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Crônicas
26/12/2004 - 18h11
A minha parte eu quero em pinga
Artur de Carvalho - Agência Carta Maior
 

O meu pai é professor de matemática lá em Campinas há... há... puts, há bastante tempo. Acho que já faz aí uns quarenta anos. Ou mais. E, como todo bom professor, pastou bastante para conseguir educar, alimentar, dar uma habitação e ainda por cima ser bastante carinhoso com seus três filhos nas horas vagas.

Dinheiro nunca ganhou muito não, mas uma coisa eu te digo: ele já foi homenageado à beça. Quando chegava o fim do ano, sempre tinha uma classe de terceiro colegial, ou oitava série, que pedia para ele ser paraninfo ou coisa parecida. E lá ia meu pai, de terno e gravata, um discurso dobradinho no bolso, enfrentar um bando de alunos, diretores e professores ansiosos para acabar depressa com aquela festa chata e cair logo na farra. No fim dessas cerimônias, invariavelmente o meu pai ganhava uma caneta. Acho que o meu pai tem mais de quinhentas canetas guardadas, daquelas que vêm num estojinho forrado de veludo azul ou vermelho. Ou então era uma plaquinha. Plaquinha meu pai deve ter mais de mil.

"Ao querido Professor João Baptista, com carinho da turma de 1974". "Ao inesquecível Professor João Baptista, por seu carinho e atenção, da turma de 1983". De vez em quando eu pego meu pai abrindo suas gavetas e olhando suas lembranças. Ele espalha tudo sobre a mesa e começa a ler uma por uma. "Ao inestimável Professor João Baptista, da turma de 1965". Quando ele começava com essas coisas, nós, da família, nunca interrompíamos. Deixávamos ele lá, com suas lembranças. Até que um dia eu cheguei perto e puxei assunto.

- E aí, pai? Com saudades dos seus alunos antigos?

- Saudades? Hum, um pouco. Mas não era nisso que eu estava pensando.

- E no que é que você estava pensando?

- Eu estava aqui pensando que, se em vez de ganhar uma medalha ou uma caneta, esses moleques tivessem me pagado em dinheiro, eu hoje teria uma casa muito melhor que essa. Uma piscina no quintal. Talvez até um carro novo.

Não vou te dizer que aquilo não me decepcionou um pouco, afinal a gente sempre acha que o pai da gente é assim mesmo, um abnegado, que deu sua vida pelo ensino e pela educação das crianças. Mas hoje em dia eu entendo o que o meu pai estava querendo dizer. De uns tempos pra cá, não sei o que aconteceu, parece que todo mundo resolveu me descobrir.

Há uns meses, fui convidado a participar do "Programa do Jô". Outro dia desses, o pessoal de uma faculdade de Rio Preto me chamou para dar uma palestra. Teve até uma rádio FM lá de Salvador, na Bahia, que telefonou lá em casa para fazer uma entrevista comigo. E, ontem à noite, fui receber em São Paulo, das mãos do Serginho Groisman, dois prêmios no 16º Troféu HQ Mix, o chamado "oscar brasileiro das artes gráficas". Tudo bem. Não vou falar pra vocês que eu não me sinto orgulhoso e tudo o mais. É claro que me sinto. Mas, puxa vida... Quando é que vão começar a aparecer os empresários de Hollywood querendo comprar os direitos de filmagem das minhas histórias, hem?

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