|
Era apenas uma rosa, ou melhor, um botão de rosa. Não uma rosa cor de rosa, uma rosa amarela. Uma singela flor, ainda em botão, no jardim daquela casa tão luxuosa. Entre o jardim e o olhar de quem por ventura desejasse aquela flor haviam grades de ferro pontiagudas, cercas elétricas, cães de guarda, vigilantes e toda sorte de obstáculos. A casa era de ricos e, condição mais ou menos óbvia, situava-se num bairro de ricos. Uma casa de ricos, dessas que são guardadas por vigias simplórios, câmeras de vigilância, alarmes e outras engenhocas mais sofisticadas. Os vigias são homens pobres, migrantes vindos geralmente da região Nordeste do país, moradores das periferias das grandes cidades que trabalham "tomando conta", como eles mesmos dizem, das ruas, das casas, dos carros, enfim, do patrimônio dos "homens de posses". Fazem suas rondas, a pé ou montados em bicicletas, quase sempre "armados" de inofensivos apitos: Pri! Pri! Pri! Escuta-se ao longe o estridente apito do vigilante que embala e guarda o sono dos justos. Ali, muito provavelmente, estará, a postos, um sertanejo, um homem humilde e pobre, um bom caráter, que cuida com fidelidade canina do patrimônio do homem rico, o seu/nosso patrão. Um "trabalhador informal", como diria a retórica e as estatísticas oficiais, um trabalhador que, como os demais proletários, mora bem distante, nos bairros mais pobres e longínquos, e ganha um salário de R$ 300,00 ou, no máximo, R$ 500,00 pagos pelos ricos e "generosos" patrões. E era exatamente no quintal de uma daquelas casas de muros altos e jardins bem cuidados, casa de patrões, portanto de homens ricos, reitero, que despontava aquele singelo botão de rosa amarela. Botão de rosa amarela que certamente não despertaria jamais a cobiça dos ladrões que o sertanejo era pago para manter bem longe daquelas propriedades. Mas despertava a cobiça daquela mulher, que por ali passava todos os dias e que não dava importância alguma às mansões suntuosas, com seus proprietários esnobes e seus carrões importados. A ela só importava a rosa. Uma rosa ainda em botão que tampouco interessava aos homens ricos, felizes donos daquelas casas, muito ocupados que estavam em ganhar dinheiro, muito preocupados que estavam em proteger e cuidar de seus negócios e empreendimentos (negócios e empreendimentos esses que lhes propiciavam todo aquele conforto, toda aquela "dolce vita"). E, por isso mesmo, por estarem muito preocupados, não tinham muito tempo e ânimo para curtir os seus carros importados, as suas mulheres, os seus filhos, as suas casas e muito menos aquela singela rosa que nascia bem ali no seu quintal. Mas aquele singelo botão de rosa atraiu o desejo daquela singular mulher que, simplesmente pelo fato de ser aquele o seu caminho de todos os dias - e não havia um outro motivo que não esse - passava cotidianamente por aquelas ruas onde ficavam aquelas casas imponentes, luxuosas, de jardins bem cuidados. Ela era uma mulher simples, mas não simplória. Uma mulher madura, de classe média. Uma mulher de hábitos e valores refinados e estranhos, nada usuais, para muito além do que se esperaria de uma mulher da sua classe social, classe esta tão pródiga em abrigar bajuladores de ricos. Essa mulher realmente desdenhava dos homens ricos, de suas casas e carrões importados. Mas gostava de admirar as árvores, os pássaros, a calma e o silêncio daquelas alamedas, as flores daqueles jardins. E eram muitas as árvores e pássaros, era vasto o silêncio e a calma, e eram muitas as flores ali no bairro dos ricos - pois até nisso os ricos pareciam ser privilegiados. Uma mulher que tratava com certa reverência e com amizade sincera os "subalternos" (como diziam os de sua classe) e, sim, desprezava os ricos, os poderosos. Aquela mulher sempre cumprimentava, com afeto sincero e irreverente entusiasmo, os vigilantes que circulavam por ali, para cima e para baixo, em suas bicicletas. Sempre com um alegre "bom dia!". "Bom dia, fulano!". "Bom dia, beltrano! - dizia, sempre com extremada e autêntica alegria, chamando-os a todos pelo nome. Era mesmo de impressionar a forma como aquela mulher