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Opinião
12/01/2005 - 18h18
O país das maravilhas (?)
Lula Miranda - Agência Carta Maior
 

Não sei do que o povo brasileiro, afinal, reclama tanto. Vivemos num país onde a distribuição de renda é a mais eqüitativa possível. Aqui, todo cidadão, ao nascer, tem direito a uma parte da riqueza do país - seja ele, o cidadão, rico ou pobre. Toda criança já sai da maternidade com direito a perceber mensalmente a quantia de US$ 200. É o que convencionou-se chamar de renda-mínima, cuja implantação devemos todos à quixotesca persistência do idiossincrático senador Suplicy. E, desculpem-me a "licença poética", quando falo "pobre" estou falando dos, digamos, menos afortunados, já que nesse país há muito não existem pobres - exceto os pobres de espírito, é claro.

Aqui, diferentemente do que ocorre na maioria esmagadora dos países da América Latina e dos países do terceiro mundo em geral, já não existe fome ou miséria. O que existe, em verdade, como ocorre também com o nosso irmão do Norte, são muitos obesos - certamente devido à má educação alimentar. Fato este cabalmente constatado recentemente em pesquisas do IBGE (ou teria sido do UNICEF? Já nem lembro). Já não se vêem, portanto, aquelas cenas deploráveis de famílias inteiras se alimentando de sobras do lixo de outras famílias. O lixo é coletado e reciclado por grandes empresas privadas - já que até as cooperativas de catadores deixaram de existir, por motivos óbvios (não existem mais pobres - lembra-se?).

Aqui, nesse país das maravilhas, todos têm direito a uma educação básica de qualidade, garantida pelo Estado. As instituições privadas de ensino são raras, praticamente inexistentes. Todas as crianças, inclusive os filhos dos governantes e dos parlamentares (assim como os filhos dos membros do judiciário), estudam em escolas públicas. Tal é a excelência das nossas escolas da rede pública de ensino.

E, algo que vem intrigando economistas no mundo todo, mesmo apesar dos vultosos gastos do governo com a manutenção desse Estado de bem-estar social, o país vem, ano após ano, batendo seus próprios recordes de superávit fiscal. Parte desses bilhões de dólares amealhados com esses seguidos superávites são reinvestidos em políticas e investimentos públicos e a outra parte é direcionada à recomposição das reservas do país. "Recomposição", modo de falar, já que as nossas reservas já foram há muito recompostas, estando hoje na casa dos US$ 120 bilhões. E, obviamente, pelo aqui exposto, não existe mais aquela famigerada dívida externa que, durante décadas a fio do chamado século perdido, sugou a nossa poupança (interna e externa) e impossibilitou o desenvolvimento da nação e de seu povo. Agora somos credores, não só de países vizinhos e da longínqua Ásia, mas, inclusive, dos EUA - o nosso irmão do Norte.

Não, caro leitor, não se trata de uma blague, muito menos de cinismo. A intenção aqui não é fazer rir - quiçá fazer chorar ou indignar. Não, tampouco estou "viajando na maionese", como se diz, nem "pirei na batatinha". Ou fazendo piadinda barata com as realizações do governo Lula. Apenas estou retratando-lhe a impressão que venho tendo ao ler os jornais nesse último mês de dezembro e agora no começo de janeiro, portanto no começo do "happy new year" (se deixarmos um pouco de lado as notícias terríveis sobre a tragédia causada pelo maremoto na Ásia). E ainda tem-se, de quebra, laudas e laudas sobre as articulações e especulações a respeito da eleição do presidente da Câmara.

Afinal, em que país vivemos? Parece que eles vivem em outro país, pois só falam em reeleição. Eles, no caso, são a imprensa e alguns políticos, é claro - notadamente os da "oposição". É reeleição pra lá, reeleição pra cá. A agenda do país - na visão deles - é a tal da reeleição. Tudo é reeleição! E ainda faltam dois anos de governo - e isso serve tanto para o inquilino do Palácio do Planalto como para os governos estaduais. Reeleição o escambau! Reeleição não enche barriga, meu caro!

