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Nunca tive um anel. Não é exagero. A não ser que levemos em conta coisas da infância, como o superanel feito de lã de pulôver ou o poderoso anel de durex enrolado ou, ainda, o precioso anel que vinha de brinde no chiclete vendido na quitandinha da rua de cima! Fora isso, nadinha. E olha que já existia o livro O Senhor dos Anéis, mas eu não o li e ninguém me contou a história sentado à cabeceira da cama. Agora, depois de velho e depois de ter visto a obra transposta para o cinema, adquiri finalmente meu primeiro anel. Não foi assim tão simples. Procurei bastante e isso consumiu um grande número de visitas a feirinhas hippies nas praças das cidades do interior ou das praias espalhadas por aí. Quando gostava do formato, incomodava-me o tamanho, quando tudo ornava o maledeto não entrava no dedo ou ficava com sobra. Achei um ou outro que poderiam ser o meu anel, mas não eram. Incrível como a cada adorno experimentado eu experimentava também uma volta à infância. O anel do Fantasma, com a caveira, o anel dos irmãos no desenho do Shazan e tantos outros que povoaram minha imaginação pueril. Eu me sentia em busca deste anel irremediavelmente perdido na infância. Era difícil encontrar aquele que satisfizesse tantos requisitos de um desejo experimentado em fantasia, mas reprimido na infância. Acho que esse é o fim de todo desejo reprimido: gerar uma eterna insatisfação, uma sensação de nunca ter encontrado aquilo que nos basta! Mas eu encontrei. Nada de especial. Apenas um largo anel de prata ornado, comprado em Ubatuba, de um artesão de feirinha - sem deméritos ao anel e ao artesão! Meu anel. Encontrei-o por um único motivo: ele é mágico e estava destinado a ser meu para me livrar da busca inútil por algo que jamais encontraria se não fosse desta forma: aceitando que não há nem pode haver nada de especial em um anel. Exceto neste que trago em meu dedo!
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