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As condições da boca são essenciais para o equilíbrio e o estado de saúde integral das pessoas. Contudo, nem sempre este conceito é devidamente difundido no Brasil, relegando-se a segundo plano a importância do acompanhamento e do tratamento odontológico desde a primeira infância. Os avanços são muitos, tanto nas estatísticas quanto nas técnicas de dentística, hoje extremamente avançadas e capazes de assegurar adequada saúde bucal, além de perfeita estética, aspecto também importante, à medida que mexe com a auto-estima e a psique humana. No entanto, os contrastes sociais do Brasil, como ocorre em numerosas nações emergentes, também se reflete na questão da odontologia, conforme demonstrou, com meridiana clareza, a Pesquisa Saúde Bucal - Brasil, realizada 2004 pelo Ministério da Saúde. Foi o mais completo levantamento epidemiológico da saúde bucal já realizado no País, avaliando as condições, nessa importante área, de mais de 108 mil brasileiros, em todas as regiões do território nacional. O estudo mostrou que oito milhões de brasileiros não têm um dente sequer na boca. Outros 30 milhões jamais foram ao dentistas, dados que ratificam pesquisa realizada em 1998 pelo IBGE. Treze por cento dos adolescentes também nunca entraram num consultório dentário; 45% dos brasileiros não têm acesso regular à escova de dente. Estas estatísticas epidemiológicas da área odontológica expressam, lamentavelmente, a forte exclusão social existente no Brasil. Como todas as questões ligadas à saúde, o quadro odontológico dos brasileiros também depende do sucesso de uma política pública capaz de melhorar genericamente as condições socioeconômicas da população, começando pelo crescimento sustentado da economia, educação, habitação e inclusão social. Entretanto, paralelamente ao macro, é necessário solucionar os problemas de forma localizada. Assim, é necessário que o programa "Brasil Sorridente", lançado pelo Ministério da Saúde em 2004, possa efetivamente cumprir suas metas, atendendo com eficiência a cobertura anunciada, de 36 milhões de pessoas. Por outro lado, a prevenção é o eixo fundamental de uma política de atenção à boca mais eficaz. Nesse sentido, há duas vertentes decisivas. A primeira é relativa ao atendimento na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Muita gente desconhece que pode receber tratamento odontológico gratuito na rede, hoje respondendo por apenas 3,3% dos tratamentos especializados. Além de mais difusão das possibilidades de ter atendimento no SUS, este, mais do que atender emergências, também deveria desenvolver forte ação preventiva, desde a primeira infância. A segunda vertente no campo da prevenção é relativa à fluoretação da água distribuída à população, ainda não existente em 40% dos municípios brasileiros. Nas localidades nas quais não há flúor na água, a incidência de cáries é 49% maior. Portanto, há condições imediatas para se promoverem significativos avanços na saúde bucal dos brasileiros. São políticas públicas relativamente simples, passíveis de rápida implementação e com resultados efetivos em curto prazo. Nota do Editor: Salvador Nunes Gentil é presidente do 23º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo.
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