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Opinião
27/12/2004 - 09h14
De banqueiros, cineastas e socialistas
Daniel Sant’Anna - MSM
 

Qualquer norte-americano idealista pode iniciar-se no mercado de produção cinematográfica. Munido de um roteiro, algumas idéias e um projetinho de retorno financeiro, pode capitalizar metade do orçamento que precisa entre investidores ávidos por penetrar um setor da economia arriscado, mas que possibilita se pensar num retorno muito acima dos tradicionais 20% ao ano. O dinheiro que faltar pode ser conseguido junto a instituições financeiras, a juros compatíveis com a realidade do país. A garantia necessária a todos que colocam dinheiro no empreendimento vem através do seguro da produção, contratado de forma a garantir que o filme será finalizado, ainda que tudo dê errado e o ator principal morra, por exemplo, bem no meio das filmagens.

No Brasil, quem tem dinheiro em caixa e sobrando para investir em cinema são os bancos. Mas nem "O Senhor dos Anéis" poderia proporcionar um retorno tão vantajoso e desprovido de riscos quanto emprestar dinheiro a uma multidão de pais de família de classe média falidos e desesperados, que precisam completar seu orçamento todo mês através do famigerado "cheque especial". Como se sabe, nossos banqueiros são vítimas de um sistema perverso, perpetuado governo após governo, que os obriga a remunerar os poupadores em menos de 1% ao mês e ao mesmo tempo os estimula a cobrar cerca de 14% ao mês sobre os tais "cheques especiais". Não, não há nenhum pacto mórbido, informal e silencioso entre o capital especulativo e nossa elite dirigente de esquerda. Não, eles não são generosos contribuintes de campanhas eleitorais. Tudo isso é fruto de nossa imaginação. No final das contas, todos devem ao erário mesmo, somos antes de tudo contribuintes, e muito pouco além disso.

Se, contudo, esses mesmos pais de família desesperados quiserem entender um pouco melhor o país e a realidade que os cerca, poderão recorrer a belos documentários em cartaz nos cinemas e patrocinados, no final das contas, pelo dinheiro do imposto que eles mesmos recolheram. Se não se importarem em pagar de novo pelo que já pagaram, desembolsarão cerca de 14 reais para entrar na sala escura e se deparar, aí sim, com a realidade que antes pensavam já haver desabado sobre suas próprias cabeças, lá fora, no mundo real. Como no país das maravilhas de Alice, achavam estar subindo, mas estavam descendo e, quando pensavam estar fora, estavam dentro na verdade. E não pára aí: não só conhecerão o que é "realidade" como ficarão sabendo que os culpados por ela são eles mesmos, a classe média insensível, a pequena burguesia. Melhor ficar em casa.

País absurdo, o Brasil, onde se cobra a coleta de lixo de casas desabitadas e implodem-se presídios mesma havendo falta de vagas nas cadeias públicas. Nesse contexto, não é de se estranhar tanto que possa existir, como figura pública e prestigiada, alguém que é a um só tempo tudo que o título deste artigo traz. Ou que não é nenhuma delas, dependendo da ocasião e da conveniência. De qualquer forma, não tente contar a um norte-americano como o do início deste texto que o dinheiro público em seu país financia filmes produzidos por multimilionários. Filmes que abordam temas "polêmicos", que elevam traficantes assassinos a categoria de mártires e presidentes a de mitos. Você corre o sério risco de ser chamado de otário em língua estrangeira.

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