Parece que ninguém se dá conta de que esse país chamado Brasil - "Belíndia" para alguns - chegou ao fundo do poço em 2002. Sim, ao fundo do poço! Chegou a uma condição de pré-insolvência. Milhões de pessoas sem ter o que comer ou onde morar. A saúde, a educação, uma verdadeira lástima, uma vergonha, um caos. Fomos todos testemunhas da ruína do Estado brasileiro. Uma concentração de renda que transcende a iniqüidade. E parece que ninguém se dá conta disso!

Elegeu-se então um novo governo para mudar essa situação. O governo eleito, em meio às inúmeras dificuldades, limitações e até "impossibilidades" mesmo, começou, aos trancos e barrancos, como se diz, a esboçar algumas mudanças, algumas pequenas melhorias. Veja bem, não se deseja aqui fazer elogios descabidos ao governo Lula, mas não se pretende tampouco fazer críticas pueris, apressadas e infundadas (algumas até movidas pelo mais puro preconceito de classe, impaciência ou imaturidade política). De fato, sendo o mais realista e imparcial possível, apenas conseguimos sair da escuridão e inação que nos imobilizava e sufocava e, agora, começamos a respirar um pouco melhor, a mover-nos lentamente no inóspito fundo do poço. Conseguiu-se traçar alguns planos e uma estratégia, e até já se consegue ver os primeiros sinais de luz, de "pulsação", de vida. Percebem-se os primeiros movimentos dos músculos e tendões do corpo da nação na busca de uma forma de sair dos "inferos", de sair do estado de letargia, desesperança (e daí a tal baixa estima), descalabro e abandono em que nos encontrávamos.

Portanto, não me venham com esse papo extemporâneo de reeleição! Ainda tem muito trabalho a se fazer. Esse governo precisa fazer muito mais pelo país. Aliás, o próprio presidente da República, a depreender-se dos seus discursos mais recentes, parece ter consciência desse fato. Sim, já foram gerados algo em torno de 2 milhões de empregos com carteira assinada (tá certo que a promessa de campanha era de 10 milhões, mas, não sejamos hipócritas, promessas de campanha não passam disso: promessas de campanha). Algo próximo de 6.000.000 de brasileiros já são atendidos hoje por algum tipo de programa de "complementação" de renda ("bolsa-esmola"? Isso é o que dizem aqueles que não conhecem a fome, a miséria). Tá certo que já foram feitas (certamente não foi o ideal, mas o possível) algumas reformas necessárias (a tributária, a da Previdência e a do Judiciário) e outras estão na pauta - e precisam ser feitas. Tá certo que a produção aumentou, as vendas e as exportações também aumentaram, e assim, finalmente, voltamos a crescer na ordem de 5% do PIB. Mas isso tudo é insuficiente, embora mais que necessário. Mas muito mais ainda precisa ser feito, enfatizo. Ainda tem muito trabalho pela frente. E isso independe de colorações partidárias e viés ideológico. Precisamos sair do fundo do poço. Ponto.

Esse país não pode dar-se ao luxo de tamanha e incongruente inversão de pauta. Não pode ser refém da vaidade e ambição de certos caciques políticos. A agenda é outra. Repito, com ainda mais ênfase, meu caro: reeleição não enche barriga!!! E ainda temos muita barriga para encher nesse país. Ainda temos um longo percurso até sairmos do fundo do poço - e isso vai demandar muito tempo, muito esforço, sangue, suor e lágrimas. Ao trabalho, pois!

A menos, claro, que já vivemos todos uma delirante bem-aventurança e que sejamos todos felizes habitantes daquele Brasil descrito no começo dessa crônica. E, se já experimentamos tamanha bonança, eu sequer fui avisado disso.

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