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SEÇÃO
Crônicas
07/01/2005 - 08h15
O começo do ano em 4 atos
Artur de Carvalho - Agência Carta Maior
 

Ato 1: O Enxame

Passei o ano-novo no rancho do meu sogro, com a família toda. E logo no dia primeiro, pela manhã, estava eu lá, temperando umas carnes para fazer um churrasquinho, quando senti falta de uns limões. A parte boa de se estar num rancho numa hora dessas é que, geralmente, sempre tem um pé de limão galego plantado em algum cantinho. Fui até lá apanhar alguns, de short, sem camisa e descalço. Pequei um limão, dois. No terceiro ou quarto, senti um zumbido na orelha. Tentei espantar, mas logo percebi que o zumbido vinha era de tudo que é lado. Um enxame. De marimbondos. Saí correndo, chacoalhando os braços, e deixando um trilha de limões pelo caminho. O saldo da aventura foi umas três ferroadas nas costas, uma na boca (que inchou um pouco), uma outra na sobrancelha e três ou quatro nas mãos. Podia ser pior.

Ato 2: Ladrões que fazem fondue

Já, minha prima, finalmente conseguiu convencer o marido a passar o ano-novo na praia. Pegaram os filhos, alugaram um chalezinho só para eles, e partiram para as praias de Santa Catarina. Chegaram ontem, queimadíssimos de sol e num cansaço só. Ao entrarem em casa, porém, não encontraram absolutamente nada. Os ladrões fizeram uma limpa. Levaram DVD, televisão, microondas, a coleção de CD’s, o aparelho de som, o whisky 50 anos que estava sendo guardado para uma ocasião especial, levaram até um aparelho de fazer fondue, vejam vocês, ladrões que fazem fondue.

Ato 3: Somos mesmo quase nada

Esse tal de tsunami, que matou mais de cento e cinqüenta mil pessoas lá na Ásia, não passa de uma ondinha de nada. Um arrepio da crosta terrestre. Se compararmos com o tamanho do planeta, com o tamanho do mar, com o tamanho dos continentes, o maior drama de 2004 é pouco mais que um espirro. Uma limpada de garganta dos oceanos. O que talvez sirva para que nos coloquemos em nosso devido lugar, na nossa insignificância frente a todas essas coisas que conhecemos e todas essas que nunca chegaremos a conhecer. É claro que não é nada bom começar o ano com essa tragédia pairando soturna sobre nossos champanhes e nossas ceias. Mas um pouco de humildade não faz mal pra ninguém.

Ato 4: Sai pra lá coisa ruim

Enxames de marimbondos. Assaltos na calada da noite. Tsunamis assassinos. A parte boa é que, com tanta coisa ruim, a tendência só pode ser a de melhorar. Um feliz 2005 pra todo mundo.

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