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Terá alguém autoridade para apontar, ou julgar, os pecados de outrem? Difícil responder. Questão delicada essa. Numa passagem muito conhecida da vida de Jesus Cristo, segundo os Testamentos, Ele pede que atirasse a primeira pedra, numa certa pecadora, aquele que nunca cometera algum pecado. Ninguém ousou atirar a primeira pedra. Ninguém. A pecadora era Maria Madalena, uma prostituta. Jesus amava Madalena. Jesus amava os pobres pecadores, os fracos, os desvalidos; vivia rodeado por pensadores, poetas, artistas e pelos hoje chamados "excluídos": loucos, mendigos, doentes, desamparados. Um dos raros episódios da minha infância que ainda me recordo é o da minha primeira confissão. Devia ter uns nove ou dez anos, não lembro ao certo, e, de repente, estava em meio a algo que me era absolutamente alheio e estranho, completamente envolvido pelos rituais inerentes e necessários (?) à minha primeira comunhão. Comunhão com Cristo, comunhão com os homens. Eucaristia. Celebração. Pão e vinho. Corpo e sangue. Sacramento. Bem, à época ainda não sabia exatamente o que era o pecado. Tinha uma leve noção, decerto. Noção esta que me fora passada pelos meus pais, é claro. Mais precisamente pela minha mãe. Mas, confesso, não sabia ao certo o que dizer, o que confessar ao padre. Lembro-me de sentir um pouco de solidão e medo. Medo daquele sombrio cubículo de madeira chamado confessionário. Medo da voz grave e severa do padre, das suas palavras quase que sussurradas, o hálito quente e pestilento de autoridade. Que pecados poderia ter uma criança!? "Três pai-nosso e três ave-maria" - disse-me a voz sombria, grave e severa do padre, no que me pareceu uma condenação, uma condição para purificar-me dos pecados cometidos. Algo como um castigo, como ficar com o rosto virado para a parede ou de joelho sobre o milho. A minha primeira comunhão com Deus. Os meus pecados de criança. Mas que pecado pode ter uma criança? - reitero a pergunta. Hoje, prescindo das prescrições e do juízo de qualquer padre, sigo rezando pai-nossos e ave-marias, sigo fazendo o sinal da cruz e me elevando numa perfeita comunhão com a transcendência. Mas jamais voltei a confessar, a ninguém, os meus pecados. Nunca mais pus os pés, ou melhor, os joelhos num confessionário. Quais serão hoje os meus pecados? Quais serão as minhas virtudes? De quê devo arrepender-me tal qual Madalena? Quais serão os pecados da Igreja? Quais as suas virtudes? Quem poderá apontar os seus pecados? Ou os nossos. Quem são, e quantos são, os que ousam conspurcar a santidade do que deveria ser a santa casa do Senhor? Quem mostrará, com autoridade, os bons caminhos aos cordeiros de Deus? Quem poderá lhes conceder o perdão? Estará ela, a Igreja, a exemplo de Jesus, ao lado dos pobres e dos necessitados? Quais os pecados da Igreja, afinal? A perseguição, o aculturamento e extermínio de índios indefesos? As fogueiras da inquisição? A condescendência cúmplice com o nazismo, com o holocausto? A condenação ao divórcio? O acobertamento dos crimes e dos desvios sexuais, e de comportamento, de seus sacerdotes? Quem ousará transgredir os dogmas e mandamentos da Igreja? Quem ousará transgredir a "verdade"? Eu acuso. Eu, Lula Miranda, homem de certa religiosidade, servo e devoto do Senhor do Bonfim, remanescente bastardo de uma linhagem de sacerdotes, sobrinho do cônego Diamantino (falecido tragicamente num naufrágio, na década de 1950, na barra de Itacaré/Ilhéus). Eu, admirador declarado de muitos dos ritos católicos (mas não de seus dogmas), protegido pela minha fé, protegido por crucifixos, mentiras (sim, algumas) e escapulários. Eu, que sou amigo de muitos padres e de outros homens de fé. Eu, que, paradoxalmente (e talvez nem tanto) sou um hedonista, portanto, um pecador confesso. Eu, que ajoelho em adoração e reverência à santidade do homem que havia em Cristo, não calarei diante de velhos e novos pecados da Igreja. Como aceitar e se calar diante de tão pavorosos pecados!? Não em nome Dele! Não em nome de Deus. Até quando seremos tolerantes com os desmandos de alguns empedernidos conservadores que se supõem os zelosos capatazes da casa do Senhor? Até quando baixaremos a cabeça aos verdugos travestidos de homens santos enquanto os verdadeiros homens de fé são expulsos da "Santa" Igreja, ou excomungados? O quê de santo ainda há na Igreja? Quais e quantos são os seus pecados? Quais e quantos são os seus verdadeiros homens de fé? Qual o último pecado da Igreja? A que pecado desejo me referir e denunciar agora, finalmente? Eu, pecador confesso, acuso a Igreja de crime contra a humanidade. Falo, esclareça-se, sobre essa última estultice (crime, parvoíce - nem sei como qualificar) de alguns cardeais e arcebispos (alguns com credenciais para o papado) de condenar o uso de preservativo nas relações sexuais e, mais que isso, de pregarem aos quatro ventos que o uso da camisinha não previne do contágio pelo vírus da Aids - inclusive com argumentos "científicos". Já se sabe que alguns padres estão incluindo em suas missas essa ladainha funesta e irresponsável. Fato este que gerou a necessidade de uma nova campanha do Ministério da Saúde e ONG’s, com um novo enfoque, esclarecendo e reiterando ser, sim, o uso de preservativos fundamental no combate ao contágio e proliferação do HIV. Sem dúvida, um retrocesso, pois se volta a falar de coisas que já estavam mais ou menos sedimentadas, conquistas já estabelecidas. O "dogma" da camisinha. A Igreja deveria preocupar-se em acompanhar o avanço da moral e dos costumes do seu "rebanho", evoluir junto com a sociedade à qual está integrada (ou pelo menos deveria estar). Deveria desvencilhar-se de sua histórica e secular hipocrisia e educar seus fiéis a fazerem amor com segurança. E não apenas buscar o oportuno atalho na linha equivocada da "missa espetáculo". Como o faz através do Padre Marcelo, Padre Zé Maria e tantos outros. Senão a Igreja Católica verá seus templos cada dia mais vazios e, condenada pelos seus próprios pecados, cederá cada vez mais espaço ao arrivismo e utilitarismo de certas "igrejas" que se multiplicam e espalham-se como praga por aí.
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