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De acordo com o que li nos últimos dias, estatisticamente, uma em cada quatro pessoas no mundo passou ou passará por ao menos um episódio de depressão na vida. A maioria delas não procurará ajuda de um médico psiquiatra, ou por desconhecimento ou simplesmente por preconceito. Sabe como é, pra não ser rotulado de "doido". Como percebi desde a minha infância, eu nunca fui sorteado em nada. Nunca, sequer, achei um palitinho premiado da antiga Maguary-Kibom, que dava direito a um outro picolé grátis. Gastava todo o dinheirinho mirrado que conseguia arrancar dos velhos na esperança de encontrar o valioso palitinho e nada. Só os meus colegas achavam. Álbuns de figurinhas eram outro problema. Nunca consegui completar um. Tinha um na época com personagens de Hannah-Barbera: a Lula-Lelé, Maguila o Gorila, a turma do Zé Colméia, a Tartaruga Touché, o cão Rabujento e os personagens da Corrida Maluca e da Esquadrilha Abutre dentre outros. Cada envelope vinha com três figurinhas. Eu comprava dez envelopes: vinte figurinhas eram repetidas do Dick Vigarista, cinco do Maguila e as cinco restantes eu colava no álbum. Acabava a promoção e meu álbum nem chegava na metade enquanto meus coleguinhas já estavam completando o segundo ou terceiro. Na escola, durante meu ensino fundamental, costumava-se eleger um Rei e Rainha do Milho, na época dos festejos juninos. O Rei do ano era sempre aquele que vendia o maior número de rifas. Aí sim, eu era eleito todos os anos. Claro que minha mãe comprava todas as rifas. Perdi também todos os piões e bolinhas de gude que apostei com a molecada da rua e sempre voltava pra casa chorando; e um olho roxo era comum sempre que jogávamos uma "peladinha" na rua. Mas no dia seguinte lá estava eu novamente. Persistente. Até perder as novas bolinhas ou ficar com o outro olho inchado. Resumindo: meu pão sempre caía com o lado da manteiga virado para baixo. Enfim deixemos as regressões de lado. Mas a vida muda sim. Um dia tem que dar uma guinada. A gente tem que ser sorteado em alguma coisa. E minha vez chegou. Sou um dos quatro em cada cidadão que resolveu ir a um psiquiatra. Faço parte desse seleto grupo de 25% da população que um dia fica deprimido. Sinto-me até importante. Chego no trabalho e digo com o peito inflado: "Amanhã preciso chegar mais tarde um pouco, pois tenho terapia". Isso é chique hoje em dia. Estou empolgado mesmo com a idéia. O difícil foi só o primeiro dia. Sentei na sala de espera e fiquei imaginado quantos ali pareciam mais loucos do que eu. Será que eu estou balançando muito a perna? Será que eu tenho algum tique nervoso? De repente me noto folheando uma revista detrás pra frente. Mas isso é normal. Só leio minhas revistas semanais detrás pra frente. O tempo passa. De repente a atendente chama meu nome e indica a sala 5. Entro meio desconfiado, cumprimentos de praxe e a médica me pergunta em que pode me ajudar. - Sei lá! - respondo. "isso é uma resposta de doido" - penso. - Bem, hã... quer dizer... por onde devo começar? Ela me esclarece as regras éticas da consulta. - Bem, vou começar pelo fim. Perdi a mulher a quem amo. Nunca a traí é verdade. Mas, em alguns momentos de tristeza, deixei de ser suficientemente carinhoso. Ela não me perdoa. Não tenho dormido bem, emagreci vários quilos e minha vida ficou incompleta. Acho que isso é um bom começo. Aí a conversa se prolonga por cerca de quarenta minutos e eu saio do consultório com duas receitas azuis. Medicamentos controlados. Daqueles de tarja preta. Estou mesmo louco pensei. E ainda com a recomendação de iniciar uma terapia semanal que custará alguns reais a mais. A ironia de tudo isso? Uma mulher. Não uma mulher qualquer. Uma mulher especial, por quem eu daria um braço para ser amputado. Com quem meu coração batia no mesmo compasso. Talvez fosse uma boa alternativa me tornar homossexual. De acordo com eles os homens são menos complicados, se entendem mais facilmente e tem sentimentos em comum. Sei não. Com todo o respeito que tenho pela diversidade sexual, não tenho aptidão pra isso. Ainda prefiro a terapia. Daqui a algum tempo, consigo colar os cacos que restaram do meu coração. Então me apaixono novamente. A próxima paixão vai jogar meu coração na parede e despedaçá-lo outra vez. E lá volto eu à terapia. E isso vira um ciclo sem fim. Vai entender o coração de um homem. Acho que isso é uma coisa meio masoquista. Acho que nem Freud explica. P.S. Essa é uma crônica interativa, do tipo "você decide". Aproveite e envie um e-mail para karlameperdoe@yahoo.com.br , e mande sua opinião para ela. Se ela deve me perdoar e voltar para mim ou se deve mesmo me dar um chute no traseiro. De preferência me dê uma forcinha tá?
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