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"Fanaticism consists in redoubling your effort when you have forgotten your aim." - George Santayana
Quando falamos em Hiroshima e Nagasaki, é natural tomarmos o partido do lado perdedor, dos inocentes que tanto sofreram com as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos no fim da Segunda Guerra Mundial. Mas, apesar de natural, será que é justo condenar somente os vizinhos do Norte por tamanha desgraça? Por desinformação de alguns, costuma ser repetido a falácia de que tais bombas eram completamente desnecessárias, pois a rendição japonesa era iminente. Este artigo pretende resgatar certos fatos históricos para melhor iluminar um tema tão delicado, que mexe com profundas feridas. Não é meu objetivo, entretanto, justificar os alvos em si, repletos de civis inocentes, mas apenas destacar o contexto histórico dessa tragédia. O grande alvo que motivou o Japão a partir para sua conquista imperial mundo afora, culminando na guerra, foi o petróleo. A escassez do produto preocupava os estrategistas japoneses, e para garantir a sua supremacia no oriente, alegava-se a necessidade da conquista de determinados pontos cruciais na produção e rota de escoamento do ouro negro. A defesa de Manchúria era considerada estratégica pelo país, que temia as ameaças do comunismo russo. A Liga das Nações, entretanto, condenou o Japão pelas suas violentas ações na região, e tentou usar o embargo do petróleo como arma para forçar uma mudança no rumo dos eventos. Não surtiu efeito, e quando a China bombardeou uma estação naval japonesa, ambos entraram em guerra, em 1937. O governo americano baniu a exportação de ferro e aço para o Japão, que assinou no dia seguinte o Pacto Tripartite, com Hitler e Mussolini. Depois disso, o Japão se lançou rumo à conquista asiática. Em 1942, a ilha já controlava vastos recursos do sudeste asiático, principalmente o petróleo. A base militar americana que ficava na Califórnia foi transferida para Pearl Harbor, no Havaí. A marinha japonesa iniciou então um plano de ataque surpresa neste local. A cabeça por trás dos planos era Yamamoto, um comandante japonês que havia estudado em Harvard, porém um fervoroso nacionalista devotado ao imperador. A "Operação Hawai" iria culminar na maior humilhação americana de todos os tempos. No mesmo momento em que Pearl Harbor era severamente atacado, o Japão bombardeava a Tailândia, Filipinas e Cingapura. Estima-se em mais de 2 mil militares americanos mortos na noite do ataque, assim como 68 civis. Os Estados Unidos, até então uma nação dividida entre declarar ou não guerra, agora estava unida e em guerra. Os japoneses objetivavam abalar a moral da nação, mas o tiro saiu pela culatra. Durante as batalhas, a frota de submarinos americanos iriam ter papel fundamental na derrota japonesa. Os alvos principais eram os petroleiros, para cortar o suprimento de combustível japonês. O desespero do Japão foi tanto que a pressão interna levou o consumo de gasolina em 1944 para 257 mil barris apenas, ou 4% do volume consumido em 1940. A batalha nas Filipinas, em outubro de 1944, seria um importante marco na guerra, representando uma derrota devastadora para o Japão. Em um reflexo insano, o Japão iria introduzir uma nova arma na guerra, os kamikazes, pilotos suicidas que se explodiam em navios americanos. Em 1945, entretanto, os americanos já tinham recuperado Manila nas Filipinas, e o fim se aproximava para o sonho megalomaníaco japonês. Cidades japonesas estavam em ruínas. Porém, a possibilidade de rendição estava longe de ser cogitada pelo império japonês, cujo slogan ainda era "100 milhões de pessoas unidas e prontas para morrer pela nação". Não havia aparentemente nada nesse mundo capaz de levar o Japão a capitular. Para demonstrar tal espírito, a resistência japonesa à invasão americana de Okinawa foi totalmente fanática, com elevadíssimo índice de mortos em ambos os lados. Até mesmo crianças estavam sendo ordenadas a assassinarem americanos. Extrapolando a experiência, os americanos estimaram em até 1 milhão de possíveis perdas de militares em outros ataques, fora milhões de civis. Tal batalha sangrenta contribuiu enormemente na decisão americana de usar sua mais nova arma, a bomba atômica. Mas os aliados ainda tentaram um acordo, que permitia até a retenção do imperador japonês no comando da nação. Tokyo não aceitou. Em 6 de agosto de 1945 a primeira bomba atômica explodiu em Hiroshima, seguida pela outra no dia 9 em Nagasaki. Inacreditavelmente, mesmo sob tais circunstâncias vários militares japoneses se recusavam a se render, sendo o suicídio a única alternativa oferecida aos seus subalternos. Na noite do dia 14 de agosto, o imperador gravou uma mensagem de rendição, e soldados insurgentes ainda tentaram invadir o palácio para evitar a transmissão do seu conteúdo. Mas não obtiveram sucesso, e a guerra no Pacífico chegara ao fim. Após o término da guerra, o Japão estava completamente devastado, com suas indústrias em ruínas e escassez generalizada de alimentos. A ocupação dos aliados, comandados pelos americanos, durou até 1952, e reformou por completo o país. Uma nova Constituição foi criada em 1947, retirando poderes do imperador, e o sufrágio universal foi introduzido, assim como outros direitos humanos garantidos. Era o começo de uma nova era, com muito mais liberdade para o povo, agora liberto da insanidade de um império, que custou a vida de milhões de inocentes. Nota do Editor: Rodrigo Constantino é economista pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha no mercado financeiro desde 1997. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.
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