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Opinião
01/01/2005 - 19h05
Me engana que eu gosto
João Luiz Mauad - MSM
 

A recente escaramuça pública entre o nosso presidente sabichão e os dirigentes do IBGE acerca dos indicadores da fome no Brasil pode ser considerada uma síntese da balbúrdia reinante nesta terra abençoada (pelos deuses do simplismo) quando o assunto são números. A irresponsabilidade com que se divulgam e, ato contínuo, açodadamente se interpretam informações estatísticas aqui por estas bandas é estarrecedora.

Quando lhe eram convenientes, os tais 53 milhões de famintos sempre estiveram acima de qualquer suspeita, tanto que o "senhor das metáforas" não se cansava de proclamá-los, mesmo que absolutamente inverossímeis até para si próprio (como demonstrado no filme de João M. Salles). Bastou, entretanto, que os dados recém divulgados mostrassem uma realidade diferente daquela idealizada pelos próceres do PT e da Teologia da Libertação para que o IBGE, outrora cantado em prosa e verso como modelo de serviço público, fosse rapidamente taxado de inimigo da nação (mais um). O mais curioso nisso tudo é que a mesma mídia que hoje alardeia os novos indicadores jamais questionou os anteriores. Não por acaso, pois sempre gostou de números absolutos e, preferencialmente, bem grandes.

Outra característica marcante da imprensa tupiniquim é a sua obsessão por recordes. Às vezes acho que o Brasil é o país recordista de recordes. Já notaram como quase diariamente algum jornal noticia um novo recorde dos nossos atletas, da nossa economia ou até mesmo da nossa meteorologia? Outro dia mesmo, ouvi alguém dizer que aquele teria sido o dia mais quente do milênio. A cotação do Dólar, por sua vez, vive pulverizando recordes, seja para cima ou para baixo. O que não dizer da bolsa de valores, das exportações, da balança comercial, dos índices de emprego (ou do desemprego).

Ao final do último campeonato brasileiro de futebol, divulgou-se que o atleta Washington, do Atlético Paranaense, era o maior artilheiro do campeonato em todos os tempos, tendo alcançado a expressiva marca de 34 gols. Sem querer desmerecer o artilheiro, contudo, sou obrigado a questionar esta estatística fajuta, em que se consideram, pura e simplesmente, grandezas absolutas, cuja comparação com os resultados anteriores fica prejudicada, tendo em vista que o número de partidas disputadas em cada campeonato raramente é o mesmo. Se estabelecermos uma relação entre as quantidades de gols marcados e de jogos realizados por cada equipe, concluiremos que o atleta Washington estabeleceu uma média de 0,74 gols por jogo (g/j). Este valor é inferior aos 0,80 g/j marcados por Guilherme em 1999, aos 0,88 g/j marcados por Edmundo em 1997 e muito menor que os incríveis 1,34 g/j acumulados por Reinaldo em 1977, este sim o maior artilheiro da competição em todos os tempos (apesar de ter marcado apenas 28 gols no total).

Outro exemplo assaz corriqueiro dessa barafunda numérica que impera por aqui diz respeito à leitura simplista que usualmente se faz dos relatórios financeiros das empresas em geral. Como muito pouca gente costuma ter paciência para analisar dados de balanços e demais demonstrativos contábeis publicados pelas companhias, a mídia esquerdista deita e rola no colchão macio da desinformação. A cada fim de semestre, com a divulgação dos balanços dos bancos, somos brindados com aquelas manchetes reluzentes do tipo: Bradesco obtém lucro de X bilhões no período, graças às taxas de juros praticadas pelo BACEN. Ou então: Tarifas bancárias proporcionam ao Itaú o maior lucro da sua história. Raríssimas são as vozes que se levantam para dizer que a coisa não é bem assim. Que a lucratividade média (retorno sobre o patrimônio) dos bancos brasileiros em 2003 foi de aproximadamente 18%, enquanto a nossa gloriosa, competentíssima e monopolista Petrobrás obteve, no mesmo período, em razão da prática de preços obscenos (comparados com o mercado internacional), uma lucratividade de 56%, o que é uma verdadeira indecência, um roubo que simplesmente não foi noticiado.

Quiçá o exemplo mais ilustrativo de como os sofistas costumam "trabalhar" os números em prol de uma causa ideológica esteja nas tais "pesquisas" que pretendem medir a mãe de todas as abobrinhas esquerdistas: falo da famigerada "desigualdade social", essa abstração esdrúxula que tão eficientemente tem servido aos propósitos daqueles que se auto intitulam "defensores dos oprimidos". Senão, vejamos:

Suponha o estimado leitor que eu seja um membro da "alta burguesia", cuja renda familiar total em 2003 tenha sido de, digamos, R$ 200.000,00 e que a família de minha empregada doméstica, no mesmo período, tenha logrado uma renda bruta de R$ 20.000,00. Pois bem, nessas circunstâncias a diferença (desigualdade) entre os rendimentos das duas famílias terá sido de exatos R$ 180.000,00. Imaginemos agora que, no exercício de 2004, a minha renda familiar tenha aumentado 10%, passando, portanto, para R$ 220.000,00, enquanto o rendimento bruto da família da minha empregada sofreu um incremento de 50% (atenção: eu disse cinqüenta por cento), totalizando agora R$ 30.000,00. Não há dúvida, pelo menos para qualquer pessoa bem intencionada, de que a família dita "proletária" alcançou um nível de prosperidade no período muito maior do que a "burguesa". Entretanto, se nos ativéssemos apenas aos valores nominais acima enunciados e olhássemos somente sob o ângulo que interessa aos demagogos "social" oportunistas, teríamos concluído, com base estritamente matemática (portanto científica), que aumentou a "desigualdade social" entre as duas famílias, afinal a diferença de renda que era de R$ 180.000,00, em 2003, passou para R$ 190.000,00 em 2004.

Perceberam como funciona o ilusionismo esquerdista?


Nota do Editor: João Luiz Mauad é empresário e formado em administração de empresas pela FGV/RJ.

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