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Crônicas
25/12/2004 - 17h01
Votos renovados
Helena Sut - Agência Carta Maior
 

Pepino em conserva. A falta do ingrediente faz-me despertar mais cedo no dia seguinte. Panetones e vinhos, presuntos e fios de ovos... Tantos sabores ainda marcam minhas recordações gulosas da véspera. O colorido dos papéis ainda desembrulha pequenas lembranças, cinco porta-retratos e duas camisetas. As luzes da árvore brilham nos meus olhos infantis...

Navego nas ruas vazias em busca de um porto de especiarias. Descubro a cidade depois de alguns anos de ausência. Não me reconheço nos passos sombreados nas calçadas. Fecho os olhos e tento ver o Rio de Janeiro do meu nascimento.

Na soleira do banco, ainda na rua de minha infância, encontro uma folha de jornal amassada e envelhecida ao lado de um sapatinho infantil. Por instantes, deixo-me levar pelas ondas da imaginação e percebo a pequena criança no berço de papel. Esqueceram o que calça o futuro ao lado de um jornal antigo. Talvez uma manjedoura contemporânea, abrigando alguma esperança...

Continuo a travessia e vejo dois meninos de aproximadamente onze anos sentados sob a marquise fumando restos de cigarros. Os novatos velejadores distraem-se com a fumaça dos seus interiores. Observam, com seriedade, o desenho cinza que circula as presenças no mundo. Existem na possibilidade de sobrevivência à fome e à violência. Olho com discrição. Muitos são piratas saqueadores, lobos dos mares contemporâneos...

Algumas malas marcam o caminho. Sentada na mesma soleira de esquina, está a mulher envelhecida, suja, gorda, cabelos despenteados e sem dentes. Reconheço-a de imediato, apesar dos trapos que camuflam sua existência. Ela fora cozinheira no prédio de minha adolescência no Leblon, progrediu para sócia de um pequeno serviço de bufê em Copacabana, converteu-se em alguma religião, sentiu-se perseguida e enlouqueceu. Desde então, está sentada na calçada com suas fantasias e realidades. Diz ser nobre, proprietária da cidade, mulher do governador... Sempre é algo além do meio-fio.

"Quanto tempo, menina... Hoje tem festa no meu salão em Petrópolis... Ainda está casada com o príncipe? Não deixe de ir, o presidente já confirmou presença... Vai lançar uma campanha contra o desperdício de comida, estou patrocinando... Será servido lagosta e camarão..."

Respondo com respeito. Sua loucura inibe-me o sorriso, mas deixo-a acreditar na realeza da minha confirmada presença. Eu, o príncipe, o presidente... Todos somos personagens fantásticos de sua realidade. Lembro com carinho dos encontros com sua lucidez nas ruas cariocas e me entristeço com seu abandono. Tantos anos na rua sem abrigo algum ou qualquer tratamento a separam definitivamente da construção do seu passado.

"Você soube que me separei do rei da Inglaterra? Ele é um bom homem, mas tinha ciúmes da minha relação com o poder..."

Deixei seus delírios e entrei na padaria lotada. As pessoas desfilavam com pequenas embalagens entre os carrinhos de bebês parados nas passagens. Consegui alcançar o último vidro, entre cotoveladas e empurrões, e entrei na fila. A senhora do caixa reclamava com os fregueses sobre o funcionamento no Natal: "Já estou acostumada. Há vinte e nove anos trabalho nos natais. Seu José insiste em abrir a padaria". Identifico-a na sobrancelha pintada que me surpreendia na infância e na constância de suas reclamações.

Tomo o rumo de casa, mas antes aceno para a triste e enlouquecida personagem. Ela balança a cabeça com um sorriso escancarado e afirma que estará me esperando com o príncipe.

Distraio-me com meus passos nos doloridos caminhos de volta. O sapatinho abandonado, os olhares embrutecidos dos meninos, os restos de cigarros, a loucura enraizada, a padaria lotada e o desenho da sobrancelha ausente dão novos contornos ao caminho.

Prendo a atenção na soleira do banco. Tento colorir a criança dos passos infantis, penso em comprar um brinquedo, mas não encontro o sapatinho... A folha do jornal continua estendida no chão frio. Leio a manchete sobre a declaração do presidente: "terminou o período de incertezas"...

Para quem?

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