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Opinião
31/12/2004 - 10h08
O Natal e o intelectual socialista
Marli Nogueira - MSM
 

Durante a cansativa peregrinação anual que costumo fazer nessa época de festas para as prosaicas compras de Natal, encontrei vários de meus amigos socialistas nos shoppings de Brasília, alguns deles me dando notícia de que em breve partirão, em férias, para as praias do Nordeste, ou mesmo para o exterior. Não pude, evidentemente, furtar-me a algumas reflexões sobre essas circunstâncias.

Sendo eu uma defensora do liberalismo, da economia de mercado, da propriedade privada, da meritocracia e da responsabilidade individual, pareceu-me estranho constatar que aqueles que, ao contrário, passam o ano inteiro defendendo a intervenção do Estado na economia, a socialização da propriedade, a adoção de políticas assistencialistas para proteger os "excluídos", a culpa social pelas nossas mazelas, e uma igualitária repartição de rendas, estivessem, como eu, gastando seu rico dinheirinho com coisas típicas do capitalismo, que eles insistem em chamar de "selvagem" justamente porque nos propiciam as delícias de consumo a que todos aspiramos, coisa impensável em um regime socialista. Imaginava eu, portanto, que somente os liberais fossem consumistas, porquanto o que se costuma ouvir, de janeiro a dezembro, são discursos de socialistas contra o consumismo e contra "a lógica destrutiva do capitalismo", na expressão de um desses meus amigos em um recente artigo de sua lavra. Parece, contudo, que a prática diverge da prédica.

O intelectual socialista que freqüenta shoppings luxuosos, que faz suas compras nas melhores lojas, que adquire produtos de marcas famosas, que se entrega aos prazeres fornecidos pelo capitalismo, tomando uísque escocês (ou outras bebidas igualmente caras), comendo nos melhores restaurantes, viajando para os paraísos turísticos, hospedando-se nos melhores hotéis e dirigindo os melhores carros, não pode ser levado a sério, porque existe uma contradição entre sua ideologia e suas ações. Ele fala uma coisa e faz outra, exatamente porque não acredita no que diz; mas continua a dizê-lo porque percebeu que seu discurso lhe concede um passaporte para transitar nas rodas mais sofisticadas da sociedade, para fornecer entrevistas impactantes e para ganhar fama e dinheiro com seus livros e artigos, dando sempre a impressão de ser um verdadeiro savant com suas palavras ocas e seu discurso retórico mas totalmente esvaziado de conteúdo lógico. É apenas formalmente um intelectual e apenas formalmente um socialista. No fundo, é um exemplo do burguês que ele próprio combate. Não é uma pessoa confiável e só impressiona mesmo os que, tão vazios quanto ele, andam à sua volta e agem da mesma maneira.

Antes de dar crédito ao que diz o intelectual socialista, devemos saber como ele vive para podermos aquilatar o seu grau de coerência. Um socialista de verdade vive modestamente, não apenas para não fomentar o capitalismo - que ele abomina com furor -, como também para dividir o que ganha com os mais pobres, exortando os demais a fazerem o mesmo, justamente para dar o exemplo de que somente a divisão da renda pode levar-nos ao "mundo melhor" em que ele diz acreditar. Isso, é lógico, se ele próprio acreditasse no que diz.

Ocorre que, para o intelectual socialista, essa atitude individual de socorro aos mais pobres não faz parte do receituário que ele prega. Para ele, quem deve arcar com todos os ônus da divisão de rendas é o Estado, não pela adoção de políticas desenvolvimentistas, coisa de capitalista, mas por meio de medidas assistencialistas, únicas que tornam visível o quanto o Estado é "bonzinho" e, por conseguinte, facilitam a obtenção de votos e, evidentemente, arrancam os aplausos da massa que, mal conhecendo os princípios da ideologia apregoada, imagina logo que é alguma coisa a seu favor.

Já as medidas desenvolvimentistas são praticamente inidentificáveis, diluindo-se na sociedade como um todo, embora a elevem a um patamar muito superior em termos financeiros e culturais do que qualquer política assistencialista que se possa imaginar. Esta, ao contrário, acaba por perpetuar a miséria, fazendo com que a população que dela depende continue dela dependendo para todo o sempre, já que terá de arcar com impostos cada vez mais altos para sustentar a filantropia estatal. A médio e a longo prazos, o resultado será não apenas a estagnação da classe menos favorecida, mas o empobrecimento também dos integrantes das classes antes mais abastadas, o que criará um círculo vicioso: para socorrer os novos desvalidos, será necessário aumentar o grau de filantropia e assistencialismo do Estado e, na mesma medida, a carga tributária, o que acabará empobrecendo ainda mais a população, que, para ser socorrida, demandará maior volume de políticas assistenciais, realimentando todo o processo.

Longe de mim pensar que ao Estado não incumbe socorrer os pobres e desvalidos que não têm a menor possibilidade de prover o próprio sustento. Esse papel tem sido desempenhado pelos governantes desde tempos imemoriais e deve continuar a sê-lo. Mas impõe-se estabelecer os seus limites: o Estado tem o dever de amparar os miseráveis, mas não tem o direito de multiplicá-los. E que outra coisa não faz o Estado senão produzir mais e mais miseráveis com suas políticas assistencialistas?

Eu gostaria de, no próximo ano, ao fazer minhas comprinhas de Natal, voltar a encontrar meus amigos socialistas, exatamente do jeito que os encontrei durante esta semana: cheios de sacolas, passeando alegremente pelos shoppings de Brasília, com os celulares na mão, e anunciando que, logo após as festas natalinas, estarão viajando novamente para as praias do Nordeste ou para o exterior. Isso me deixaria imensamente confortada porque seria a prova cabal de que, de socialistas, eles só têm o verbo fácil.


Nota do Editor: Marli Nogueira é Juíza do Trabalho em Brasília.

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