse da imprensa de massa em eventos desse tipo ainda não foram produzidas e sequer a visão estereotipada do problema ambiental foi veiculada amplamente. Assim, como de hábito em questões que envolvem o ambiente, particularmente aquelas de âmbito internacional, a sociedade brasileira continua sendo insuficientemente informada pela imprensa dos debates que podem ser vitais para a sobrevivência da Terra na forma como a conhecemos agora. Mas, nem toda a imprensa age com tamanho descaso. O jornal Terramérica, um suplemento encartado periodicamente em alguns jornais brasileiros, produz diariamente um noticiário que pode ser acompanhado gratuitamente em www.envolverde.com.br. Porém, os meios de informação que têm capacidade de influir na opinião pública não deram ao evento cobertura, em quantidade e em qualidade, condizente à sua importância. Mesmo as empresas que têm correspondentes na capital argentina ou enviaram repórteres para lá ainda não colocaram a sua capacidade criativa e seu poder de crítica social a serviço de um debate sério e aprofundado sobre formas de superar os problemas causados pelas mudanças do clima. Se levarmos em conta que agora, em 16 de fevereiro, entrará em vigor o Protocolo de Quioto, o principal instrumento concertado internacionalmente para tentar reverter os malefícios causados pelas mudanças do clima do mundo, temos aí outra razão substancial para dedicar mais atenção à COP 10. Para o Brasil, em particular, esse evento e o debate sobre a mudança no clima interessam porque grande parte da solução passa por uma nova matriz energética que impacte menos o clima do planeta. Esse é justamente um campo onde o Brasil tem todas as condições para se destacar - o que, em tese, deveria aumentar ainda mais a atenção da imprensa para o assunto. Neste País, temos as condições naturais e científicas que impulsionariam o desenvolvimento de paradigmas tecnológicos capazes de apontar alternativas à era da queima do combustível fóssil. Mas, a imprensa pátria, quando debate energia, não trata desse tema. Nas últimas décadas, a imprensa distraiu-se pela cobertura dos negócios financeiros do setor de energia e não aprofundou que o Brasil, um dos mais proeminentes nas discussões técnicas e políticas em torno da Convenção do Clima, pode emergir desse processo como um grande beneficiado pelo sistema de punição às nações que mais emitem gases causadores do Efeito Estufa e de premiação a quem historicamente pouco emitiu esses gases, caso do Brasil. A imprensa também interessou-se apenas secundariamente pela capacidade brasileira (sem nível de comparação em todo o planeta) de diversificar a sua matriz energética utilizando fontes renováveis em que a indústria e a pesquisa científica aplicada, em nível internacional, estão investindo rios de dinheiro. É o caso do aproveitamento de biomassa, da captação de raios solares (o Brasil é um dos cinco maiores receptores desses raios) e do aproveitamento do potencial eólico (os ventos no litoral nordestino são de muito melhor qualidade do que os da Europa, onde quase 10% da matriz energética são eólicos). Pouco se discute dois tipos de risco. Primeiro o de não se aproveitar na totalidade os benefícios financeiros que o contexto do Protocolo de Quioto proporciona aos que emitem poucos gases causadores do Efeito Estufa. Esta discussão não é pública e se limita a poucos quadros altamente especializados do Ministério de Ciência e Tecnologia. O segundo risco advém da falta de discussão do projeto energético nacional, que vai muito além da geração de eletricidade. É o perigo de aprofundamento da dependência tecnológica e econômica em relação à produção de aparatos tecnológicos que permitam ao Brasil usufruir de suas condições geográficas e climáticas. Nossa imprensa é apenas observadora destes fatos e não se dedica a tornar-se agente deste debate - como faz, por exemplo, na discussão sobre a abertura dos arquivos do Estado e sobre a corrupção no País. Fico imaginando que belas pautas poderiam ser desenvolvidas nos campos da economia, da ciência e tecnologia ou de meio ambiente. Ou no campo da justiça social, se por acaso questionássemos a razão pela qual existem ainda milhões de sem-luz no Brasil. Para fazer essa cobertura diferenciada, perguntas difíceis de responder teriam de ser colocadas sobre a mesa. Por exemplo: quem vem sendo beneficiado pelo tipo de desenvolvimento que este País adotou? Por que não temos um desenvolvimento que torne a inclusão de dezenas de milhões de excluídos no eixo estruturador de um projeto de Brasil e leve em conta as especificidades do país na geografia, população, clima, megadiversidades biológicas, culturais e sociais? São perguntas difíceis, que a imprensa não faz questão de responder.
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