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No próximo mês os deputados retomam suas atribuições e para que a Lei de Biossegurança seja colocada em pauta em fevereiro, o trabalho se reinicia agora em janeiro. O trabalhos de todos eu digo, dos favoráveis aos OGMs; dos contrários aos transgênicos, dos contrários às pesquisas com células-tronco aos favoráveis às pesquisas com todas elas, embrionárias e adultas. A polêmica novamente ganha vida. Grupos se acusam de discussões apaixonadas. É apaixonante mesmo, o tema mexe com a vida, a natureza, mexe com ciência e com a morte. Difícil não opinar apaixonadamente, seja de que lado estiver, já que o assunto pouco permite o meio-termo. Estou do lado das pesquisas, de abrir o leque à possibilidade de cura com a terapia celular. Estive em Brasília, conversei com deputados, senadores, ouvi conselhos, críticas, ouvi ministros e assessores. Pensei sobre transgenia, sobre novas terapias, sobre agricultura e medicina. Com raiva ouvi grupos contrários, e com igual paixão chorei com cúmplices e abracei os novos amigos. Comemorei a vitória no Senado, na Comissão de Biossegurança, e sofri com a retirada do texto na pauta de dezembro da Câmara. Dizem que o projeto de lei de biossegurança não foi votado porque a ministra do meio ambiente ameaçou pedir demissão se o texto tramitasse na casa no último mês. Dizem também que um manifesto com assinaturas de organizações ligadas à Igreja Católica foi entregue ao presidente da Câmara, João Paulo Cunha, o pedido era o mesmo: a retirada da discussão. É de enlouquecer a falta de laicidade que temos no Brasil, é de se admirar a união de CNBB, MST e tantas siglas por uma luta contrária a tudo que acredito, mas igualmente apaixonada. Esta raiva toda que sinto tem um quê de admiração, de identificação, porque opostas com certeza, mas todos estão lutando por uma causa. O que entristece, o que magoa não é tanto a mistura das siglas, mas sim a omissão de tanta gente. Onde estavam as associações de deficientes físicos quando somente um grupo de pessoas visitou gabinetes, procuraram jornalistas e acompanharam audiências públicas? Onde estão agora as associações das mais diversas doenças? Cadê a voz dos grandes hospitais e centros de saúde? Cadê a coragem de dirigentes que zelam por pacientes e acalentam familiares. Porque ainda estão caladas instituições sem fins lucrativos, organizações não-governamentais das áreas social e da saúde? Cadê vocês de hospitais públicos e privados? Querem ou não o avanço da ciência? Cadê você médico residente, cadê o médico experiente também? Cadê você familiar, se quiser chorar, se quiser lutar, se puder, faça-o pela pesquisa, faça-o no centro democrático de seu município, na Câmara de vereadores, na assembléia legislativa de seu estado, no Congresso Nacional. Cadê o povo de Brasília que não esteve conosco na Câmara? Se quiser chorar faça-o, mas faça-o junto a um deputado, porque depois não vai adiantar. As pesquisas demoram, as doenças não. Pelo fim da omissão nós os convocamos para que cada um comece este 2005 com coragem, com atitude, para que todos que se beneficiarão com as novas pesquisas não passem outro carnaval sem a fantasia de que um dia ninguém terá medo do novo. Tampouco terá medo de expor sua opinião, seu rosto, seu nome, doença, titularidade e, sobretudo sua instituição. Nota do Editor: Andréa Bezerra de Albuquerque é presidente da Associação Movimento em Prol da Vida.
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