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Ontem vi uma propaganda do Governo Federal que mostrava um rapaz que saltitava mais do que uma gazela. Ele estava feliz por ter conseguido uma vaga numa universidade. Depois de uma locução bem-feitinha aparece a legenda: Democratização do Ensino Universitário. É o Pro-Uni, Programa Universidade para Todos. Democratizar é o mesmo que popularizar, facilitar o acesso à universidade através do afrouxamento dos pré-requisitos. O mais lógico seria oferecer ensino fundamental e médio de qualidade e deixar que o estudante decida sozinho seu rumo. As universidades não precisam de democratização, elas precisam de elitização. Um dos objetivos da universidade é justamente esse: "garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa" (Aurélio). Universidade é, por definição, o lugar da elite intelectual e científica de um país. Mas no Brasil o Ministério da Educação pretende transformá-lo em centro de reciclagem para fracassados. Com o Pro-Uni o Governo Federal conseguirá três coisas: criar uma legião de desempregados com diploma, pois o mercado não dá conta de absorver os profissionais que se formam todos os anos; minguar a qualidade do corpo discente das universidades, já bastante deteriorado; e empurrar para os cursos de pós-graduação a tarefa ingrata de produzir profissionais qualificados. Num país em que muitas das pessoas mais bem-sucedidas não têm diploma e nem querem ter, o Pro-Uni parece estúpido demais para ser verdade. Ele é um sintoma da ineficiência do Estado para promover a educação neste país. E o Estado é um sintoma da sociedade. O ensino público não detém o monopólio da ruindade. Escolas particulares também têm professores que dizem que a Idade Média foi a Idade das Trevas - e que ignoram que foi a Idade Média que nos trouxe a Universidade tal como ela existe nos sonhos de qualquer pessoa inteligente. Escolas não ensinam a pensar e a pesquisar. Elas dão aos alunos ferramentas que com o tempo ficarão enferrujadas; reproduzem aquilo que ensina a mídia; repetem, em menor escala e com menos eco, a autoridade do jornalismo, que hoje é menor do que a das ciências e das religiões. No Brasil de hoje a única pesquisa necessária para tornar-se inteligente é a pesquisa de opinião. O sistema de educação deste país conhece este fato como ninguém, foi ele que a criou para que as pessoas vejam autoridade onde nunca houve nenhuma. O abismo criado entre ciência e religião - uma criação renascentista - beneficiou aqueles que não são cientistas nem religiosos. Os intelectuais são os grandes vencedores da ruína da ciência e da religião, as duas bases de uma educação decente. Ao mesmo tempo em que se afastam da ciência, desmerecem a fé, são celebrados como salvadores da mesma educação que destroem. Um pouquinho de consciência, autodidatismo, curiosidade e fé resolveriam este problema. Mas como ensinar isso sem tornar-se científico demais, religioso demais ou, pior, intelectual demais?
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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