tratava os subalternos. E foi a um desses subalternos, a um dos vigilantes dessas ruas de homens ricos, que ela confessou o seu desejo de ter, dali a mais dois dias, aquela rosa na mesa do seu jantar de sexta-feira, dia em que celebraria o seu aniversário, na companhia de seu homem. Não gostava de flores compradas em floriculturas: "elas não têm vida, viço, são flores de cemitério" - dizia. Na manhã de sexta-feira, o vigilante, como sempre, como fazia todos os dias, retribuiu-lhe, um tanto tímido, o seu vivaz "bom dia!". Deixou-a ir, meio constrangido, e, quando da sua volta, chamou-lhe acabrunhado e disse-lhe que infelizmente não poderia dar-lhe a rosa, pois o patrão não iria gostar e ele poderia, por esse ato (de roubar a flor) ser demitido. A mulher, então, agradeceu-lhe a gentileza, compreendeu as justificativas daquele pobre homem e se despediu um tanto entristecida, porém resignada. O vigilante, vendo ali, dar-lhe as costas e seguir, agora com passos lentos e taciturnos, aquela mulher que era habitualmente tão alegre, chamou-a de volta e disse-lhe resoluto: "Mas hoje é seu aniversário, não é mesmo?". Dirigiu-se então, rapidamente, até a casa onde estava o tal botão de rosa, pulou o muro, venceu as grades, driblou os alarmes e, com a rapidez de quem rouba, surrupiou a flor e entregou-a àquela mulher. Ninguém seria capaz de avaliar, muito menos sentir, o júbilo que essa mulher sentiu naquele momento. Agradecida, sapecou um beijo carinhoso na face daquele pequeno homem e saiu serelepe de volta para casa. Já à noite, à mesa do jantar, do tal jantar do dia de seu aniversário de 50 anos, ela estava ali, diante do seu homem, diante da rosa. Como sempre, encantada com o seu homem, com a sua boca, com as suas falas, suas palavras, sua beleza, sua alma, seu corpo. Mas sobretudo encantada com aquela flor. Admirada com as suas cores vivas, suas pétalas de um amarelo intenso e aveludado, o seu caule liso, perfeito, as folhas simetricamente delineadas por pequeninas saliências dentadas, de um verde escuro que era puro viço e beleza, os espinhos arroxeados de formas perfeitas, rijas. Estarrecida com o poder e o milagre daquela rosa que desabrochara com tão inverossímil força e magia, e se transformara, bem ali, naquele instante, diante dos seus olhos e dos olhos verdes do seu homem, num girassol. Sim, num girassol. Isso mesmo. As pétalas daquela rosa "explodiram" de tal modo, e eram tão grandes, e em seu centro apareceu como que um botão de pólen, que, sim, não restaria a ninguém a menor dúvida: aquela rosa agora era também um girassol. Não se conseguirá jamais traduzir, de uma forma convincente e fluida, em palavras, aquilo que se deu ali, diante dos olhos daquele homem e daquela mulher. Envolvidos que foram por aquela realidade tão fantástica, tão inacreditável, talvez por isso (e talvez apenas por finalmente conseguirem realmente ver as coisas), sentiram um certo contentamento, que também era acolhimento, alívio e conforto ao se pegarem tentando dissimular uma lágrima que, furtiva, teimava em denunciar-lhes a emoção. A mulher não sabia, ao certo, porque o homem chorava. O homem tampouco sabia por que chorava a mulher. Se pudessem ter acesso aos pensamentos um do outro, saberiam que o homem se lembrara dos girassóis de Van Gogh e se comovera com toda a "poesia" daquela flor (e daquela mulher), que, subvertendo a sua natureza, se transformara num girassol. A mulher, isso jamais seu homem poderia imaginar, chorava porque aquela rosa amarela, que tanto desejara, transformada num girassol, ali, diante dos seus olhos naquela fugaz irrealidade, remetia-lhe ao passado. Remetia-lhe aos girassóis que seu falecido pai regava e plantava, junto com ela, em tempos idos, quando ainda era apenas uma menina, todos os dias, em manhãs molhadas de orvalho, névoa e silêncio. Chorava, sobretudo, por se saber ainda uma moleca e por encontrar, naquele momento, naquele flor, naquele homem a imagem e lembrança de seu pai. Aquela rosa amarela, ali, tão parecida com um girassol. Aquele belo homem, ali, tão parecido com o homem cheio de vida que fora seu pai.
|