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É prazeroso de se ver o líquido encarnado escorrendo no vidro liso, límpido, cristalino da taça. O vinho tinto. O seu perfume. A sensualidade do lábio sorvendo suavemente a cor rubra. O vermelho da carne, o vermelho do vinho. O torpor e embriaguez causados pela ingestão da bebida. Não, não estou em meio a nenhuma tertúlia ou rito em homenagem a Baco. Tampouco fazendo apologia ao "etilismo" - tem careta e "patrulha" de pseudo moralistas a postos em todo lugar, meu irmão. Essas são apenas imagens que me vêm à mente, são lembranças, reminiscências, poesia. Apenas poesia ou... loucura. Apenas o pensamento livre a "viajar", a vicejar. Pensamento: viço, vício. Talvez o título mais apropriado a essa crônica fosse: Impressões de viagem de um hedonista. Quem sabe? Por que não? Algo assim. Talvez coubesse uma crase nesse título que aí está. Ficaria: À luz de uma garrafa de vinho. A acentuação, bem como, muitas vezes, a pontuação, deve ficar a seu critério, caro leitor: você joga com a polissemia das palavras e das frases. Você também pode brincar com os sentidos e com o sentido das coisas. São apenas imagens que vieram à minha mente numa manhã de um dia qualquer. Numa manhã em que misturavam-se, mesclavam-se alegre e harmoniosamente, o calor do sol e uma brisa fria. Numa manhã em que apenas caminhava os caminhos de todos os dias, de todas as manhãs, rumo ao trabalho. Foi aí que tive a tal visão que me jogou na cara um pouco de poesia, um pouco de embriaguez, de vertigem, de loucura. Eu tinha naquele momento uma visão privilegiada. De cima do viaduto podia ver o caminhão lá embaixo sendo carregado pelos "chapas". Era um caminhão grande e velho, em sua carroceria pude contar aproximadamente uns vinte tonéis cheios de garrafas de vidro. Uma curiosidade: eram todas garrafas de vinho e champanhe (não deu para distinguir se nacional ou importado, mas isso não interessa a esse caso). Uma outra curiosidade, essa sim digna de nota: cada tonel continha garrafas de um determinado tipo de vidro, de uma determinada cor. À distância, olhando as garrafas de um dos tonéis, chegava a parecer que os rótulos eram iguais, que as garrafas eram separadas pela marca do vinho ou do champanhe e não somente pela cor do vidro. Garrafas verde-claro, verde-escuro, azul-claro, azul-escuro, translúcidas, marrons... Aquela multiplicidade de tonéis, com vidros de cores mais ou menos diversas, sob a incidência reveladora dos raios de sol, transformava aquela cena aparentemente pobre e banal num verdadeiro espetáculo de cores e luzes. Parecia uma dessas instalações ditas "modernas" que a gente encontra nessas Bienais da vida. Mas isso deixo ao encargo do poeta Afonso Romano Santana comentar, lá na sua coluna do jornal "O Globo". Não era uma instalação coisíssima alguma - embora pudesse vir a ser, se aquele caminhão estivesse "estacionado" em meio a uma das salas num Salão de artes qualquer. Era apenas um caminhão velho, parado em frente a um centro de reciclagem de lixo, desses, infestados de ratos, frios, úmidos, insalubres, que ficam incrustados embaixo de viadutos, e que são tocados por cooperativas de badameiros - catadores de papelão, de vidro, de lixo, enfim, você sabe. Mas, a partir daí, pegando carona na luz que refluía dos vidros, bêbado, não de vinho, mas de um estranho e singular contentamento, fiquei ali a olhar aquelas garrafas, que agora serviam aos pobres como lixo reciclável, e imaginando-as um pouco antes, num estágio anterior, nas mãos das mais variadas e diversas pessoas - pessoas de uma classe social distinta (e distante) das que agora manipulavam aquele vidro, é claro. Nas mãos do casal que celebrara seu amor cúmplice. Nas mãos dos jovens alegres e embriagados em seus rituais bacantes, inconseqüentes ou não. Nas mãos do senhor circunspecto que, numa noite de frio qualquer, beberica o seu vinho, lê um bom livro e fuma tranqüila e prazerosamente seu cigarro ou cachimbo. Uma garrafa de vinho pode trazer à luz muitas verdades. Revelar segredos, desejos ocultos, verdades, sombras. O vinho liberta, ilumina. Aquelas garrafas que ali estavam já propiciaram prazeres e embriaguezes várias, molharam gostosamente muitas línguas, aplacaram muitas dores. Ah, a delícia de um bom vinho ou um bom champanhe. Não, meu caro, não me venha falar de úlceras, de alcoolismo e alcoólatras ou, tampouco, que isso, o ato de beber vinho, é um mau hábito, e que essa é uma crônica, pequeno-burguesa etc. - não seja tão mal-humorado e baixo astral assim. Não podemos nos inculpar pelos que não sabem exercer, em sua plenitude, vícios e virtudes. Tampouco pelos que têm a alma tão pequena. Mas aqueles vidros, ali, cintilando, naquela manhã que mesclava o calor e luz dos raios de sol com a brisa fria, gélida, que soprava, aquele brilho remeteu-me, assim do nada, "sem quê nem mais", ao brilho das bolinhas de gude que um amigo de infância guardava num pequeno baú escondido embaixo da sua cama, numa espécie de alçapão, na verdade um buraco cavado no chão de barro batido da casa de taipa em que ele morava. Eu era o menino rico e ele o menino pobre, mas ele tinha aquele pequeno tesouro que era por mim tão cobiçado. Eu era um menino rico e podia, portanto, comprar quantas bolas de gude quisesse. Mas não seria a mesma coisa. Não seria. Aquelas muitas bolas de gude daquele menino pobre foram conquistadas uma a uma, ao longo de muitas disputas - o que denotava toda sua destreza no jogo de bolinhas de gude. Ah, como eu invejava e desejava aquele baú repleto de bolinhas de gude! Tinha bola de gude de todas as cores, formas, tamanhos e modelos: azul, vermelha, verde, branca, marrom, mescladas em tons de azul e branco ou verde e branco. Tinha até bolas de gude de metal. Um verdadeiro tesouro! Mas o que é que essas bolas de gude da minha infância têm a ver com as garrafas de vidro que eram coletadas e vendidas por aqueles homens e mulheres pobres daquela cooperativa de reciclagem, instalada ali embaixo daquele viaduto? Confesso que não saberia ao certo lhes dizer. Talvez algo a ver com o brilho da luz do sol, resplandecendo naqueles diversos e coloridos montes de vidro. Sim, eram apenas garrafas de vidro. Garrafas de vidro que já fizeram um dia a delícia e a embriaguez de uns poucos e que agora são apenas lixo para muitos, e riqueza e renda para alguns poucos miseráveis. Todo o brilho daqueles montes de vidro, lixo para uns e riqueza para outros, reitero, agora, aos meus olhos, era o mesmo brilho das bolinhas de gude daquele menino pobre de tantos anos atrás. Ah, meu caro! Cada um que faça a sua viagem. Cada um que faça a(s) sua(s) leitura(s). O fundamental é poder enxergar a luz que emana do lixo e que pode se traduzir nos mais variados sentidos, sob os mais diversos olhares. O olhar do catador de lixo, o chamado badameiro. O olhar do classe média que passa indiferente. O olhar do homem que dirige o caminhão que transporta os vários tonéis de vidro. O olhar do poeta que passa e a tudo vê. O olhar do empresário que adquiriu o vidro daqueles cooperados. E, afinal, o seu olhar, caro leitor.
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