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Crônicas
23/04/2004 - 19h37
Se é bom para conchas, é bom para os seus dentes
Christian Rocha
 

Dia desses vi uma propaganda de um creme dental. Duas crianças colhiam conchinhas na praia. Uma delas dizia à outra que a professora queria mostrar a importância do cálcio para os dentes. Em seguida, uma seqüência de imagens mostrava duas conchas e uma delas era escovada com creme dental com cálcio. Esta era batida contra a outra, que não havia sido escovada com o dentifrício com cálcio e por isso quebrava enquanto a primeira permanecia intacta. A propaganda não diz com todas as letras, mas a conclusão ressoa na cabeça do espectador: se é bom para uma concha, é bom para os seus dentes.

O que de mais mentiroso poderia ter sido inventado para vender pasta de dente? Eu penso na família feliz, que escova os dentes junta, sempre sorrindo diante do espelho e sem babar espuma, mas não consigo achar essa imagem mais mentirosa do que a das conchinhas.

Logo em seguida, um sujeito gordo com uma auréola na cabeça é posto a rebolar para vender carros. Um pagodeiro torna-se garoto propaganda de duas cervejas, uma após a outra. Um alucinado pergunta quanto você quer pagar pelo produto anunciado, dando a impressão - falsa, evidentemente - que quem escolhe o preço é o consumidor.

Assisti recentemente ao filme "Chegadas e partidas". O personagem principal, Quoyle, vivido por Kevin Spacey, torna-se jornalista quando volta para o vilarejo de pescadores em que nasceu, após uma vida de fracassos na cidade grande. Aprendendo o novo ofício, seu chefe pede que pense numa manchete para uma paisagem que os dois observavam - um horizonte em que se anunciava uma tempestade. Como Quoyle não consegue pensar em nada, o chefe anuncia: "Tempestade ameaça vila de pescadores". O foca questiona: "E se a tempestade não vier?" O chefe responde: "Então publicamos no dia seguinte: ’Vila de pescadores escapa de tempestade’".

Na TV, dois advogados de defesa eram entrevistados a respeito do assassinato de um publicitário e de sua esposa, cujo principal suspeito era o filho da vítima. Ele havia sido preso alguns dias antes. Os advogados, criticando a prisão do cliente, argumentavam que não havia provas que conduzissem racionalmente a essa decisão. Demonstravam, ao mesmo tempo, que agiam de má-fé ou que desconheciam o Código Penal, em especial o trecho que trata de prisão preventiva. Evidentemente eles conheciam o Código, pois se tratava de dois advogados experientes e conhecidos na capital paulista, mas vendiam, no ar, a idéia da inocência de seu cliente, às custas da clareza e do discernimento do espectador. O telejornalismo ganhou mais algumas manchinhas nesse dia.

Imediatamente me lembrei do filme "As duas faces de um crime", que lançou Edward Norton como ator de grande envergadura. Nesse filme, Richard Gere é o advogado que defende o personagem de Norton, um jovem acusado de assassinar um padre. Durante todo o filme o jovem demonstra ter sérios distúrbios mentais e assim é absolvido, fazendo o júri - e o advogado e o expectador também - crer que se tratava de um caso incurável de dupla personalidade. Enquanto o advogado ainda comemorava o sucesso no julgamento, o jovem revela que tudo não passou de encenação.

Os dois filmes mencionados mostram o papel da mentira em duas atividades que não existiriam sem ela: o Jornalismo e o Direito. O exercício do jornalista consiste em traduzir os fatos do dia-a-dia e organizá-los dentro de um telejornal ou jornal impresso. A tradução já implica uma manipulação da informação, que neste processo receberá uma maquiagem pessoal, que poderá ser justificada pela "coesão editorial" ou algo do gênero. Mas geralmente essa manipulação não pára por aí. Ela se inicia na seleção do que é e do que não é notícia e termina na extensão que se dá a um assunto. Entre uma coisa e outra, muita mentira corre solta nas redações.

Para compreender a mentira na atividade do advogado, deve-se considerar que se trata de um profissional liberal que procura atender um cliente da melhor maneira possível. Quem lhe paga os honorários não é a Justiça, nem o Direito, mas o cliente, que não está interessado em virtudes, verdades e princípios éticos. O cliente está interessado em uma única coisa: vencer a contenda. O advogado que se decide a defender um cliente sabe que deverá abandonar todos seus princípios éticos em nome de um suposto profissionalismo. No filme com Norton e Gere, a primeira conversa do advogado com seu cliente expõe a realidade da advocacia: "Não me importa se você matou ou não matou. Queremos que você seja absolvido, e é isso que vamos fazer". Em outras palavras, não importa a Justiça, importa que o cliente saia satisfeito.

É exatamente isso que acontece com o jornalismo. Não há um suposto compromisso com a verdade. Existe um compromisso com a venda de jornais, com os anunciantes ou com os números da audiência. Na publicidade as coisas são ainda piores: como a verdade de um produto é melhor conhecida por quem o produz, é fácil o indivíduo-consumidor engolir as piores mentiras do mundo num anúncio impresso ou na TV, que é composto para ser, ao mesmo tempo, curto, direto e atraente.

Boa parte da mentira deste mundo está resumida a três atividades: o Jornalismo, a Publicidade e o Direito - respectivamente a arte de contar histórias, a arte de vender o peixe e a arte de inventar verdades. Nenhuma delas tem qualquer relação ou compromisso com a Verdade.

A partir disso, o indivíduo - consumidor, leitor, espectador ou vítima -, vê-se numa situação difícil. A Verdade, se dependermos sempre daqueles três profissionais, nunca virá à tona de uma forma visível, isto é, nunca teremos a certeza de que estamos diante da Verdade enquanto ela se manifestar através dessas pessoas. Reconhecer a Verdade exige sabedoria e intuição, virtudes lapidadas lentamente, ao longo anos e através de muito estudo, um caminho semelhante àquele percorrido pelos mentirosos que buscamos evitar.


Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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