|
Dentro de poucas horas, grande parte da humanidade estará celebrando o fim de um ano e o advento de um novo. É uma das celebrações mais concorridas e que mais externalidades de personalidade e exageros de comportamento produz. São celebrações que congregam milhões de pessoas em demonstrações de arte múltiplas, tão bem sintetizadas nas fulgurantes explosões dos fogos de artifício, das bandas marciais, dos cânticos religiosos e populares, das reuniões familiares que apagam amizades ressentidas, dos ajuntamentos de amigos, comparsas e colegas que num bebericar, às vezes desenfreado, dão largas a um senso de liberdade como que se naquele momento, entre um ano que se vai e o outro que chega, o ser flutuasse livre de tudo, no meio de todos, numa sensação de que os aborrecimentos se foram e as alegrias se perpetuarão. A despeito, no entanto, de todos os dias do ano solar serem iguais, os ciclos da vida, como os demais ciclos, ajudam-nos a demarcar melhor o tempo no espaço de nossa existência. É um eterno desafio a um viver melhor e mais gratificante através dos mesmos dias do mesmo calendário. Se trazem alegrias pelo perpassar de uma era apresentam, por outro lado, desafios frente à nova. É o gozo pelo que se foi, às vezes até num desabafo das tristezas sofridas, mas, também, pelas consecuções atingidas. Afinal, todos desejamos que o novo ano seja melhor, mais próspero, mais significativo na vida de cada um e não é diferente o desejo deste escriba a todos que o lêem. Sim, tudo ao nosso redor caminha em ciclos, em fases, em épocas, em períodos. Fases que marcam os passos de nossa existência, ciclos que denotam crescimento e desenvolvimento, épocas de aprimoramento de nossa cultura e de reavaliação dos valores nutridos, períodos históricos cujos personagens e atores, provavelmente, nunca mais subam ao mesmo palco, ou desempenhem os mesmos papéis, ciclos da vida - noite e dia de um afã inerente à nossa própria sobrevivência, escuridão e luz, ansiedade e certeza, temor e coragem, humildade e grandeza, sofrimento e saúde, vida e morte. E de morte manchou-se, definitivamente, o passar deste terrível ano de 2004. Não fossem as catástrofes e as milhares de vidas ceifadas no Afeganistão e mais recentemente no Iraque, que já demarcariam tristemente o ano que se vai, sobrepõe-se, agora, provavelmente, a maior hecatombe que este século produzirá e uma das maiores que a história registra. Quem já viveu ou tem conhecimento dos horrores das duas guerras mundiais dizimadoras de populações inteiras, os holocaustos étnicos que tanto mancharam a história do último século extirpando milhões por ódios entre etnias, as mortandades por epidemias devastadoras nos séculos que antecederam, podem, quem sabe, melhor sentir o imenso horror e a profunda tragédia que a nova hecatombe que se abateu sobre o sul da Ásia nos trouxe neste final de ano, neste começo do século XXI. As áreas atingidas, muitas delas ainda ressurgindo de longas guerras fratricidas, emergindo no bojo de um surto de prosperidade que vem se firmando mais e mais no mundo, fruto de um período longo de relativa paz e segurança política, de repente, num piscar de olhos, abate-se uma das mais devastadoras destruições que o mundo tem visto. De novo, populações inteiras, bairros inteiros, ilhas inteiras, costas inteiras, complexos turísticos inteiros, vilas e lugarejos inteiros, famílias inteiras, tudo se arrebenta e se desfaz no fragor de ondas imensas de poder destruidor de milhares de bombas de Hiroshima e Nagasaki. E, como todas as hecatombes, ela não se situa apenas nos instantes de destruição total. Ela progride, diariamente, nos seus efeitos: vidas dilaceradas, traumas que jamais permitirão a volta a um mínimo de equilíbrio emocional, epidemias, doenças mortíferas, miséria, fome, agonia, perda da consciência e inutilidade da vida para o ser e do ser para a vida. Em meio à tão imensa desgraça, deveria o resto da humanidade festejar o ano que finda com ruídos, alaridos e alegria descontrolada? Há, de fato, clima e ambiente para celebrações festivas, quando seres humanos aos milhares perambulam por entre corpos inertes à procura não mais dos entes queridos vivos, mas, da certeza de que de fato morreram, pois, a incerteza os pode levar à loucura? Vamos festejar o que, em meio a tamanha devastação de vidas e bens, de economias locais e de estruturas físicas que jamais serão repostas, da miséria e pobreza que se abaterão inexoravelmente pelo estigma que esta hecatombe trará sobre essas plagas e esses povos? Será que nosso sentimento religioso não nos deveria transmitir um senso de solidariedade maior até do que o das culturas orientais desses sofridos povos e que deveria se manifestar numa introspecção profunda sobre as realidades de nossa existência, do mundo em que vivemos, do universo em que nos inserimos, cujas realidades são tão diversas do que a tradição religiosa nos dizia; uma reavaliação de dogmas fúteis de fé e de crença pelos quais nos digladiamos e que num momento como este não se firmam; da crença nesse Deus tremendo de nossa tradição judaico-cristã, tão bem descrito nas páginas do Velho Testamento e na história do povo de Israel e tão mal figurado nos conceitos banalizantes dos credos que se multiplicam, nas práticas e crenças pueris, ditas religiosas, que hoje se alastram como praga no campo, tornando a prática da fé, às vezes, até um insulto à inteligência? Temos a festejar o que, realmente, neste final de 2004? Se somos filhos de um mesmo Criador, diante de tanto sofrimento, destruição, aniquilamento, será que uma hora de silêncio e meditação, no transpassar do ano, não nos faria a todos mais idôneos cívica, moral e espiritualmente? Mais fraternos, longânimes, mais desejosos de partilhar a tristeza e a dor destas centenas de milhares de miseráveis arruinados pelo resto de suas vidas? Será que a qualquer ser sensível ao sofrimento alheio, trovejar fogos e alimentar bebedeiras, num ano tão terrível para a história da sul da Ásia e de todos nós irmãos de cada desgraçada vítima daquela hecatombe, que deverá ser, provavelmente, a maior deste século e que apenas se iniciou em seus primeiros desdobramentos de sofrimento e miséria, será que ética e moralmente é a forma apropriada de dizer adeus ao terrível ano que passou? Celebremos, antes, a memória de todos que se foram e mostremos, pelo menos em espírito e posturas dignificantes, a solidariedade que torna os seres humanos, de verdade, semelhantes ao seu Criador. Nota do Editor: Ernesto F. Cardoso Jr. é MBA - Mestre em Administração de Empresas.
|