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Os jornais especializados na cobertura de macroeconomia e negócios foram os primeiros a cobrir de forma sistemática o desenvolvimento econômico e seus impactos sociais e ambientais, com editorias inteiras e planejamento de pautas em longos períodos, pouco depois da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Antes, cadernos periódicos dedicados ao meio ambiente apenas aproveitaram o interesse da realização desse evento enorme e reforçaram a tendência à cobertura desde uma perspectiva que mirava no exótico e não percebia que a estrutura do fenômeno do novo desenvolvimento que surgia. Chegavam à praça mais como forma de angariar anunciantes novos que tentavam tirar algum proveito de terem a imagem associada ao até hoje meio incerto "desenvolvimento sustentável" do que como resultado de uma visão estratégica das empresas de comunicação. Resultado: os cadernos "ecológicos" de todos os grandes diários morreram de inanição editorial e ideológica, passados dois ou três anos da Conferência. O mesmo aconteceu com programas de rádio e tevê. A exceção, ainda atual, é o Globo Ecologia, mas que volta e meia recorre à estratégia de uma certa cobertura da aventura ecológica para sobreviver. Mas, foi no noticiário dos melhores jornais de economia do mundo que o debate sério sobre os rumos do desenvolvimento ganhou fôlego. Em 1995, a agência de notícias Reuters e a Fundação do mesmo nome colocaram em Oxford (Inglaterra) jornalistas de diversas partes do mundo para pesquisar durante 15 dias o conteúdo ambiental das diversas mídias jornalísticas, dando especial atenção ao debate que àquela altura pegava fogo: as mudanças do clima no planeta e o Protocolo de Quioto ambos sob intenso bombardeio das empresas petrolíferas (chamadas de Clube do Carbono), grandes anunciantes, que garantiam que o fenômeno simplesmente não existia. Conclusão do estudo da Reuters: disparado, quem melhor cobria o debate ambiental era o Financial Times, o jornalão econômico em quem todos os demais de seu gênero buscavam inspiração. O FT ouvia fontes diferentes, sérias, ambientalistas, cientistas e economistas de todas as tendências. Também a Convenção da Diversidade Biológica recebia do jornal páginas e páginas, em importância crescente. Mesmo que, obviamente, dando enfoque maior à perspectiva econômica de ambos os assuntos, era o FT quem de longe os tratava com maior aprofundamento e interesse do leitor. A própria Reuters criou um pacote de serviços com notícias específicas de meio ambiente, devido ao interesse crescente de seus clientes pelo tema. Aqui no Brasil, a Gazeta Mercantil (a daquele tempo, não a de hoje) confirmava ser uma escola de jornalismo. Antenada com a tendência mundial, a GM, em meados dos anos 1990, decidiu criar a editoria de meio ambiente e, para cuidar dele recontratou Regina Scharf, que anteriormente havia trabalhado na própria GM, na assessoria do Instituto Sócio-Ambiental, na Veja e na Rádio França Internacional. Ali, de volta à GM, Regina começou a explicar aos executivos e administradores do capital como a incorporação de novos valores sociais de proteção ao ambiente necessitavam ser levados em conta no mundo dos negócios, porque eles já haviam sigo assimilados pela legislação brasileira. Cumpri-la e descumpri-la significava movimentar quantias crescentes. E, como o capital pode ter qualquer característica, menos a de ser burro, teve seu interesse despertado por aquela nova área do jornalismo e aprovou a iniciativa da GM. Ainda hoje, os jornalões de interesse geral e seus congêneres eletrônicos cobrem as questões sócio-ambientais de forma tópica, sem entender o problema sob uma perspectiva de estratégia editorial. Talvez devam aprender a lição histórica dos jornais de economia e seguir as tendências sociais. Nota do Editor: Carlos Tautz é jornalista.
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