20/03/2026  07h46
· Guia 2026     · O Guaruçá     · Cartões-postais     · Webmail     · Ubatuba            · · ·
O Guaruçá - Informação e Cultura
O GUARUÇÁ Índice d'O Guaruçá Colunistas SEÇÕES SERVIÇOS Biorritmo Busca n'O Guaruçá Expediente Home d'O Guaruçá
Acesso ao Sistema
Login
Senha

« Cadastro Gratuito »
SEÇÃO
Crônicas
14/01/2005 - 19h19
O retorno
Helena Sut - Agência Carta Maior
 

Um mergulho no lago. O filme inicia com um grupo de adolescentes no alto de uma torre desafiando os limites da transição com saltos arriscados. Um rito de passagem para a adolescência. O menor, Ivan, com aproximadamente doze anos, rende-se ao medo e é resgatado pela mãe que lhe assegura proteção e carinho com um pacto ainda cicatrizado na ligação umbilical. Sente medo de altura, sente medo de ser chamado de covarde pelos demais, sente medo de romper o liame com a infância...

O dia seguinte de Ivan é marcado pela exclusão desonrosa do grupo, inclusive pela ofensa do irmão Andrei, e pelo retorno do pai depois de uma vida de ausência. A crueldade do ritual de passagem traduzida na rejeição dos adolescentes e a crueldade do pai indiferente compreendida em uma volta sem legendas, marcada por diálogos reticentes, ansiedade e desconforto são os primeiros alicerces do roteiro.

Os personagens reúnem-se ao redor da mesa de jantar e o pai completamente desconhecido assume, de forma autoritária e surpreendente, sua posição na família. Exige que os filhos tomem vinho e avisa que viajará com eles para uma pescaria no próximo dia. A mãe, não identificada por nome, é uma mulher de feições dramáticas e frases curtas, encerra sua participação com um trágico e enigmático perfil em contraste com a escuridão. Os sentimentos estão represados na cena, um silêncio preenche o argumento e enseja o retorno da narrativa para reencontrar a personagem com alguma resposta.

Ivan e Andrei estão inquietos. O diálogo insone marca o desejo de aprofundar a relação com o pai na idealizada viagem e o medo do homem identificado por uma foto antiga, emoldurada em doze anos de ausência, silêncio e na face amarga.

A viagem é tensa. Os perfis dos personagens são delineados com clareza. O pai, também sem nome, realça seus mistérios com novas interrogações. O filho mais velho tenta aproximar-se do pai sem questionamentos, como se a presença pudesse remendar o tempo perdido. Ivan é a face da ausência cicatrizada e da dor da transição. A perda definitiva da infância com as percepções presentes e os primeiros ventos da rebeldia juvenil são os remos apropriados para uma maturidade ilhada nos contextos reais.

O cenário é quase protagonista e expressa os conflitos com uma narrativa mais constante entrecortada por silêncios, telefonemas enigmáticos, raivas, jogos de poder, palavras soltas, agressões e tentativas de reencontro. Os três personagens partem de uma pequena aldeia no norte da Rússia, passam por uma cidade marcada pela violência externa gerada pelas vicissitudes do mundo contemporâneo e depois são envolvidos por um cenário natural sem influência de civilização. Estão entregues aos próprios demônios e às sombras de suas relações interrompidas num ambiente estranho e isolado.

As grandes emoções dos personagens são envolvidas pelas incontroláveis intempéries naturais: o abandono do caçula na chuva, a fúria dos ventos, a travessia em uma tempestade sob a autoridade de um pai ditador... Grandes metáforas que caminham para o isolamento definitivo em uma ilha virgem com o encontro de um navio naufragado e a manifestação dos conflitos reprimidos na ruptura do tempo desvirginado de sonhos e descobertas infantis.

A platéia aguarda o desvendamento de todas as interrogações. Cada espectador incorpora os fortes sentimentos em sua geografia erma e primitiva e busca redescobrir um caminho de ausências e presenças.

O pai desenterra um objeto desconhecido; os três caminham até uma alta torre no centro da ilha; Ivan observa o pai e o irmão subirem a precária construção enquanto permanece preso ao chão do seu medo; Andrei ganha a perspectiva da unidade da ilha; o caçula mostra ao irmão que se apropriou da faca do pai, os filhos pegam o pequeno barco para pescar com horário marcado no relógio paterno; a pesca mal sucedida faz com que os jovens, num ato de transgressão, descubram um navio naufragado do outro lado da ilha; o pai aguarda os filhos e exacerba sua violência contra Andrei por causa do descumprimento do horário; Ivan rebela-se e ameaça o pai com a faca, larga a arma e foge para a alta torre no centro da ilha...

O espectador tenta apreender todas as metáforas e decifrá-las. A ilha deserta, o vento incessante, a difícil travessia na tempestade, a arma do pai capturada pelo filho rebelde, a torre, o navio naufragado, o relógio...

Contudo, o filme encerra com novas interrogações enraizadas na morte banal do pai diante da superação do medo de altura de Ivan. A alta torre torna-se um refúgio para o caçula e o marco definitivo de sua maturidade. Os filhos unem-se para levar o corpo do pai até o barco, sofrem para transportar o enigmático morto... Os sentimentos novamente são reticentes. A dor e o cansaço marcam a nova travessia para os presentes e ausentes. Não há espaço para luto, talvez não existam motivos... Na chegada ao continente, o barco novamente se desprende e afunda com o corpo do pai num oceano profundo e sem retorno. Os filhos ainda tentam resgatá-lo, mas a natureza é implacável em seus movimentos. Restam retratos e um diário de viagem num caminho a ser explorado pelos jovens órfãos.

"O Retorno" é uma obra prima do cineasta russo Andrei Zvyagintsev. Um filme que grava na alma de cada espectador uma percepção sem retorno, provavelmente com muitos ventos interiores.

Um mergulho no lago. A tênue fronteira entre ficção e realidade é violada. Todos se observam na altura de suas vivências e podem sentir medo diante dos próprios abismos interiores. A dor de um rito de passagem... Por fatalidade, o jovem ator Wladimir Garin que interpretou o irmão mais velho, aparentemente submisso ao autoritarismo do pai fictício, morreu logo após as filmagens ao se arriscar num mergulho lançado da mesma torre que marcou o inicio da trajetória dos irmãos.

A construção penetra nas carnes cicatrizadas de ausências com os riscos de todos os retornos. A vertigem, a insegurança e a superfície ondulada mostram que nada mais será como antes. O retorno é uma transgressão, a impossibilidade de redimir o tempo partido e de reencontrar-se na história.

PUBLICIDADE
ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES SOBRE "CRÔNICAS"Índice das publicações sobre "CRÔNICAS"
31/12/2022 - 07h23 Enfim, `Arteado´!
30/12/2022 - 05h37 É pracabá
29/12/2022 - 06h33 Onde nascem os meus monstros
28/12/2022 - 06h39 Um Natal adulto
27/12/2022 - 07h36 Holy Night
26/12/2022 - 07h44 A vitória da Argentina
· FALE CONOSCO · ANUNCIE AQUI · TERMOS DE USO ·
Copyright © 1998-2026, UbaWeb. Direitos Reservados.