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SEÇÃO
Crônicas
17/01/2005 - 19h02
A vida na barraca
Moacyr Scliar - Agência Carta Maior
 

Todo mundo fala no sonho da casa própria e, de fato, ser proprietário da casa ou do apartamento em que se mora é uma aspiração generalizada. Mas, e aquela provisória moradia chamada barraca? Será que não é um sonho também, ao menos para algumas pessoas?

Ainda existe quem more em barracas: os nômades. É verdade que, num mundo cada vez mais urbanizado e regrado eles constituem-se em exceção. Há anos, visitei, em Israel, um bairro de beduínos, povo que durante séculos percorreu os desertos do Oriente Médio, parando em um ou outro oásis. Este bairro tinha sido construído com a idéia de dar-lhes moradia fixa. Os beduínos aceitaram as casas, mas fizeram dela um uso inesperado. Continuaram morando em suas barracas, montadas no pátio; as casas propriamente ditas serviam de depósito. Um deles tinha colocado terra na banheira da casa, plantando ali uma horta em miniatura, muito fácil de irrigar: era só abrir a torneira. Escusado dizer que, periodicamente, levantavam acampamento e seguiam seus trajetos habituais.

De vez em quando imitamos os beduínos e, ao menos por algum tempo, vamos viver em barraca. É uma coisa típica da adolescência, que nunca será completa sem esta romântica experiência que envolve aventura e autonomia.

E também existe a barraca de praia. Cujo design e finalidade são diferentes. A barraca não chega a ser uma morada provisória; serve para proteger do sol, mas, muito importante, acaba transformando-se num centro de convivência. Ali, reúne-se o casal, os filhos, os netos, parentes, amigos, passantes: quanto mais gente, maior o prestígio do patriarca da barraca, que, neste sentido, é uma espécie de mini-feudo. Toma-se chimarrão, ou caipirinha, ou cerveja; mais importante, porém, conversa-se. E a conversa de praia já é um bom motivo para ir à praia; é a legítima conversinha fiada, descontraída, descomprometida. Pode-se até falar em política - e poucos governos resistiriam aos ataques que sofrem nas barracas de praia, se esses ataques fossem feitos no parlamento - pode-se falar sobre questões existenciais, mas isso será exceção. Mais provável é a fofoca, em geral, inocente, a anedota de sacanagem, nunca muito pesada. Ah, sim, e os olhares. Barracas são abertas, é impossível não olhar para fora. E o desfile que ocorre entre a barraca e o mar enfia muita passarela no bolso.

Há uma pessoa que não participa nesta vida leve e solta: o homem que arma as barracas de praia. Muito cedo já está ali, entregue a seu trabalho, que não é complicado, mas exige certa técnica. E à tardinha, depois que todos os veranistas já foram, tem de retornar para desmontar as barracas. Em que pensa, o homem que monta e desmonta as barracas? Na transitoriedade da vida? Nos ciclos da nossa existência, que se repetem como as ondas que voltam constantemente à praia? No tsunami? Ou será que sonha em tornar-se um beduíno e um dia desaparecer no horizonte, rumo a um oásis desconhecido?

Perguntas ociosas. Mas afinal, não é o verão a estação da ociosidade?

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