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Nascida e educada como uma islâmica, cresci em Gaza e Cairo na época em que Gamal Abdel Nasser comprometeu o Egito com a unificação do mundo árabe para destruir Israel. O Egito mobilizou os árabes de Gaza e encorajou o "fedayeen" a fazer ataques de fronteira em Israel. Meu pai, um alto oficial do escalão egípcio, foi morto num desses ataques. Após a morte de meu pai, por algumas semanas as atenções foram pródigas com minha família. Entretanto, viúvas de "shahids" como meu pobre pai, foram deixadas distantes numa cultura que só respeita famílias lideradas por homens. Em Gaza, a escola elementar ensinava o ódio, a vingança e retaliação aos judeus. Paz com Israel jamais era mencionada como opção. Ensinou-me para não aceitar doces de estranhos, porque podiam ser judeus tentando envenenar-me. Vivi no mundo árabe até completar trinta anos enfrentando três grandes guerras e a sempre crescente influencia do fundamentalismo islâmico. A liberdade de expressão fora suprimida. Os cidadãos desenvolveram um certo grau de conforto em serem controlados por ditadores. Suas estátuas e fotografias estavam nas mãos de todos e canções os enalteciam em cada estação de rádio. Testemunhei a opressão da mulher, a mutilação genital feminina, a poligamia, e tudo isto causando devastações na dinâmica familiar. Finalmente sentia-me feliz em deixar tudo para trás e mudar-me para a América do Norte, em 1978. Repentinamente passei a usufruir liberdade de religião e igualdade entre classes e raças. Meu primeiro trabalho me foi dado por um empresário judeu. Testemunhei judeus, cristãos e muçulmanos praticando suas religiões pacificamente. Entre meus amigos judeus e cristãos eu ouvia palavras de amor, compaixão, perdão e "shalon". Sinceramente eles se perguntavam o que poderiam fazer para que houvesse paz entre os árabes. Eu sentia a traição de minha cultura de origem, advogando contra a violência ou conversando sobre paz somente perante os ocidentais. Compreendi que crescera atrás de muros de medos, mentiras da mídia e decepções que nos separavam do resto da humanidade. Mas eu não podia verbalizar estes pensamentos. Quando visitei o Egito em 2001, a situação estava cada vez mais difícil por lá. Poluição, materiais e lixo perigosos eram encontrados às margens do Nilo. Existia uma extrema pobreza, desemprego, inflação alta, corrupção por todos os lados e má administração. Retornamos aos Estados Unidos em 10/09/2001. Na manhã seguinte o mundo mudou! Percebi, no exato momento em que o segundo avião atingiu as Tôrres Gêmeas, que o Jihad começara na América. Para meu horror, o país que me havia abrigado, protegido e devolvido a minha esperança, sofria um monstruoso ataque de minha própria cultura de origem. Imediatamente telefonei para alguns amigos muçulmanos. Sem exceção, eles se desculpavam pelo ataque terrorista, tirando a responsabilidade do mundo muçulmano e concluindo que tudo não passava de uma conspiração judaica. Eles não eram fundamentalistas radicais, mas muçulmanos moderados, educados e viajados. Comecei então a refletir sobre a sociedade onde eu crescera. Quem não praticava o islamismo fervorosamente ficava na mira dos radicais. Os resultados eram as tempestades domésticas, assassinatos políticos, "fatwas" e terror. Os governos árabes constantemente brigavam para manter a estabilidade interna. E um inimigo não muçulmano é necessário para distrair a atenção popular. Lembro-me quando jovem, visitei um amigo cristão no Cairo, durante as orações da sexta. Do lado de fora da mesquita, ouvíamos os pregadores atacando cristãos e judeus: "Talvez Deus destrua os infiéis e os Judeus, inimigos de Deus!" "Não podemos ser amigos deles ou negociar com eles"! Também ouvíamos os fiéis respondendo: "Amem"! Meu amigo olhou amedrontado e eu estava atônita. Pela primeira vez percebi que era muito perigoso o caminho pensado e praticado pela minha religião. São aquelas pregações as responsáveis por transformar em terroristas os nossos jovens. Nenhum governo muçulmano é perigoso para eles, e, dentro desta dinâmica, só os regimes tirânicos podem sobreviver. Modificar os pensamentos islâmicos não é fácil, especialmente porque as mudanças precisariam vir deles. E os muçulmanos não estão genuinamente interessados em reformas. Uma enorme e bem fundamentada campanha, em operação desde 11/09/2001, é um trabalho sobre a imagem e a reputação do Islã. Mas isto não confronta a fundamental necessidade de uma reforma islâmica. Após 11/09/2001, quebrei meu silêncio. Alguns árabes e muçulmanos também encontraram a força, o comprometimento e a honestidade em seus corações para falar que os Estados Unidos e Israel não são os inimigos. Cruzando a América, tenho tido o privilégio de encontrar muitas pessoas. Temos partilhado temores e abraços com muitas mulheres e jovens estudantes. Americanos simplesmente se surpreendem pela cultura muçulmana. Querem saber porque os muçulmanos não se sentem ultrajados pelos acontecimentos de 11/09. Querem saber porque os muçulmanos moderados não se manifestam a respeito. Com o passar do tempo, comecei a receber e-mails de muçulmanos que concordavam comigo. Eles queriam viver em paz com Israel, mas estavam com medo de falar. Entendi então que havia a necessidade de um fórum para expor idéias e falar livremente, abertamente ou como anônimos. Recentemente, uma mulher palestina, vivendo agora nos Estados Unidos, e que partilha meus pontos de vista, mandou-me um e-mail que coloquei no meu site. Fora do costume, deixei-a como anônima. Mas ela me respondeu pedindo que eu colocasse seu nome completo. Já é tempo dos árabes livrarem-se do tabu que é a crítica a si mesmo. Um movimento de reforma do mundo árabe é desesperadamente necessário. Lá existe virtude e bondade que precisam se manifestar. É dever do bom muçulmano ser compassivo e tolerante, não só através das palavras, mas principalmente através das ações. Nós precisamos de uma cultura no Oriente Médio que reflita a diversidade de seus povos e que respeite direitos iguais para todos, judeus, cristãos e muçulmanos. Um objetivo pode ser dar as boas vindas ao povo de Israel como vizinhos, e convidá-los para crescerem conosco numa atmosfera de coexistência e paz. Sinto-me prudentemente otimista que o lado bom da natureza humana possa prevalecer. Nota: Palavras de origem árabe usadas nos texto: Fedayeen: aquele que aprende a sacrificar sua vida por uma causa. Shahid: Shaheed: mártir. Modernamente refere-se à pessoa que morre por uma causa política. Fatwa: decisão legal tomada por especialista em leis islâmicas Nota do Editor: Nonie Darwish trabalha como editora e tradutora, é naturalizada norte-americana, vivendo nos Estados Unidos faz 25 anos. Tradução: Regina Caldas.
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