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Embora o Brasil tenha decidido no plebiscito de 1993 que sistemas de governo são coisas fúteis e que o presidencialismo deve continuar sendo nosso modelo, o fato é que esse sistema, associado ao pluripartidarismo, ou rompe periodicamente a estabilidade ou corrompe constantemente as instituições. No presidencialismo não é a maioria que faz o governo, mas é o governo que precisa fazer a maioria, de modo que não basta ao governante vencer o pleito que lhe concede o mandato. Para manter a governabilidade ele precisa vencer os sucessivos pleitos que se travam nas votações do Congresso. E como lá existem 14 minorias e nenhuma maioria, cabe-lhe arregimentar base de apoio, num trabalho estafante e moralmente desgastante. Lula, ao tempo em que comandava a pichação oposicionista e colava etiquetas nos adversários, contabilizava a existência de 300 picaretas operando na pedreira do governo Sarney. Hoje, todo esse ferramental está estocado no almoxarifado de Sua Excelência e Sarney é o braço direito do governo no Senado. Vejamos o mesmo fenômeno desde a perspectiva das legendas e do funcionamento das nossas instituições. A cada pleito, os partidos investigam a opinião pública e os candidatos formulam seus discursos em concordância com o que o povo deseja ouvir. Para quem gosta de analogias, serve esta: os partidos captam os ventos da opinião pública e ajeitam suas velas para ganharem velocidade em direção ao poder. Eis a razão pela qual todos os candidatos presidenciais de 2002 falavam mal uns dos outros, mas diziam exatamente a mesma coisa ao povo. Encerrado o pleito direto, começa o pleito parlamentar. Em tese, apenas um partido fica totalmente impossibilitado de aderir ao governo: aquele que perdeu a eleição no segundo turno. Os demais cravam o cotovelo no balcão e passam a negociar, entre cochichos, com os novos donos do poder. Que se lixem as dificuldades da gestão, o que interessa, em tais conluios, são as facilidades em questão. Eis aí, leitores, o que estamos cansados de ver. Apenas Fernando Collor, porque era um doidivanas e não aceitou a regra do jogo, subiu a rampa num dia e escorregou, porta afora, pouco depois, sobre a maionese de suas trapalhadas. A estratégia de Lula, contudo, se distingue da de seus antecessores pelo fato de que suas negociações não se fazem com os partidos, mas diretamente com os parlamentares, espalhando uma discórdia que lhe servirá tanto agora quanto em 2006. Do próprio PSDB foram surrupiados 22 congressistas para outras legendas e para a base do governo. Rachou-se o PMDB, o PP, o PPS e, em parte, o PFL, com a sedução de parlamentares que ajustaram suas velas para atracarem perto do Tesouro Nacional. Esse é o desserviço principal que Lula e seu partido estão prestando à política brasileira. Em vez de construírem a necessária reforma política, eles estão destruindo os partidos numa cizânia que lhes convém. Mas como afirmou com sabedoria um jovem amigo: se o grupo político-ideológico que hoje nos governa quase conseguiu separar a Igreja do Brasil da Igreja de Roma, com muito maior facilidade vai acabar com os partidos políticos nacionais. Nota do Editor: Percival Puggina é arquiteto, político, escritor e presidente da Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública.
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