|
"A esperança é a grande falsária da verdade." - Baltazar Gracian
O ano de 2004 ainda foi marcado pelo excelente slogan criado pelo marqueteiro de Lula para as eleições passadas, fazendo alusão à necessidade da esperança derrotar o medo. De fato derrotou. Somos um povo esperançoso, com muita fé de que o futuro, sabe-se lá como, será melhor. Qualquer argumento ou fato que deponha contra tal crença precisa ser ignorado, pois o grau de esperança é inversamente proporcional ao conhecimento dos fatos. O medo é privilégio de quem é realista, não sonhador. Um homem num carro desgovernado rumo ao precipício deveria ter medo e agir, não esperança de que seu carro irá se transformar em um avião. O medo nos deixa alerta. A esperança, complacente. Churchill certa vez afirmou que "não existe erro maior na liderança pública que se prender em falsas esperanças que rapidamente serão dissipadas". Ele não conhecia a fundo a realidade brasileira. Aqui as falsas esperanças duram mais que diamantes. Estes acabam escoados para o exterior pelos garimpeiros em reservas indígenas, cujos índios precisam naturalmente de caminhonetes importadas e antena parabólica. Já a esperança, tal como na caixa de Pandora, não se abala nunca. O Brasil é o eterno país do futuro, mesmo que esse pareça cada vez mais distante. Temos fé que o nosso dia chegará. Afinal, Deus é brasileiro. Ele deve estar apenas passando uma temporada de férias na Suíça. Férias longas! Alguns podem me acusar de "negativista". Pode ser. Dizem que um pessimista é apenas um otimista bem informado. Mas não me considero negativo. Apenas honesto, realista. Senão, vejamos: nosso país é o campeão mundial de homicídios, a impunidade é total, os assassinos estão armados até os dentes, as estatísticas mostram que em nenhum lugar do mundo funcionou desarmar a população, mas nosso povo comemora o Estatuto do Desarmamento. Fé. Tem que ter fé. Sem esquecer, claro, do pensamento positivo. O sujeito lá do carro desgovernado pode se safar, bastando repetir "eu vou sair dessa". Os fatos serão automaticamente alterados, e seu destino será outro. Eu já vi como essa coisa de pensamento positivo funciona na prática. O indivíduo repete "eu vou ficar rico" várias vezes, escreve um livro de auto-ajuda sobre o poder do pensamento positivo, e bingo, fica rico! Temos esperança também de que o governo, culpado por grande parte dos nossos problemas, irá milagrosamente solucioná-los. Temos fé de que as sanguessugas irão curar a leucemia. Criam o Fome Zero, Bolsa Família, Farmácia Popular e mais uma infinidade de programas "sociais", mesmo que a conta tenha que ser paga justamente pelos sofridos trabalhadores. Se a burocracia emperra nosso país, vamos criar mais alguns órgãos estatais. Vamos derrubar os juros na canetada. Vamos criar milhões de empregos com um decreto presidencial. Vamos melhorar a educação importando o modelo cubano. Vamos reduzir o fluxo de notícias ruins controlando a mídia. Vamos melhorar o cinema nacional obrigando os brasileiros a assistirem os filmes nacionais. Vamos acreditar que pedindo paz teremos paz, tocando os corações dos assassinos. Vamos melhorar a vida dos pobres aumentando na marra o salário mínimo. Podemos aproveitar o devaneio utópico, e ver se conseguimos refutar logo a teoria da gravidade, pulando do alto de um prédio na esperança de voarmos. Ao menos os políticos poderiam tentar tal proeza, já que são os que tanto prometem fantasias. Caso dê errado, digamos que a perda é tolerável. Uma música de bastante sucesso do Skank parece perfeita para o estilo do brasileiro. O cantor se anima ao afirmar que vai deixar a vida lhe levar, para onde ela quiser. De fato, o melhor parece mesmo se transformar em agente passivo na vida, sem muita reflexão, esforço ou planejamento, aguardando a sorte bater na porta. Vamos simplesmente fechar os olhos, e ver onde as coisas vão parar. O antigo alerta de Sêneca, ao dizer que "se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável", não vem ao caso. Vamos lembrar que a esperança venceu o medo. Quem sabe onde quer chegar e se dedica a isso pode ter algum receio de não conseguir. Além disso, não poderá ignorar os erros, mas sim aprender com eles. Mas quem não tem a menor idéia de para onde vai, entretanto mantém sua esperança, não pode errar. O perigo, claro, é se a "vida" quiser nos levar para o abismo. As chances aumentam se o combustível for skank. Quero deixar claro que, apesar de tudo, tenho esperança. Tenho esperança que um dia o medo vença a esperança! Também tenho muita fé, e por isso acredito em Lula. E como acredito também no Papai Noel, desejo a todos um feliz Natal, e que o bom velhinho entre pela sua chaminé com um lindo presente. Lembrem-se, entretanto, que os tempos mudaram, e o Papai Noel moderno pode preferir entrar na sua casa com um saco grande para retirar objetos, não trazer presentes. Se isso acontecer, e você não tiver como expulsá-lo, pois o governo proibiu as armas dos inocentes, não se desespere. Afinal, a esperança venceu o medo! Nota do Editor: Rodrigo Constantino é economista pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha no mercado financeiro desde 1997. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.
|