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Crônicas
21/01/2005 - 11h13
Jeremias, agente imobiliário
Chico Guil - Agência Carta Maior
 

Esse pessoal feito em série, que atende nos escritórios em geral e nas imobiliárias em particular, levam-me ao pânico. Ponham-me frente a um urso furioso, um antropófago faminto, ou mesmo diante de um trem-bala sem freios, e meu esqueleto encontrará meios de salvar-se. Mas diante dos olhares nublados desses clones humanos que alugam ou vendem apartamentos, fico sem chão.

Exceções ocorrem, felizmente, nos lugares mais inesperados, e descubro que mesmo nesses criadouros de cobras que cuidam dos condomínios da cidade existe calor humano, sinceridade e motivos para soltar umas boas gargalhadas.

Se duvidam - todos já tiveram de enfrentar os "sinto muito, senhor; infelizmente não posso fazer nada, senhor" dos funcionários das imobiliárias - ouçam a história do Jeremias, que conheci nesta semana. Ele faz parte da equipe de vendas do edifício Black and White Street, ou coisa parecida, no bairro Champagnat, em Curitiba, essa fabulosa capital européia e americana, uma cidade tão chique que não consegue batizar com nomes brasileiros seus edifícios. Se você não sabe, em Curitiba não existe viagem, apenas tour. Acabaram com os cafés da tarde. Agora, só have coffe break, all right?

A mesa de Jeremias possui uma miscelânea de objetos estranhos, como pequenos dinossauros de porcelana, um convite de casamento engordurado, fotografias dos filhos, fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, cinzeiros e xícaras de café pela metade, chaleira fumegante na cadeira ao lado e uma cuia de chimarrão.

- Então o senhor quer comprar um apartamento - disparou o agente imobiliário, antes que eu terminasse de dizer bom dia. - É aqui mesmo. Por favor, sente-se, que o senhor vai acabar caindo de costas quando eu mostrar o plano de pagamento. 50% de entrada e dois mil por mês, sem falar do condomínio, que vai ser uma paulada. Ninguém merece!

Só pode ser piada do velho, pensei. Ou percebeu que não posso pagar, portanto, não há por que fazer propaganda.

Mas ele já estava escrevendo os números num espaço em branco do folder que apresentava o prédio como o sonho de consumo da família curitibana.

- Mas como o senhor pode ver - continuou, entregando-me o belíssimo impresso envernizado - é um excelente apartamento. Pelo menos, é o que a gente vê aqui no folder. Brincadeira né, os caras põem essa paisagem de mar na capa, como se isso tivesse alguma coisa a ver com o ap. Olhe aqui, são três quartos, garagem dupla, o senhor tem filhos? Venha comigo, vou lhe mostrar o que nós temos pra eles. Está vendo isto daqui? Não parece uma sala de jogos? Pois não é, é uma biblioteca. Veja as estantes. A sala de jogos é no primeiro andar. Ahn, sala de jogos, por favor, uma mesa de pimbolim e três mesas pra baralho. Nem mesa de sinuca eles botaram. E ali vai ter um parquinho, do lado do estacionamento. Um horror, você imagine quantas vezes a bola vai vazar por cima daquela cerquinha e a criançada pulando pra dentro do estacionamento e o motorista não vê, o que não pode acontecer... Agora, esse negócio de biblioteca, eu pago pra ver. Pra começar, junto com o estacionamento, quem vai conseguir ficar aqui com aquele cheiro de escapamento? Querem inovar, e tal, mas você vai me dizer se estou enganado, vão comprar aquelas enciclopédias de ponta de estoque pra encher as prateleiras, não sei se o senhor ta me entendendo. Venha, vamos subir. Essa escadaria vai ser um perigo pra criançada se eles não botarem um emborrachado no chão, mas acho que não vão botar é nada, do jeito que tão economizando em tudo. Mas prefiro evitar subir pelo elevador, que faz um barulho infernal, até parece que não botaram graxa nos cabos. Bom, nós temos aqui no primeiro andar um apartamento mobiliado pro senhor ter uma idéia de como vai ficar depois de pronto. O senhor veja que o espaço é bem grande, veja esta sala. Ta certo que o arquiteto pisou no tomate fazendo esses negócios se projetando da parede, isso devia ser opção do proprietário, mas enfim, eu não entendo nada dessas coisas modernas. Aqui nós temos a cozinha, com divisórias em fibra de carbono, armários embutidos e tal. É excelente, só o espaço do fogão eu não digo nada, porque se o proprietário quiser um fogão de seis bocas já não cabe, mas enfim, cozinha moderna, sabe como é, tudo muito justinho, como o pessoal gosta. E aqui temos o aquecedor central. Uma maravilha! - Olhou para o aquecedor, um verdadeiro trambolho junto à janela, atrapalhando a vista, no minúsculo espaço da lavanderia, depois olhou para mim e fez um gesto de cabeça, a boca com um meio sorriso, um misto de desânimo e sarcasmo, tsc, tsc. - Vamos, vamos ver os quartos. Bom, aqui é a suíte, grande, não? Eu, pra falar a verdade, nunca ia querer morar numa suíte, fica aquele negócio de banheiro junto com o quarto, se não é cheiro de água sanitária é outra coisa. Mas gosto é gosto. Vamos ver os outros quartos. Aqui é o corredor, como você pode ver, é bem amplo... veja esse banheiro. Não podiam pelo menos colocar um box pro chuveiro, uma pia maior, um vaso com uma cor menos indecente, que pelo menos combinasse com a cor da parede? Agora veja esses quartos. É muita falta de imaginação.

Encostado à porta de um dos quartos, Seu Jeremias balançava a cabeça, desanimado.

- Dá pra botar duas camas nesse aqui? - perguntei.

- Não te garanto. Você vai ter que ver com o arquiteto se tem um jeito de ampliar, tira um pouco da sala, um pouco da suíte. Mas aí a despesa vai lá em cima. Você viu, né, um prédio novo, tão caro, com esses quartinhos! Mas se o senhor quiser eu posso ver um outro apartamento, mais no centro, ta certo que é usado, mas pelo que o proprietário me disse fica na face norte, bem ensolarado, acabou de colocar uns armários embutidos, pelo jeito ta um brinco. Pegue o meu telefone. Pode me ligar a qualquer hora pra gente ir fazer uma visita, porque este prédio aqui não ta vendendo nada mesmo, podemos ir à hora que o senhor quiser. Vou hoje mesmo lá dar uma conferida.

Na mesma tarde, visitei vários prédios novos, que estavam sendo construídos num bairro próximo à minha casa. Os preços absurdos não me assustaram, pois não pretendo mesmo comprar. Só quero sonhar que tenho meu próprio apartamento, e que me livrei das unhas das imobiliárias, cujos negociadores são anjos no momento de fechar o negócio, mas na hora de devolver as chaves têm coração de pedra e mercúrio nas veias.

- Seu Jeremias, aqui é o Chico. Conversamos ontem. O senhor viu pra gente aquele apartamento lá no centro?

- Pois não, seu Chico, fui ainda ontem, mas que decepção, viu. Face norte uma ova, é face leste. E os armários, tudo caindo aos pedaços.

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