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Não se trata apenas de discurso vazio que aparece em todos anos de eleição, quando a questão da segurança pública torna-se prioritária e os charlatães de sempre já mercam suas milagrosas receitas em praça pública e palanques. É só a violência atingir um dos filhos da classe média e alguns "desavisados" associam-se ao oportunismo de alguns políticos (talvez fosse mais correto dizer que os políticos é que se associam aos anseios de ocasião) e voltam a proferir aquela mágica sentença que hoje, para muitos, consubstancia-se em verdadeira panacéia, ou solução redentora, para o problema da violência: "tem que pôr a Rota na rua" (a Rota é um batalhão de polícia daqui de São Paulo famoso pela truculência e letalidade, mas, você sabe, cada cidade tem a sua "Rota"). A frase ("tem que pôr a Rota na rua") tem certa musicalidade com sua aliteração em "r" e talvez por isso soe tal qual música aos ouvidos de muitos incautos. Mas possui também desagradável cacofonia. Essa sentença traz em si uma ululante verdade e um imoral e inconfessável desejo. É uma forma sub-reptícia, enviesada e "asséptica" de se implantar a pena de morte. Sim é óbvio, e mais do que necessário, que se coloque a R.O.T.A. na rua. Esse "comando", bem como os demais das diversas polícias, precisa mesmo estar nas ruas. Mas é bom salientar que a polícia que se deseja nas ruas é uma polícia prestigiada, formada por policiais bem remunerados, adequadamente formados e treinados. Realmente é urgente que se faça um policiamento ostensivo e preventivo nas ruas das grandes cidades, pois sabe-se que a simples presença da autoridade policial já coíbe as práticas criminosas. Porém, o que está por trás dessa sentença é o desejo inconfessável, pois bárbaro e selvagem, de se acabar com a violência pura e simplesmente exterminando-se os bandidos. Esse desejo é movido pelo ódio, pelo medo e pela sensação generalizada que se dissemina na sociedade de que a justiça e a lei são omissas, inoperantes e não cumprem seu papel essencial na preservação do Estado de direito. Esse desejo infame também é alimentado pela raiva, pelo sofrimento e pela dor dos que já foram vítimas da violência e da crueldade da chamada "bandidagem". Quem ainda não foi vítima de roubo ou assalto, ou tem um familiar ou conhecido que foi assaltado, vítima de seqüestro-relâmpago, ou mesmo assassinado, numa desnecessária e brutal violência? Conhecidos meus já tiveram sua casa invadida por bandidos, foram mantidos por horas a fio em cárcere privado, espancados, humilhados, banhados em álcool e torturados. Desnecessário relatar o trauma que isso causou a essas pessoas e a situação incrível a que foram levadas ao terem que abandonar o próprio lar e mudar-se, forçosamente, para outra residência em um outro bairro. Vale a pergunta: quantas famílias já não passaram por situações desse tipo e até piores? O que leva um bandido, um ser humano, a essa extrema crueza e violência? O que falar então das crianças e jovens, inocentes de toda culpa, sejam os filhos da classe média ou também os filhos dos pobres, que tiveram suas vidas ceifadas nessa guerra silenciosa? Não pretendo aqui ser condescendente ou apresentar escusas ou justificativas para gestos de extremada violência, como os relatados acima. Só a misericórdia divina seria capaz de perdoar coisas assim. Gestos como esses são a evidência de que nos aproximamos perigosamente da barbárie. Estamos, pois, escapa-me o trocadilho, na rota errada. Estamos construindo uma sociedade para poucos. E parece que desejamos, inconscientemente e ingenuamente, que aqueles que não têm absolutamente nada, nenhuma perspectiva de futuro, vivam resignados, em paz e harmonia, com aqueles que têm pleno acesso à riqueza, os que têm futuro: as classes médias e alta. A realidade das favelas, dos morros do Rio de Janeiro e bairros pobres da periferia das grandes cidades é bem diferente da realidade vivida nos bairros de classe média. Só estando lá para vivenciar, sentir na pele, essa realidade. A situação de miséria, pobreza e abandono em que vivem os moradores da periferia é algo de estarrecer. A situação nas cadeias, presídios e nas Febem da vida é de extrema e gritante desumanidade. O que a sociedade deseja: reintegrar o criminoso, o "reeducando", à sociedade ou exterminá-lo? Dar condições dignas de vida à maioria da população ou a um número cada vez mais reduzido de "felizardos"? São essas as questões que me parecem fundamentais e precisam ser respondidas. Então, não se trata de querer defender os direitos humanos dos bandidos e sim de defender os direitos humanos de todos os cidadãos. Até mesmo porque - verdade seja dita - já se matam e prendem muitos bandidos por aí, e para cada bandido morto ou encarcerado surgem dezenas de novos criminosos "paridos" pela grande ratazana da exclusão e da miséria. Não se deve deixar levar pela paixão, nem se deixar seduzir pelo discurso bêbado de botequim, pelos elixires dos embusteiros. Deve-se tentar analisar essas questões com mais razão e menos paixão. Devemos aprender a enxergar os problemas com maturidade e equilíbrio. Deixemos o discurso fácil e a retórica sedutora e estéril para os maus políticos em vésperas de eleição. O diagnóstico de curandeiros e charlatães não deve interessar aos cônscios cidadãos, àqueles que têm discernimento e se preocupam com os rumos das comunidades e da sociedade em que vivem. A progressiva destruição do aparelho do Estado diligentemente implementada pelos últimos governos é a causa primeira de todo esse descalabro na segurança pública. É a ausência de políticas públicas que relega ao olvido o morador da periferia e é também responsável pelo menor infrator de hoje e pelo bandido de amanhã - se houver, para estes, um amanhã. É essa quase completa destruição do Estado a responsável pelas epidemias de dengue, pela educação precária ou inexistente, pela favela, pelo racionamento de água ou de energia, pelo desaparelhamento da polícia e da justiça (ufa!). E isso não é tatibitate de "esquerdista" ou desculpa esfarrapada, é a pura realidade. Não enxergam os que não desejam ver. E, se não abrirmos bem os olhos, e rapidamente, o ventre da besta continuará a parir seus monstros cada vez mais raivosos. Senão, em breve, nós, os chamados "cidadãos de bem", estaremos encarcerados em presídios ou solitárias, e o espaço público pertencerá aos criminosos num faroeste infernal, numa terra sem lei. Em breve? E não há solução barata possível. A solução passa necessariamente pela educação e conscientização dos indivíduos e pela organização política da sociedade. Numa democracia, a solução passa pelo voto, ou seja, pelos partidos políticos. A solução está em guindar ao poder local os políticos que têm compromisso com o fortalecimento do Estado e com uma distribuição da renda mais justa, os políticos que não estão comprometidos com o estado de coisas que aí está. É uma questão de inverter as prioridades. Enquanto o povo se distrai voltando seu olhar para o Big Brother Brasil ou para a Casa dos Artistas, perdendo tempo imiscuindo-se na privacidade indigente de certos "artistas" e "celebridades", a elite segue distribuindo caridosamente seus farelos aos porcos. O cidadão comum, o trabalhador, deve apressar-se em voltar o olhar para a realidade que o cerca e reconquistar o poder local de modo democrático, pois os criminosos já instituíram uma espécie de poder paralelo. O crime já se espalha, como um câncer, em todo o tecido social. É preciso reagir. Mas a rota que necessitamos é uma outra, não exatamente as Rondas Ostensivas Tobias Aguiar. Não podemos mais errar o caminho. O resto é demagogia, discurso passional ou conversa para boi dormir.
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