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Os recentes atos do governo relativos à abertura dos arquivos da "ditadura" criam uma comissão caracterizada por extrema parcialidade, a que o assunto será afeto, com ampla liberdade para selecionar o que deve ser levado ao conhecimento público e o que deve ser dele preservado. A dita parcialidade é marcada pela presença nela, entre outros, da Casa Civil, chefiada por José Dirceu, e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, cujo chefe, Nilmário Miranda, tem do assunto uma visão muito peculiar, fortemente influenciada pelo revanchismo do grupo "Tortura Nunca Mais". Assim sendo, a esquerda passou a entender a participação em guerrilhas, tanto rurais como urbanas, como fato altamente meritório. Numa tremenda inversão de valores, passou-se a ignorar que tais guerrilhas eram invariavelmente formadas por facções comunistas, dissidentes do PCB, e pelo PC do B, todas lutando para conduzir o país para o âmbito da União Soviética, representada na AL por Cuba, até hoje tão ligada a esse mesmo governo. Por outro lado, aqueles que se imolaram em defesa da sobrevivência da democracia, que bem ou mal é a que temos hoje, no estrito cumprimento de seus deveres, foram considerados como párias face a tais direitos. A citada comissão se encarregará de fazer a devida seleção dos documentos mas, alguém acredita por exemplo, que José Dirceu permitirá que se divulgue o fato de sua fação guerrilheira ter lançado um carro bomba contra o QG do II Exército, estraçalhando o sentinela, soldado Mário Kozel, que cumpria o seu juramento de defender as instituições com o sacrifício da própria vida? Será que o verdadeiro papel de José Genoíno na guerrilha do Araguaia será revelado ou apenas a versão do seu papel de lutador heróico em defesa da redemocratização? É evidente que houve excessos na repressão, o que é comum ocorrer no enfrentamento de duas violências. Há ainda o justo desejo de sepultar mortos nas proximidades de seus familiares. Entretanto, o espírito da anistia ampla, geral e irrestrita, concedida pela "ditadura", muito mais generosa do que aquela proposta pela oposição (MDB), está sendo violentado, pois a exumação do passado, que se procura, além de fugir de seus generosos propósitos, carece de uma equanimidade, impossível de obter no governo de um partido tão comprometido nos episódios da época. Nota do Editor: Adolpho João de Paula Couto é Gen. de Div. (Re) do EB, membro fundador da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas e autor de vários livros, dentre os quais, "A Face Oculta da Estrela", Gente do Livro, 2001.
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