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Em 8 de janeiro pp., ao receber as cartas credenciais do novo embaixador de Cuba ante a Santa Sé, S.S. João Paulo II pronunciou um discurso no qual efetua um reconhecimento em vários aspectos medulares da revolução cubana. O Pontífice sublinha o "empenho das autoridades cubanas" para "manter e desenvolver" as "metas conseguidas com esforço" no plano da "atenção sanitária", da "instrução em seus diversos níveis" e da "cultura em suas diferentes expressões". E acrescenta que, "assegurando estas condições", Cuba põe nada menos que alguns "pilares do edifício da paz", na qual é possível desfrutar da "promoção humana integral", inclusive o "crescimento harmônico do corpo e do espírito" (ítem 2). O elogio não podia ser maior. Não obstante, para os cubanos que sentem em sua própria carne a obra destruidora da revolução comunista em sua Pátria, essa consideração papal resulta difícil, se não impossível, de justificar, ainda considerada sob o aspecto das fórmulas de cortesia diplomáticas. Como de uma árvore má podem nascer frutos bons? (cfr. S. Mateus 7, 18). Saúde, educação e cultura, ao contrário de constituir ganhos, vêm sendo usados desde o começo da revolução como instrumentos de doutrinação comunista e de controle mental, psicológico e inclusive religioso da população. Médicos e professores são treinados para cumprir com esse trabalho de carcereiros de consciências. Tem sido essa, e não outra, a meta da ditadura que desde há 46 anos leva a cabo um implacável embargo interno contra o povo cubano, o contrário de uma meta de paz ou de crescimento harmônico da personalidade. O reconhecimento de João Paulo II estende-se ao que qualifica como "espírito de solidariedade" cubana, que se manifestaria no "envio pessoal e recursos materiais" a outros povos por ocasião de "calamidades naturais, conflitos ou pobreza" (ítem 3). Todavia, lamentavelmente, tem sido este o terreno próprio do internacionalismo comunista, que colocou Cuba no triste papel de exportador de conflitos na América Latina e na África, suscitando guerrilhas que contribuíram para provocar sangrentas calamidades piores que as da natureza e a afundar povos na miséria. Para Cuba, o modelo de anti-missionário internacionalista é o guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, que chegou a afirmar que o "ódio" é o motor capaz de transformar o revolucionário em "uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar". Por isso, a alusão papal ao "espírito de solidariedade" não pode deixar de produzir consternação. Nos parágrafos seguintes, de uma maneira comedida, João Paulo II insinua insipidez ante a ausência de um ambiente de "genuína liberdade religiosa" para os trabalhos da Igreja cubana, um requisito próprio de "toda sociedade pluralista". Não obstante, crendo que é possível superar "divergências" e até "qualquer diferença" entre "os que compartilham a fé e os que não a professam" (ou seja, não apenas, porém principalmente, entre católicos e comunistas), sugere o caminho de um "diálogo construtivo e amplo" (ítens 3, 4 e 5). Na realidade, em quase 50 anos de revolução, entre os que não professam a fé, notoriamente, os dirigentes máximos do Partido Comunista de Cuba (PCC), tem-se visto um empenho cientificamente estudado para dizimar e asfixiar os católicos cubanos, seguindo a satânica consigna de criar apóstatas e não mártires, lançada na Universidade de Havana pelo próprio Fidel Castro. O implícito lamento papal confirma que a situação de asfixia dos católicos não mudou, apesar de haver transcorrido quase 7 anos da histórica viagem do Pontífice a Cuba (21 à 25.01.1998), que tantas esperanças levantou dentro e fora da ilha-cárcere. Nessas condições, não se vê como levar adiante, na atual conjuntura cubana, um diálogo construtivo com os que continuam com sua política anti-religiosa, encarcerando pessoas pelo mero fato de discordar e sem dar o menor sinal de retificação. * * * Sobre o texto oficial em espanhol da alocução papal, publicado na web site da Santa Sé, poderia acrescentar outras interrogações que a um filho da Igreja, sumamente respeitoso do Papado, produzem dor e até desgarram a alma. Preferi, por isso, limitar-me a comentar o indispensável. De qualquer maneira, aos católicos cubanos que se opõem ao comunismo por ser "intrinsecamente perverso", seguindo o magistério tradicional da Igreja, esta alocução papal nos coloca em uma encruzilhada espiritual sem precedentes na história de nossa Pátria. * * * Não é a primeira vez que me vejo na obrigação de consciência de publicar comentários, invariavelmente filiais, sobre as relações diplomáticas de altas figuras da Igreja com o Estado comunista. Comentários efetuados pelo imperativo de consciência de um fiel católico, cubano e preso político durante 22 anos, que teve sua fé vivificada ao ouvir os gritos de jovens mártires católicos que morreram no "paredón" do sinistro cárcere de La Cabaña proclamando: "Viva Cristo Rei!", "Abaixo o comunismo!" Remeto-me aqui a alguns desses textos a respeito de tão doloroso tema. Neles, constata-se uma enigmática continuidade da política de mão estendida das mais altas figuras da Igreja para com o tirano do Caribe, que remonta à época em que monsenhor Agostino Casaroli, então secretário do Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja, chegou a afirmar em visita a Cuba, que os católicos da ilha eram felizes: "Fraudulenta ’política religiosa’ do ditador Castro", 16.11.1996 (dia da chegada do ditador Castro a Roma); "Com o comunismo cubano, um ’diálogo franco’ é impossível, 04.03.1998; "Sim, o regime comunista perseguiu e persegue os cubanos católicos", 09.08.1998 (na véspera da viagem papal a Cuba); "ONU: representante vaticano favorece a ditadura castrista", 26.10.2000; "O pedido de perdão que não houve: a colaboração eclesiástica com o comunismo", 22.03.2000; "Cardeal Sodano e Fidel Castro: o Pastor sai em auxílio do lobo", 11.05.2003; e "O drama cubano e o silêncio vaticano", 25.04.2003, publicados no DIARIO LAS AMÉRICAS, de Miami, nas datas indicadas. Nota do Editor: Armando F. Valladares, ex-preso político cubano durante 22 anos, foi embaixador dos Estados Unidos ante a Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra (administrações Reagan e Bush). Esta matéria foi publicada por Diario Las Américas, Miami, sábado 15 de janeiro de 2005. Tradução: Graça Salgueiro.
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