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Cultuamos os cabelos loiros de Gisele Bünchen porque os brancos foram os primeiros a promover a guerra. Se fossem os negros os donos da carabina, belos seriam os cabelos negros e enroladinhos de Naomi Campbell - que, aliás, alisou-os para parecer menos negra e ser menos surrada pela cultura branca. Os negros foram arrastados à revelia para longe de seu território. Imagine o terror daqueles dias: estranhas e feias criaturas de couro claro correndo atrás deles com um laço, dizimando suas tribos, matando seus filhos e mulheres, destruindo suas vidas! Trabalharam como escravos durante séculos, enriqueceram e amamentaram nossos antepassados, e quando não serviam mais ao papel de escravos foram jogados na estrada. Seus descendentes viram-se, de repente, açoitados pela fome, desamparados, e, para sobreviverem no território dos brancos, também aprenderam a roubar e a matar. (O fato de 99,99% dos presidiários do Brasil e dos guerreiros dos morros cariocas serem descendentes de negros deveria ser motivo para uma profunda reflexão. Infelizmente, essa circunstância só faz aumentar o nosso preconceito). Após fazerem do continente americano um local mais ou menos aprazível à vivência dos brancos, os negros vivem hoje nas masmorras, debaixo de pontes ou em casebres, onde desfrutam de pouco menos do que o mínimo. Alguns conseguiram crescer financeiramente, porém, mesmo estes são visto como intrusos no "território branco". As amenidades na convivência das duas raças, após tantas lutas contra o racismo, raramente traduzem a verdade. Como branco, sou testemunha do quanto os brancos adoram contar ou ouvir "piada de preto". É só brincadeirinha, dizem. Não é. Essas piadas procuram ferir o personagem no que há de mais íntimo, sensível e dolorido em um ser humano. A piada somos nós, com essa estranhíssima pele rosada, sanguinários captores de nossos semelhantes. Os negros são nossos credores. Milhares deles entregaram seu sangue e sua dor aos caprichos e aos prazeres dos nossos antepassados. Vieram à vida para não viver. Onde está a graça disso? No final do século XIX o pelourinho e o açoite foram substituídos por outros instrumentos de tortura, discretamente disfarçados para proteger os olhos das senhoras mais sensíveis e das "instituições humanitárias internacionais", que não gostam de derramamento de sangue. Um século após a "abolição da escravatura", os negros ainda são marcados com ferro em brasa. Dentro do processo evolutivo, eles deixaram de ser feras bem antes de nós, brancos. Aqueles "feras" do boxe e do basquete americano mostram os dentes raivosos porque foram educados pela cultura branca, que é extremamente raivosa. Seja como for, em se tratando de dotes físicos os negros são uma unanimidade, como facilmente se percebe nos ringues e nas quadras dos dream times. Os negros são naturalmente pacatos, mestres em disciplinas que para nós são puro mistério. Os reis do futebol, do basquete, do boxe e dos cem metros rasos, os esportes mais apreciados do mundo, são eles. Fico imaginando o que seria do automobilismo quando um negro colocasse o braço no volante de uma Ferrari. Não sobraria nem fumaça para Schumaker. E quem foi que inventou o rock? A música, senhora de todas as artes, há cinqüenta anos está embalando o mundo no ritmo do rock’roll, que o negro Chuck Berry inventou. O Brasil inteiro dança o samba, que os negros inventaram, em comemoração aos troféus esportivos que os negros nos trazem, mas os negros estão na cadeia. Está na hora de começarmos a pagar esta dívida. Os filhos dos escravos continuam desamparados. Diga-se que vivemos num país democrático, que todos têm oportunidades iguais. Mas o mercado trata diferentemente os bolsos diferentes. No dia da alforria os negros caíram na estrada com um zero no bolso, numa época em que os brancos já estavam explorando poços de petróleo e dando toques de requinte às suas fortunas. É obrigação moral de todos os governos brasileiros - municipais, estaduais e federal - abrir caminhos para a plena realização dos negros na terra que eles desbravaram. Essa realização passa necessariamente pelo setor financeiro. A injustiça que os negros sofreram não será paga com meras campanhas contra o preconceito. Elas servem mais para enaltecer os "corações solidários" dos brancos que para fazer a justiça necessária. A dor e o suor que os negros derramaram precisam ser pagos com o dinheiro que eles não receberam em centenas de anos de trabalho escravo.
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