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É indiscutível que a liberdade das comunicações é fundamental à democracia e garantia de todas as demais liberdades, mas essa importante conquista é relativamente recente em nosso país. O Brasil parece ter esquecido que viveu durante 20 anos (1964-1985) a ditadura militar, um período de trevas na nossa trajetória, que marcou gerações com repressão, torturas e desaparecimento de pessoas. As vítimas eram caçadas porque lutavam por liberdade e desafiavam o regime. Os esquadrões da morte, formados por policiais civis e militares, numa aparente ação moralizadora eliminavam "inimigos perigosos" em operações de "limpeza de área". Além do golpe ser apresentado como um processo de transformação político-social dentro das vias democráticas, os militares fizeram o possível para legitimá-lo e fixaram como a única maneira de salvar o país do "comunismo", da "nefasta ameaça vermelha" cujo objetivo era "destruir nossa nacionalidade". A ideologia tentava justificar o uso da força contra os simpatizantes de um modelo considerado de esquerda e contra os favoráveis a um regime com liberdade de expressão. Entre as inúmeras vítimas desse período o jornalista Vladimir Herzog foi o mártir da resistência aos militares. Ele viveu, trabalhou e morreu em busca de justiça. A morte do herói, eslavo de nascimento, mas brasileiro de coração, entrou para a História e contribuiu para derrubar o AI5. Após o assassinato de Herzog, houve uma grande comoção nacional e milhares de jornalistas se comprometeram a revelar os crimes dos militares contra os Direitos Humanos. Começou a decadência do autoritarismo. O povo finalmente percebeu a necessidade de reconquistar a cidadania. O peculiar no país do carnaval é que (quase) tudo acabar em confete! A maioria dos criminosos envolvidos nas brutalidades, direta e indiretamente, permanece impune perante a Justiça. A sociedade brasileira atual desconhece a sua própria trajetória e parece ignorar que importantes personalidades perderam a própria vida por liberdade e informação de qualidade. É assustador que crimes como os que mancharam nosso passado, assim como de outros países latinos, caíram na banalização. Viva a redemocratização brasileira, a Lei de Anistia, a Campanha das Diretas Já, a Constituição de 1988! A sonhada democracia, ainda que provinciana, tupiniquim, problemática, porém que a cada dia está se consolidando. Vamos valorizar o nosso direito de voto, pois as eleições dignificam a voz dos excluídos. O Brasil tem uma dívida com esses cidadãos: Vladimir Herzog, o operário Santo Dias da Silva e outros Silvas, Santos etc. Heróis nacionais que foram condenados pelo que pensavam, por seus ideais e princípios. Portanto, esperamos que as novas gerações brasileiras valorizem esta conquista e se inspirem para criar um país melhor, mais igualitário, fraterno e que não se cale diante das atrocidades. Podemos nos apropriar da célebre frase de Marx, usada como título de um livro de Marshall Berman: Tudo que é sólido desmancha no ar - adaptando ao triste período vivido no Brasil. Felizmente os anos de chumbo acabaram e que as cicatrizes das feridas do passado sejam parâmetro para o presente e o futuro da nação brasileira. Nota do Editor: Mariana Czekalski é escritora e jornalista.
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