|
Semana passada, os jornais e a imprensa toda deram ampla divulgação ao alpinista brasileiro morto ao tentar escalar o Aconcágua. Ora, o Aconcágua fica nos Andes. A palavra alpinista refere-se a quem escala os Alpes. Desde há muito, na América Latina, está cunhada a palavra andinista, para os montanhistas que escalam os Andes. Passe no Google. A palavra andinismo registra, hoje, 46.300 ocorrências. As associações de andinismo proliferam pelo continente todo. A palavra não consta dos dicionários de português? Problema dos dicionaristas, que continuam com os olhos voltados para a Europa. Ela existe e nossos bravos jornalistas insistem em ignorá-la. Se ao menos nosso brasileiro tivesse se iniciado nos Alpes, vá lá. Mas não foi o caso. Pelo que nos contam os jornais, sua primeira aposta decisiva foi nos Andes. Portanto, andinista. Enquanto isso, jornalista algum se peja em assumir um solecismo como descatracalização, neologismo criado a partir de charges da Folha de São Paulo, imposto como tema de redação aos vestibulandos de uma universidade em busca de mídia. O recurso teve bom efeito e a universidade em questão conseguiu criar polêmica. Segundo os organizadores do vestibular, pretendia-se que os vestibulandos discutissem a descatracalização da vida, da sociedade, que impõe catracas a todo mundo. Esqueceram de aventar a possibilidade de descatracalização da universidade, que impõe o vestibular - a catraca-mór - a quem nela quer ingressar. Descatracalizada a universidade, terminariam essas discussões ridículas em torno às cotas, que só servem para fabricar racismo, para suma felicidade dos saudosos da finada luta de classes. Em algum jornal, leio que a polícia espanhola deteve na cidade de Sabadell, na Catalunha, sete falsos curandeiros e videntes oriundos do Brasil. Ora, qual curandeiro, qual vidente, não é falso? Ou verdadeiro, como quisermos. Se a profissão não está regulamentada, é curandeiro ou vidente quem se diz curandeiro ou vidente. Assim sendo, são tão falsos quanto verdadeiros. É a mesma condição do psicanalista. Não sendo a psicanálise ofício reconhecido por lei, qualquer um de nós, eu ou você, leitor, temos toda a liberdade de colocar uma placa de psicanalista na porta e tratar dessas almas ingênuas que ainda acreditam que psicanálise é ciência. Diga-se de passagem, para onde quer que me vire, vejo pessoas exercendo ilegalmente a medicina, desde bruxas a pajés até quiromantes e cirurgiões espirituais. Em Porto Alegre, egressos desempregados de cursos de Filosofia montaram vigarice mais sofisticada, os filósofos clínicos. Você tem algum problema existencial ou de natureza psíquica? Consulte um filósofo. Mediante razoável pagamento, o novo especialista da alma o aliviará de seus males. Um amigo me conta que na praia do Campeche, em Santa Catarina, existe inclusive um hospital para cirurgias espirituais. Como não vejo manifestação nenhuma da Ordem dos Médicos, suponho que a boa medicina já se rendeu ao avanço dos gigolôs das angústias humanas. Os brasileiros presos na Espanha - diz-nos a notícia - haviam inserido anúncios em jornais de todo o país, nos quais ofereciam seus serviços como curandeiros, com capacidade para resolver todos os problemas sentimentais e pessoais, assim como para curar doenças físicas, depressões e transtornos graves de saúde, em troca de grandes somas de dinheiro. Imagine se a moda pega no Brasil. Até mesmo nossos grandes jornais sofreriam queda no faturamento dos anúncios classificados. Isso sem falar nos horoscopistas. Os proprietários de jornais sabem que horóscopo é superstição. Mas também sabem que horóscopo vende jornal. Se alguém ainda acredita que nossa imprensa é séria, que consulte seus horóscopos e terá uma noção da idéia que os editores fazem da inteligência do leitor. Os supostos charlatães, segundo a imprensa, abusavam da situação de desespero das pessoas que respondiam a esses anúncios, a quem ameaçavam, dizendo que aconteceriam desgraças com elas se não entregassem diferentes quantias de dinheiro em função de sua condição econômica. A polícia espanhola está tratando da expulsão deles do país. Certamente para não fazer concorrência aos charlatães locais, pois curandeiros e videntes é o que não falta na Espanha. Não bastasse os jornais chamarem andinistas de alpinistas e criarem o exótico conceito de falsos curandeiros, o presidente da República, com a folclórica autoridade que lhe é inerente, confere o título de intelectual a virtuoses do rap e do rock. Segundo o Supremo Apedeuta da Nação, na época em que pessoas graduadas governavam o país, "dificilmente você teria um ato e seriam lembrados aqui, por exemplo, os Titãs e o Mano Brown. Teriam citado outras personalidades do mundo intelectual, e nunca dois (sic!) intelectuais bem próximos da periferia brasileira". Após esta promoção, preparem-se os vestibulandos para enfrentar, nos exames de literatura, citações das obras-primas destes novos intelectuais. O que não é de espantar. Se Gilberto Gil e Caetano Veloso, segundo os organizadores de vestibulares, já fazem parte da literatura brasileira, por que não descer mais alguns degraus escada abaixo? O Supremo Apedeuta ousou ainda mais. Olhou-se no espelho, achou-se belo e recomendou sua imagem, afirmando que o estudo e a especialização podem atrapalhar o desempenho do homem público. O que é muito coerente com a recente decisão do Instituto Rio Branco, que prepara os candidatos ao Itamaraty, de considerar o inglês como matéria não-eliminatória em seus concursos. Só no governo de um monoglota atroz pode-se conceber que uma escola de diplomatas dispense seus alunos do conhecimento da única língua franca de que hoje dispomos. O nível das universidades, que já era deplorável, baixou ainda mais com a instituição das cotas. Hoje, dependendo da cor da pele, até um analfabeto pode fazer curso universitário. Nos vestibulares, exige-se o inglês. Na escola diplomática, onde o inglês é o instrumento básico de trabalho, passa a ser dispensado. Se a universidade reserva cotas para negros, o Itamaraty inovou, reservando cotas para monoglotas. Se o presidente não fala inglês, por que seus representantes falariam? Nivele-se tudo por baixo e abra-se concurso para intérpretes. Dada a vocação de terceiromundismo do Itamaraty, não é de duvidar que em breve se exija o suahili ou o wolof para nele ingressar. Quanto às relações com o Primeiro Mundo, os diplomatas podem muito bem seguir a simplicidade do presidente, levando intérpretes a tiracolo. Nota do Editor: Janer Cristaldo é escritor e jornalista.
|