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Toda vez que me deparo com a frase Vox populi, vox dei cito logo o exemplo nazista. Hitler foi eleito pelo voto direto, celebrado pelo povo germânico como o messias que reconstruiria o orgulho nacional. Nos anos 40, a voz do povo causou morte de 6 milhões de judeus. A democracia é algo tão fascinante e perigoso quanto a filosofia que lhe dá origem. Fatos semelhantes acontecem diariamente, travestidos de bom-mocismo e apoiados em palavras da moda - justiça, inclusão, orgulho. O vocabulário surrado não prejudica a mensagem, apenas reforça a simpatia natural da maioria das pessoas em relação a ela. As palavras são escolhidas e pronunciadas de forma a causar reação em vez de reflexão. Diante delas é muito fácil emitir uma opinião - gosto disso, não gosto daquilo -, mas é cada vez mais difícil elaborar um pensamento, refletir sobre o que foi dito e elaborar argumentos para aprová-las ou recusá-las. Como dizia o filósofo, a maioria de nós prefere crer a pensar. Quando é necessário pensar, basta recorrer ao senso comum, pressionar o botão mais gasto e dormir em paz. No Brasil, toda a educação escolar, as universidades, a cultura popular, a mídia e os criadores de tendências (artistas, escritores, comentaristas etc.) estão direcionados para a repetição de meia dúzia de palavras de ordem e para o cerceamento da consciência individual. Educado pelas telenovelas e pelos sábios de pandeiros, chuteiras e holofotes, qualquer sujeito medianamente dotado de inteligência torna-se um ignorante incurável e passa a crer mais nos famosos da ocasião do que em si mesmo. Intimamente ele sabe que há algo de errado nisso, mas sua voz interior tende a ser apagada pelo vozeirão do populacho. Para o sujeito incauto, se todos dizem X, é loucura pensar Y - embora ninguém saiba por que se deve dizer X. Aos poucos, sua educação moral se esfarela diante da justiça social, do orgulho racial, da construção de um mundo melhor - e ele se esquece que Hitler também queria um mundo melhor. Afinal, existem várias coisas mais importantes do que sua consciência individual e dos valores familiares. Ele se alegra de ter percebido isso antes que caísse no ostracismo, chama os amigos e sai para beber cerveja, conversar sobre futebol e mexer com as moças na rua. A cultura brasileira - aquilo que se faz quando não é necessário sobreviver - resume-se a isso: cerveja, TV e imbecilidade coletiva. Para vacinar-se contra isso você deve seguir três passos: 1) rever seus hábitos e aquilo que você consegue com eles; 2) estudar sempre e aprender a pensar, saber sustentar sozinho as crenças que você adora, o que inclui muita leitura; e 3) construir sua vida interior, reconhecendo que tudo que é oferecido lá fora jamais poderá superar aquilo que você poderá construir dentro de si. Santos, sábios e gênios de vários tipos assemelham-se nestes pontos: todos construíram uma vida interior riquíssima e a utilizaram como contraponto àquilo que o mundo tentava lhes empurrar goela abaixo.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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