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Pesquisa realizada na FFLCH mostra que a classe médica, eleita pela mídia como autoridade para debater a questão das drogas, diverge em pontos centrais do assunto.
O debate público a respeito do uso de drogas atualmente se prende à opinião médica e camufla controvérsias. Essa é a conclusão de uma pesquisa, realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais (FFLCH) da USP, que analisou as características dos discursos presentes nessa discussão. O antropólogo Maurício Fiore concluiu que a classe médica está longe de atingir um consenso, com relação a recomendações e conceitos, e que a mídia não é o espaço de opiniões e conhecimentos múltiplos que afirma ser. De acordo com Fiore, um pressuposto essencial de seu trabalho é a visão de que o uso de drogas é um problema social historicamente recente - coincide com a consolidação, no século XIX, da medicina como um saber científico e legítimo. A partir desse ponto, o debate centrou-se, no Ocidente, sobre os eixos da medicalização (abordagem sob uma perspectiva médica) e do crime. Para seu estudo, o antropólogo entrevistou dez médicos ligados a universidades - USP e Unifesp - e a instituições que oferecem tratamento a dependentes de drogas. O pesquisador detectou controvérsias da opinião médica a respeito da definição do termo "drogas". Trata-se de uma divergência semelhante à encontrada entre a população em geral: há uma tendência a dissociar as substâncias psicoativas legais (álcool e cigarro, por exemplo) das ilegais (maconha, cocaína, heroína). O termo "drogas" costuma ser empregado apenas para estas últimas. Também há controvérsias quanto ao processo de identificação de uma doença. "Foi praticamente consensual a afirmação de que nem todo usuário de drogas pode ser considerado um doente", informa o antropólogo. Para os médicos, o principal indicador de que uma pessoa se encontra num estado patológico de abuso está no desrespeito às convenções sociais consideradas normais. Nesse caso, o julgamento da situação de dependência é transferido a familiares, amigos, colegas de trabalho e ao próprio Estado. Quanto às motivações para o uso de drogas, três fatores foram apontados pelos médicos como determinantes: uma curiosidade típica da adolescência, a busca de uma fuga ou compensação para uma vida difícil, ou simplesmente o prazer. Limitações da mídia Fiore chama a atenção para a expressiva participação de médicos no debate público proposto pela mídia. "Quando o assunto é especificamente o uso de ’drogas’, a presença da medicina é preponderante sobre qualquer outra classe de especialistas", diz. Assim, numa discussão que envolve também aspectos sociais e legais, é de se estranhar a escassez de opiniões de juízes, antropólogos e sociólogos, por exemplo. Outra limitação da mídia está na apresentação de posicionamentos dicotômicos - como ser "a favor" ou "contra", "fazer bem" ou "fazer mal". Dessa forma, a fala da autoridade médica é utilizada apenas para reforçar, cientificamente, uma posição pré-existente, moldada pela moral da comunidade. Redução de Danos Fiore notou uma divisão de opiniões entre o grupo de médicos que defende uma visão mais "tradicional" do uso de drogas e aquele que adere à chamada Redução de Danos (RD), uma estratégia que, segundo ele, "se baseia em fatos, e não em crenças" e que observa tanto aspectos negativos quanto positivos do uso de drogas - como crises de abstinência e o prazer induzido pelas drogas. O grupo acredita que não é possível eliminar por completo o uso de drogas - algo que a visão tradicional toma como ideal - e defende uma "desmedicalização" do debate. Para essa vertente, o centro da discussão deve ser transferido das questões fisiológicas para os aspectos sociais, culturais e psicológicos.
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