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Crônicas
26/01/2005 - 17h28
Celeste
Nádia Timm - Agência Carta Maior
 

Nesses dias sem tempo para curtir a rede do jardim, sinto falta de olhar o céu. Não há paisagem terrestre que se compare ao espetáculo do infinito azul sobre o cerrado, no coração do Brasil.

Quem nasceu perto do mar, de algum rio, montanha, ou na metrópole, nem imagina a beleza que encontramos ao olhar para cima, nesta região. No planalto, o céu não concorre com a superfície. Quando o olhar muda de rumo e troca o horizonte pela verticalidade, a sensação de liberdade flutua no espaço.

Ao voltar da paisagem celeste, depois do vertiginoso estado poético, ressurge o encanto de perceber o chão, com seus tons avermelhados, róseos e verdes, junto aos bichos na terra, sob o som de bichinhos do ar.

Periquitos e papagaios nas árvores das ruas fazem estardalhaço nas manhãs goianas. Passarinhos, abelhas, borboletas em vôos rasantes ressurgem na lembrança. Adoro a caminhada bem cedo para encontrá-los em revoada e rebuliço.

Não, não estou numa crise de bucolismo, nada disso. Está mais para uma simples atração por sutis manifestações da beleza. E tanto faz estar na cidade do interior, ou na metrópole.

Quando morava em Sampa foi a vez do céu cinzento despertar-me do torpor das tardes solitárias. Nas ruas da Liberdade, com seus signos budistas, decoração oriental na porta dos restaurantes e inferninhos havia um quê de celestial.

A decadência, apesar de triste, tinha fogo, o brilho da vida. Em pleno trânsito congestionado nas ladeiras estreitas, nos miseráveis imigrantes e suas expressões indefiníveis, nas bandeirinhas e lanternas de papel sobre abismos provocados pela falta de comunicação, pairava o mistério.

Enquanto isso, no espaço, nuvens imensas, grávidas, preparavam para se derramar no ar gelado, sobre os enfeites vermelho e branco, sobre pardaizinhos em curtos e prazerosos vôos.

Eu adorava banhos de chuva e caminhar na enxurrada. Cenário perfeito para a intensidade da paixão pela pintura, meu fascínio naquela época. Também lá, o céu tinha magia.

A diferença talvez fosse a ausência do embalo preguiçoso da rede. Ou seria a ausência dessa vontade de perseguir meus sentidos com lupa e guardar, com palavras, cada nuance das cores destes céus, que tenho hoje?

Nas esquinas da Boca do Lixo, entre neons e garoa, assisti a namoros de prostitutas, vai-e-vem da venda de drogas, viciados no jogo do bicho fazendo sua fezinha.

Conheci Celeste nesta época. Ela vivia no quartinho de um beco repleto de casarões despencando. A moça sonhadora, de olhar morno, melancólico, adorava ouvir-me, nas tardes úmidas, enquanto bebericava o chá que trazia na garrafa térmica. Pedia sempre que eu lhe contasse mais sobre outros céus.

Abria o sorriso quando eu descrevia, oferecendo milhares e adjetivos à aurora e ao crepúsculo que incendeiam o espaço à beira dos rios Araguaia e Tocantins.

Ou aqueles que enternecem, e semeiam lendas, como os da lagoa dos Kamayurá, no Parque Indígena do Xingu, em outros Brasis de distantes noites estreladas, mornas e perfumadas.

Celeste entrava devagarinho no ateliê. Pedia licença e ficava parada em pé, esperando que eu largasse o desenho e puxasse conversa. Não falava de si. Queria ouvir minha descrição exagerada dos céus das cidades onde vivi. Às vezes, juntava os tubos de tinta e lápis colorido, mostrando cores de uma composição imaginária e fazendo trocadilhos com seu nome.

Só soube que estava condenada tempos depois, quando sumiu de vez. Uma menina de rua trouxe a notícia de que estava morta. Voou de um prédio, me disse. Não suportou a idéia de estar contaminada.

Celeste preferiu mergulhar no azul à enfrentar a Aids, chorei, misturando tintas e saudade. Fechei os olhos, e a dor despencou, fogo e água - feito uma terrível tempestade sobre minha juventude.

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