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Crônicas
21/12/2004 - 09h00
Indulto cristão
Douglas Mondo
 

Atiça-me, seduz, aquela vida pendente entre a escuridão e a cruz. Aquela que pede, implora pela aurora, quer germinar fora de hora. Aquela que o sol brincou de esconde-esconde e a fome adotou como filha morta no horizonte.

Nada mais forte, nada mais pungente. Não quer seu amor falso-clemente. Quer emergir como quem rouba um pão do padeiro que acordou de madrugada e foi multado pelo fisco na contramão. Essa vida brota da terra, sem papel nem certidão.

Às vezes não tem nome. Pode ser José ou Jesus. Pode ser Maria, Madalena ou outra excluída de ocasião. Pode ser abençoada na missa pelo pai nosso com preguiça. Não importa. Só esta vida pode abrir a porta. Pode me matar. Matar o bispo, o prefeito. Ela veio da terra, é divino, é garantido seu direito.

Ela difere da crença e outro era o luar. Não era mulher. Na simplicidade era rude como pedra do lugar. Sua face aparentada nunca foi clara nem aveludada. Azuis seus olhos do céu nunca roubou a cor. Na noite, do brilho das estrelas emprestou a sutileza do amor.

A história foi outra. Esta deixou a leveza da verdade na dor. Não foi Belém seu viver, mas Nazaré por seu bem crescer.

Natal seu nascer não seria, qual data sem saber, melhor a natividade olhar outro dia. Nas datas pagãs de Roma, esta foi escolhida pela igreja católica apenas por simbologia.

Sugou os seios de Maria e bebeu do alvo leite, entre bichos, ouvidos e olhos na estrebaria. Na injustiça de Roma e contra o poder judeu, um camponês menino revoltado cresceu.

Irmãos sim, irmãs também teve. Casado, talvez. Pregado tenha aos ventos, o Ungido ainda menino com seu cajado, com outros homens bebeu conhecimento sabido e falado.

Na injustiça social, sua mente se afogou em comoção, do clamor do povo, sua voz aos ouvidos e olhos, iniciou sua pregação.

Falou da injustiça divina a quem queria paz das mãos do Senhor. Orou só e traído foi por vontade sua, para solidificar a palavra amor.

Veio julgamento e açoite na porta da noite. A lágrima rolou pela face consciente do conteúdo bebido no cálice, o vinho da cor de sangue, disseram-lhe: cale-se!

Pelo ferro foi em cruz das trevas tirado, quiseram-no homem abençoado e não pregador revoltado. Do céu azul, entre nuvens, foi pelos homens crucificado.

Não muitos pregavam suas crenças, pelas águas revoltas dos rios romanos. Paulo, muito além dos muros da cidade de Tarso, no deserto audaz do poder que em suas vestes fervia, da febre livrou-se de ser pagão e no fervor das palavras do Messias, levou-o à redenção.

Não pelos ideais seus, mas do outro, martelado foi a feroz ignorância, restou no jogo da vida apenas pedra bruta, rolada da porta onde escoado foi o corpo da escura gruta.

Além da áspera sombra, detrás das brancas montanhas, fita com olhos mareados a morte de irmãos abençoados, judeus e palestinos, o homem com seu cajado santo, deita-se em leito de morte debaixo do negro manto.

E Cristo, do alto de sua sabedoria, tudo contempla, nu e ferido pela ignorância humana que não pensa, apenas rodopia no rodamoinho da intolerância dos povos a refletir a morte no batismo em água benta, repousada e mansa no fino espelho da fétida latrina.


Nota do Editor: Douglas Mondo é advogado, escritor e presidente da Tv Japi Mais.
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