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Opinião
13/01/2005 - 12h14
Perfil de Brasília
Ipojuca Pontes - MSM
 
"Brasília é um universo tenso de expectativas" - Clarice Lispector

Diz a versão original que Brasília nasceu de um porre. Deu-se o seguinte: Juscelino Kubitschek, seu criador, estava fazendo discurso de campanha eleitoral para Deputado Constituinte, em 1946, quando recebeu aparte de um fazendeiro, visivelmente embriagado, indagando se o candidato, caso eleito, encaminharia projeto de mudança da capital federal para o Triângulo Mineiro - ou para o planalto central - conforme previsto na 1ª Constituição Republicana de 1891. O futuro presidente, sempre muito "político", logo encampou a idéia e dela fez cavalo de batalha, não só enquanto deputado constituinte, mas, principalmente, em meados dos anos 50, como candidato à Presidência da República.

Eleito, temendo a sabotagem dos políticos adversários, em praticamente três anos JK construiu, transferiu e inaugurou a capital, fomentando colossal soma de gastos, origem, para muitos, do processo inflacionário que nos assalta e que até hoje deixa buraco no bolso de cada brasileiro vivo. Para construir Brasília, o presidente imprimiu dinheiro sem fundo, pediu empréstimos aos americanos (e obteve), estourou várias previsões orçamentárias e transformou, no país, o que era pobreza com dignidade em miséria sólida e galopante. Em abril de 1956, quando JK encaminhou ao Congresso o projeto de lei para a construção da nova capital, um quilo de "carne fresca" em João Pessoa (PB) custava dois cruzeiros. Em abril de 1960, quando Brasília foi inaugurada a toque de caixa, a mesma "carne fresca" estava por Cr$ 300. Uma coisa de doido!

Hoje, plenamente construída e cada vez mais problemática, Brasília, ou o "custo Brasília", representa uma fábula incalculável de dinheiro sacada impunemente das demais unidades da Federação, muitas delas, em que pese a produtividade, vivendo a pão e água para manter em posição de privilégio a "mãe de todos os escândalos".

Com efeito, ao contrário de São Paulo, responsável pela força do PIB nacional, Brasília, produzindo basicamente discurso e muito papel, tem hoje a maior renda per capita do País, alguma coisa em torno de R$ 16,300 (contra R$ 11,353 de SP). Quando lá estive há mais de dez anos, seus funcionários podiam ser considerados verdadeiros príncipes em relação aos demais habitantes do País: além dos proventos, tinham direito a auxílio moradia, transporte, saúde, educação, segurança etc., sendo que alguns, mais categorizados, viviam um ano de 15 meses, pois usufruíam inquestionável direito ao 15º salário. Sem falar, é claro, em passagens aéreas, banquetes, mordomias & conexões (tipo, por exemplo, férias dos quatorze amigos dos filhos de Lula no Palácio da Alvorada).

À época, o permanente foco das atenções não era propriamente o manuseio da papelada burocrática - inútil, infindável e fatigante -, mas saber-se qual ministro "pisou na bola", quem iria entrar no seu lugar, qual o estilo do novo chefe de gabinete, se o futuro ministro era ou não sensível à isonomia salarial, às aposentadorias precoces, em suma, às reivindicações sempre "pertinentes" dos membros da vigorosa máquina burocrática. Ou seja: Brasília, em que pese ser a presumível capital do Brasil, configurava o espaço da nomenclatura voltada para si própria, alheia às agruras enfrentadas pela população nacional, em última análise, a responsável pela pródiga mordomia em que se refestela.

Outro problema era a vida física de Brasília e o seu entorno.

Considerada obra arquitetônica e urbanística singular, a chamada Esplanada dos Ministérios tinha os seus prédios envidraçados, o que, devido à excessiva claridade solar, obrigava o serviço de manutenção a fechar cortinas e acender as luzes em pleno meio dia - um desperdício irracional de energia. E no plano doméstico, embora traçada pelo arquiteto socialista Oscar Niemeyer, os quartos de empregados dos apartamentos do DF em nada diferiam de celas ou cubículos.

No papel, idealizada para chegar à virada do milênio com população estimada em 500 mil habitantes, Brasília vê-se sufocada por doze carentes (e violentas) cidades-satélites (Ceilândia, Taguatinga, Gama etc.) que somam mais de dois milhões de pessoas - quem sabe a esta hora sendo instigadas por algum Stédile da vida para repetir no planalto a definitiva marcha que Mussolini empreendeu sobre Roma.

Em ensaio que unia o sensível ao inteligível, a ucraniana Clarice Lispector dizia que a estranha cidade era um "universo tenso de expectativas". De fato, Brasília, para quem nela vive, exige atenção redobrada, o que a torna estressante e, dentro da rotina a que está atrelada, de ampla imprevisibilidade - o que explica o seu compreensível apego ao alcoolismo, adultério e esoterismo, "atitudes comportamentais", de resto, já sobejamente assinaladas.

Para muitos observadores, o problema básico de Brasília é de ordem moral. Seus hábitos, costumes, tradições, usos e atitudes, vistos com isenção, contrariam as disposições gerais que ordenam o resto da nação. Por isso, a consciência nacional a tem - na melhor das hipóteses - na conta de "Ilha da Fantasia", onde tudo se resolve, o mais das vezes, por força do conluio de "lobbies" e dos interesses corporativos (vide PPPs - Putarias Públicas e Privadas, apud Osíris Filho), inesgotáveis, que reafirma, por sua vez, o poder do círculo fechado da sólida nomenclatura. No cotidiano, o sujeito pode ser deputado, senador, ministro ou burocrata e se comportar naturalmente na unidade federativa que representa. Mas, uma vez em Brasília, torna-se "de Brasília", isto é, um ser tocado pela Conveniência do Poder. E aí, salve-se quem puder!

De minha parte, acho que só uma perversão de tal natureza pode explicar o fato do sujeito considerar tolerável a completa inversão dos poderes que faz o Executivo legislar por força de medidas provisórias e o Legislativo permitir e apoiar - dizendo-se antagônico - os sucessivos aumentos dos impostos e tributos, a despeito de entender que eles são um ônus criminoso e insuportável para aqueles aos quais devia - por força da representação política - defender.

Que Deus se apiede de nós.

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