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Opinião
04/01/2005 - 06h00
O fim do jornalismo ambiental
Carlos Tautz
 

Aquela modalidade de jornalismo que chamamos de "ambiental" é uma noção superada historicamente. Há quase um consenso entre ecologistas e cientistas indicando que a cobertura dos fenômenos ambientais precisa incorporar as variáveis sociais, o que exige dos jornalistas um novo tipo de abordagem. Necessitamos olhar o problema de um ponto de vista "sócio-ambiental", mesmo em questões aparentemente restritas aos aspectos técnicos, como a biotecnologia e as mudanças no clima do planeta.

Em outras palavras, o que cobrimos são fenômenos ambientais delimitados por opções nos campos da política e da economia do crescimento. Essa circunstância histórica exige um jornalismo que leve em consideração um fato em si, mas também as suas interconexões com todos os demais fatores que influenciam os paradigmas de desenvolvimento.

Os valores sociais mudam com o correr dos anos e o jornalismo, como atividade política, reflete e interfere nesses valores. A sua prática só é responsável se se inserir adequadamente nesse momento histórico.

O início do jornalismo ambiental pode ser atribuído à publicação, nos EUA, das primeiras matérias denunciando contaminações de lençóis freáticos, do solo e do ar, assim como o desmatamento dos resquícios de florestas naquele país, nos anos 1960, quando cresciam no mundo inteiro as lutas sociais pela ampliação dos direitos da cidadania, incluindo aí a novidade da cidadania ambiental.

Foi nesse ambiente que, na primavera de 1962, a bióloga estadunidense Rachel Carson lançou o livro A primavera silenciosa (Silent spring), em que denunciava os impactos dos pesticidas, principalmente sobre os pássaros, que, mortos, deixavam de cantar justamente na estação de sua procriação. Carson, que morreu em 64, criticou as campanhas da indústria dos agrotóxicos para desinformar a opinião pública e vender a idéia de que a aplicação de venenos agrícolas significava progresso e ajudaria a acabar com a fome no planeta.

A imprensa brasileira acompanhou o fenômeno internacional. Como lembra o jornalista Roberto Villar, um historiador do jornalismo ambiental, "Em 1968, (...) era preso no Brasil - pela Operação Bandeirantes - o jovem repórter Randau Marques, primeiro jornalista brasileiro a se especializar em meio ambiente. Randau foi considerado subversivo na época porque escreveu num jornal da cidade paulista de Franca (berço dos curtumes) reportagens sobre a contaminação de gráficos e sapateiros com chumbo, e já questionava a expressão "defensivos", mostrando que os agrotóxicos eram responsáveis pela mortandade de peixes e pela intoxicação de agricultores. Depois, Randau se especializou em assuntos urbanos e questões ambientais no Jornal da Tarde.

Pelo diário do Grupo Estado, Randau cobriu na capital gaúcha a primeira polêmica ambiental envolvendo uma grande indústria. O fechamento da fábrica de celulose Borregaard, do dia seis de dezembro de 1973 até 14 de março de 1974 atraiu a atenção de jornalistas de outros estados e do exterior. A indústria, hoje chamada de Riocell, fica nas margens do Guaíba, na frente de Porto Alegre".

Muitos outros jornalistas se dedicaram ao assunto meio ambiente, não apenas como reflexo da emergência desse valor social, mas também porque aí residia uma possibilidade de escapar à censura de então, que concentrava suas atenções sobre o noticiário político.

Porém, depois de três conferências mundiais da ONU sobre a relação entre meio ambiente e desenvolvimento - em Estocolmo (1972), Rio de Janeiro (1992) e Joanesburgo (2002) -, da incorporação dos valores ambientais em quase todos os ramos da atividade humana e do agravamento da crise ambiental - destacando-se os problemas específicos dos recursos hídricos, das mudanças no clima, da destinação do lixo e da extinção em massa de espécies por força da ação humana - necessitamos ultrapassar a etapa das denúncias de desastres e ampliar o debate para a discussão sobre as opções de desenvolvimento.

A imprensa presta um desserviço à sociedade quando se limita a veicular as imagens do espetáculo do derramamento de óleo, mas não questiona a opção pela queima dos combustíveis fósseis como principal forma de geração de energia no planeta. Faz o mesmo quando regozija-se com a fartura de imagens da tsunami que mata dezenas de milhares no sul da Ásia, mas não enfrenta o debate sobre o turismo habilmente auto-denominado "sustentável", que implanta complexos hoteleiros sem esquemas de prevenção ou de resposta a desastres naturais.

O tempo e a lógica da natureza não se enquadram em um fait divers. Fenômenos naturais quase sempre manifestam-se em ciclos, cuja amplitude pode alcançar centenas ou milhares de anos, e que desconcertam o critério de notícia. Seus impactos muitas vezes podem ser antevistos somente com uma dose de boa vontade para com as fontes que teimam em desrespeitar o coro dos contentes e avisar das probabilidades dos problemas que se avizinham.

O Brasil de Lula é um excelente campo de trabalho para quem entender o jornalismo como o meio de a sociedade debater o desenvolvimento. O presidente ressuscitou o crescimentismo econômico que orientou outras fases da história brasileira, a despeito dos valores sócio-ambientais que foram construídos nas últimas décadas do século 20.

Megahidrelétricas cuja formação inunda áreas de preservação permanente, usinas atômicas que produzem rejeitos radioativos sem local definitivo para seu armazenamento e o negócio agrícola para exportação que gera desflorestamento e desequilibra os recursos hídricos tornaram-se novamente sinônimos de uma modernidade que não encontra questionamento sistemático na imprensa.

Todos esses exemplos estão dando sopa para quem se interessar pelas várias pautas de um jornalismo para o desenvolvimento.


Nota do Editor: Carlos Tautz é jornalista.

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